Anúncio da Copa América no Brasil tem repercussão no mundo político; veja reações

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SÃO PAULO, SP, E RECIFE, PE (FOLHAPRESS) - O anúncio de que o Brasil será a sede da Copa América entre junho e julho gerou reações variadas no mundo político. Figuras aliadas ao governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) procuraram mostrar, embora timidamente, que veem com bons olhos a definição. Os oposicionistas, com diferentes graus de indignação, questionaram a decisão repentina.

A competição entre as seleções sul-americanas de futebol ficou sem sede no último domingo (30), quando a Argentina abriu mão de recebê-la pelo aumento de casos de Covid-19 em seu território -a Colômbia, que dividiria os jogos com a Argentina, sob tensão social, fora descartada dias antes. Horas depois, na manhã de segunda (31), o Brasil abraçou o torneio.

A Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) agradeceu nominalmente a Jair Bolsonaro pelo acerto, recebido com surpresa em um país que se aproxima das 500 mil mortes pelo novo coronavírus. Pela tabela original, os jogos ocorrerão entre 13 de junho e 10 de julho, o que exige muita agilidade para que o torneio seja realizado.

Está instalada no Senado uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) justamente para investigar ações e omissões da gestão Bolsonaro na pandemia, e o futebol agora ganha peso na discussão. Figuras como o presidenciável Ciro Gomes (PDT) apontaram que o presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), Rogério Caboblo, deve ser chamado a depor.

"A CPI da Covid tem que agir preventivamente: convocar o presidente da CBF e as autoridades esportivas para saber quais os cuidados que serão tomados para realização da Copa América. A questão não é gostar ou não gostar de futebol. Eu adoro! A questão é não brincar com a vida dos brasileiros. E não fazer demagogia a troco da morte de inocentes", afirmou Ciro.

O presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), foi questionado pela reportagem sobre a Copa América e se posicionou de maneira contrária à sua realização. No entanto, ele entendeu, em uma primeira avaliação, que o tema não deve entrar na pauta da comissão.

"Qual é o atrativo de uma Copa América no Brasil? Qual é o custo e o benefício? Só vejo custo. Mas [apurar a realização no Brasil] não será o papel da CPI. Poderá ser, vai depender da decisão da maioria. Hoje, quem deverá se manifestar sobre isso são os infectologistas, sanitaristas, para falar sobre os riscos, não a CPI. Devemos investigar omissões do governo na CPI. Sou totalmente contra realizar a Copa América", afirmou Aziz.

Já Randolfe Rodrigues (Rede-AP) vê como necessária a atuação da CPI no assunto. O vice-presidente da comissão, claro em sua oposição ao governo, afirmou ter protocolado um requerimento para que Rogério Caboclo seja ouvido. De acordo com ele, o requerimento será votado na quarta-feira (2).

"O governo demorou nove meses para responder a 41 emails da Pfizer oferecendo vacina. E demorou meia hora para responder à Conmebol. São curiosas as prioridades desse governo no enfrentamento da pandemia. É necessário que o Rogério Caboclo venha à CPI para nos informar quais medidas, se é que há medidas sanitárias, serão tomadas para evitar uma propagação ainda maior do vírus com a vinda de 12 países diferentes ao nosso", disse Randolfe à reportagem.

O relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL), também se mostrou bastante crítico. "Com mais de 462 mil mortes, sediar a Copa América é um campeonato da morte. Sindicato de negacionistas: governo, Conmebol e CBF. As ofertas de vacinas mofaram em gavetas, mas o ok para o torneio foi ágil. Escárnio", publicou.

Também houve reação na outra Casa do Congresso Nacional. O deputado federal Júlio Delgado (PSB-MG) declarou que apelará ao STF (Supremo Tribunal Federal) contra a realização do torneio no Brasil.

"Os números nossos [da pandemia] e a proibição de eventos não permitem que o presidente Jair Bolsonaro deliberadamente decida que uma Copa desta importância, com dez seleções de dez países onde a gente não sabe como está o controle da pandemia, seja realizada aqui, só pela questão financeira", disse.

Entre as figuras ligadas ao governo, enquanto o próprio presidente não se manifesta sobre a questão, há uma tentativa de relativizar os riscos. O vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) admitiu que eles existem, mas afirmou que eles são menores do Brasil do que seriam na Argentina.

"Segundo as razões da Conmebol, nós temos estádio, organizamos a última [Copa América, em 2019], estamos com o campeonato [Brasileiro] correndo aí, sem problema nenhum", disse Mourão. "É só dividir bem as sedes, acabou. A vantagem nossa é a amplitude do país e a quantidade de estádios. A gente pode dispersar esse povo todo."

Ainda não há uma definição a respeito das cidades que receberão as partidas. Estados cujos governadores são alinhados a Bolsonaro se mostraram receptivos a servir de palco para os jogos, que, não havendo mudança no cronograma, terão início em duas semanas.

O governo do Distrito Federal, conduzido por Ibaneis Rocha (MDB), não vê problema em sediar rodadas do torneio e tentou recentemente receber público no estádio Mané Garrincha. Isso é observado com simpatia pela Conmebol, que gostaria de ver torcedores nas arquibancadas ao menos na decisão.

No Amazonas, dirigido pelo governador Wilson Lima (PSC), também há uma disposição em realizar os jogos "com toda a expertise obtida em grandes eventos esportivos", como explicou a nota divulgada pela Secretaria de Saúde.

Em um primeiro momento, no entanto, os políticos ligados a Bolsonaro evitaram fazer uma defesa efusiva da competição. Essa situação poderá mudar quando o próprio presidente se manifestar, o que não ocorreu até a publicação deste texto.

Já alguns opositores de Bolsonaro no nível estadual logo se posicionaram de maneira contrária ao evento. Pernambuco, por exemplo, estado governado por Paulo Câmara (PSB), antecipou-se à possibilidade de receber partidas e avisou que isso não será possível diante do "atual cenário epidemiológico". Já o governador da Bahia, Rui Costa (PT), declarou: "Não há possibilidade de flexibilizar regras para que a Bahia seja sede".

Em São Paulo, João Doria (PSDB), que tem procurado se posicionar como ferrenho crítico ao governo federal, adotou um discurso moderado. Defendeu a "Copa da Vida", em referência à vacinação, mas teve uma conversa com Walter Feldmann, secretário-geral da CBF, e não se opôs à Copa América. Em nota, o governo estadual afirmou que "não fará objeção caso a CBF defina São Paulo como um dos locais de jogos".

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