Ex-velejadora, arqueira é revelação do Time Brasil para o Pan

Yahoo Esportes
Ana Luiza Caetano é uma das promessas do Time Brasil (Jonne Roriz/Exemplus/COB)
Ana Luiza Caetano é uma das promessas do Time Brasil (Jonne Roriz/Exemplus/COB)

Por Alexandre Massi (@alexmassi)

Se os traços no rosto ainda são de menina, basta trocarmos algumas palavras com Ana Luiza Sliatchicas Caetano para notar que estamos diante de uma mulher à frente de seu tempo. Com apenas 16 anos, Lulu, como é conhecida entre os mais próximos, acumula experiências nos mais variados campos de atuação: veleja desde criança, é autora de dois livros e integra a seleção brasileira adulta de tiro com arco. Isso sem contar os treinos de kung fu, as aulas de inglês e a participação nas Olimpíadas de Matemática.

Role para baixo para continuar lendo
Anúncio

Com uma formação diversificada e muitos talentos, ela terá a oportunidade de apresentar alguns de seus predicados ao torcedor brasileiro nos Jogos Pan-americanos Lima 2019, onde será uma das atletas mais jovens a integrar a delegação nacional.

Mais no Yahoo Esportes

“Nunca imaginei que as coisas fossem acontecer tão rápido para mim. Foi uma grande surpresa”, diz a arqueira, natural de Maricá (RJ), que conheceu o esporte há apenas cinco anos.

Mas para entender como essa adolescente atingiu o status de uma das melhores atletas do país na modalidade, é preciso retomar sua trajetória esportiva, que começa aos sete anos, no Rio Yacht Club, em Niterói (RJ), quando Lulu conheceu a vela. Após passar alguns meses observando o irmão João navegar pela Baía de Guanabara, decidiu ingressar no mundo náutico e, com seu barco-escola (classe Optimist), abriu-se para o mundo.

“A vela me possibilitou viajar por todo o litoral brasileiro e conhecer pessoas de vários lugares. Aos 12 anos, disputei a minha primeira grande competição, que foi também a minha primeira viagem ao exterior e a primeira vez que fiquei longe da família. O esporte ampliou a minha visão de mundo, permitindo um contato com a natureza e um envolvimento com questões ambientes”, explica a atleta, que se tornou vegetariana aos dez anos.

Sua determinação e disciplina impressionaram desde cedo. Movida pela vontade de alcançar melhores resultados, Lulu abria mão das festas de aniversário dos amigos e familiares para passar mais tempo na água. Quando o “sumiço” começou a gerar questionamentos, ela decidiu colocar no papel o que sentia ao velejar.

“Eu tinha um diário de bordo para contar o que acontecia nos campeonatos e achei que dessa forma conseguiria dividir com os amigos e familiares o meu amor pelo esporte. Só que o meu avô conhecia uma editora, que amou meus textos e decidiu publicar um livro.”

O sucesso de Bons Ventos: Diário de Aventuras Iradas rendeu-lhe diversos convites de escolas, inclusive de outras cidades, para falar sobre o livro. Ao longo desse périplo, visitou colégios de Niterói, Rio de Janeiro, Maricá, Campos e Brasília.

“Foi surreal dar palestras para gente mais velha do que eu. Era muito legal ouvir as crianças dizerem que gostaram do livro e que começaram a velejar por minha causa. Cheguei a participar da inauguração de um projeto em Brasília, com o auditório lotado. Fui de avião, com tudo pago, e ainda levei a minha família junto, graças ao meu trabalho.”

Mas sua experiência no meio editorial não parou por aí. Após uma de suas palestras, recebeu novo convite: escrever um livro paradidático, diferente do modelo tradicional, que tornasse a leitura mais agradável para as crianças. Foi assim que nasceu Eureka, que aborda, entre outros assuntos, os valores olímpicos, o folclore brasileiro e a conscientização ambiental. Para coroar a ótima impressão deixada por suas obras, Lulu ainda foi chamada a integrar uma mesa-redonda no principal evento literário do país, a Flip, em Paraty.

“No primeiro ano, fui à festa incentivada pelos meus pais, mas sem entender muito o que estava acontecendo. Na edição seguinte, por já ter feito contato com vários autores, recebi esse convite, só que eu tinha um campeonato na mesma data. Então, para que eu pudesse participar do evento, eles anteciparam a organização de uma regata para a véspera da Flip”, conta Lulu, referindo-se à Regata do Instituto Náutico Paraty, realizada anualmente em parceria com a Flipinha, voltada ao público infanto-juvenil.

Lulu quando ainda velejava (Arquivo Pessoal)
Lulu quando ainda velejava (Arquivo Pessoal)

A transição da vela para o tiro com arco teve, uma vez mais, à influência de seu irmão mais velho. Em 2014, ao completar 15 anos, João atingiu a faixa etária limite para velejar com os barcos da classe Optimist e, por isso, decidiu conhecer o tiro com arco, cujo centro de treinamento da seleção brasileira está localizado em Maricá, sua cidade-natal. Como fizera antes, Lulu decidiu acompanhar seus treinos e se encantou imediatamente pela modalidade.

Durante três anos, a jovem procurou conciliar os dois esportes, mas a partir daí não foi mais possível: precisou escolher somente um. E a opção pelo tiro com arco se deu, entre outros motivos, pela localização do CT, próximo à sua casa, e pela rápida adaptação à modalidade.

“Por causa da vela, treinava menos que a maioria dos arqueiros. Mesmo assim, em 2017, acabei batendo o recorde brasileiro infantil e me classificando para o Mundial Cadete, em Rosário (Argentina). Aí pensei: ‘se treinando menos já consigo esses resultados, o que posso fazer se levar o tiro com arco mais a sério?’”

A competição em Rosário marcou a estreia de Lulu pela seleção e o início de uma ascensão relâmpago. Em 2018, nas primeiras competições internacionais adultas de sua carreira, a atleta foi campeã por equipes nos Jogos Sul-americanos de Cochabamba (Bolívia) e terceira colocada no campeonato pan-americano de Medellín (Colômbia). Além disso, participou dos Jogos Olímpicos da Juventude, em Buenos Aires (Argentina). Para 2019, seu principal objetivo, fora os Jogos Pan-americanos, é o Mundial Juvenil, na Espanha.

“Acho muito legal ver a minha evolução de uma seletiva de Mundial Cadete para essa do Mundial Juvenil. Antes, era muito difícil atingir a pontuação de 615 pontos. Dessa vez, o índice era 625 e já não foi tão complicado: consegui 637. Vejo o meu crescimento e percebo como estou mais tranquila e confiante na linha de tiro.”

Na reta final de preparação para o Pan, Lulu e o restante da equipe brasileira receberam uma boa notícia: após passarem boa parte do ciclo olímpico sem um técnico, os atletas da seleção treinam agora sob as orientações do cubano Jorge Fernández. Com um treinador à disposição, a atleta se permite sonhar com os Jogos Olímpicos de 2020.

“Sonho com Tóquio, mas o Brasil precisa conquistar a vaga primeiro. É mais fácil fazer planos sabendo se o país terá vagas individuais, por equipe ou se precisará disputar uma repescagem”.

Com os pés no chão e maturidade de sobra, Lulu tem tudo para, num futuro próximo, mirar novos alvos.

Siga o Yahoo Esportes: Twitter | Instagram | Facebook | Spotify | iTunes | Playerhunter

Leia também