Análise | Trine 4 retorna bem às origens mas demonstra cansaço

Daniel Álvares

O tempo voa! Em 2009 o primeiro capítulo de Trine foi lançado. Ainda lembro como se fosse ontem do jogo com gráficos estilizados e três heróis improváveis como protagonistas que ganhou o público com seus puzzles bem desenvolvidos e fases com mecânicas de travessia no clássico 2.5D.

O sucesso rendeu um segundo jogo para a série, que introduziu o multiplayer online e apresentou uma nova engine que deixou os gráficos ainda mais interessantes. Para não deixar seus fãs cansados da mesma fórmula, a Frozenbyte desenvolveu o Trine 3 em um ambiente 3D, mas o resultado passou longe do esperado e para muitos a recepção ruim tinha decretado um hiato para a franquia.

Bom, a Frozenbyte ainda não se cansou de Pontius, Zoya e Amadeus e por isso recrutaram os heróis para mais uma aventura em Trine 4, que tenta retornar às origens e mostrar que a série ainda tem lenha para queimar.

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Chamado para a aventura

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Trine 4 começa com uma missão para cada um dos heróis clássicos da franquia. Muito além do objetivo narrativo, que mostra como eles estão sobrevivendo separados em dias comuns, esse prólogo serve como um tutorial que ensina as habilidades de cada um dos personagens.

O mago Amadeus pode criar objetos – a princípio só uma caixa – e levitar outros, sendo o responsável por fazer o grupo chegar em locais mais altos ou distantes. O guerreiro Pontius consegue quebrar as coisas com sua espada e usar o peso do seu corpo para interagir com diversos objetos, como gangorras. Já a ladra Zoya usa sua agilidade e equipamentos para uma série de funções, especialmente com sua corda que é importantíssima para resolver os principais enigmas do jogo.

Tudo isso é apresentado de forma bem orgânica, com enigmas que vão ficando mais complexos, mas abusam da repetição para fixar na sua memória o que cada personagem é capaz. Por conta desse tutorial bem executado, jogadores de primeira viagem podem ficar tranquilos, pois vão pegar o ritmo rápido e ter jogado os jogos anteriores não é uma exigência. O mesmo vale para a história, que conta com poucas ligações com os jogos anteriores se não pequenas referências e os chamados “fã services”.

O chamado para a aventura que une os heróis de novo é um pedido real. O príncipe do reino tem poderes mágicos mas ainda não os domina e vez ou outra acaba soltando alguns monstros dos seus pesadelos no mundo. Na tentativa de ensiná-lo a se controlar, os pais o colocaram em uma escola de magia que ele odeia. Como clássico menino rebelde, o príncipe foge e o objetivo dos três heróis é persegui-lo por todos os cantos do reino e trazê-lo de volta para a escola.

Visual e experiência sonora memoráveis

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A direção de arte de Trine 4 é de impressionar. Os cenários são de tirar o fôlego, com elementos em primeiro e segundo plano com detalhamento de sobra e cores vibrantes, o que garante a experiência de estar dentro de um conto de fadas.

São florestas encantadas, castelos felizes, castelos amaldiçoados, esgotos e diversos biomas representados, sempre com criaturas e elementos fantásticos que ditam o tom da narrativa. E o nível não cai com os personagens. Com uma pegada estilizada, eles são simples mas bem feitos e com uma animação competente. Isso vale tanto para os heróis quanto para os inimigos e personagens secundários que aparecem durante a aventura. A mistura lembra visualmente os melhores momentos de outra série famosa de contos de fada, o Fable da Microsoft.

Para fechar o ótimo pacote audiovisual, a trilha sonora também cumpre bem o seu papel, com temas divertidos e clássicos de filmes de mundo fantástico. Todo esse cuidado com essa parte, aliada à boa performance que mantém os quadros por segundo sempre estáveis, proporcionam uma jornada agradável e um experiência de alto nível.

Enigmas que testam sua capacidade

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Após o fiasco com a tentativa nas três dimensões, Trine 4 volta para as suas origens no formato 2.5D. A progressão pelas fases é bem linear e em cada novo quadro é necessário resolver um enigma para avançar. As suas ferramentas estão no próprio cenário e nas habilidades de cada personagem, seu trabalho é descobrir como diabos usar tudo isso na ordem correta.

Como o jogo pode ser jogado por mais de um jogador, os enigmas são levemente modificados para continuarem desafiadores a depender do número de jogadores no grupo. Isso deixa tudo ainda mais impressionante, já que vários destes puzzles testam o jogador ao limite e também devem ter exigido do game designers todo um processo criativo muito minucioso.

Com o passar do tempo, o número de variáveis vai ficando enorme, já que são diversas habilidades aprendidas por cada personagem e os elementos do cenário vão ficando cada vez mais numerosos. No modo cooperativo o desafio é ainda maior, mas a diversão também acompanha o nível de dificuldade. A comunicação e execução das habilidades em conjunto é garantia de horas de diversão.

Após passar da metade no Trine 4, comecei a ficar incomodado com a repetição do loop, que permanecem no mesmo ritmo desde o tutorial. Os puzzles menos importantes, que só abrem uma porta ou levam até os que realmente importam, ficam cada vez menos interessantes e a sensação de cansaço toma conta.

O que torna essa sensação ainda mais dominante é a história que de tão simples e bobinha, acaba ficando totalmente em segundo plano. No fim, a jornada acaba com boas lembranças, mas com um alívio por ter finalmente parado de se repetir, o que não é o ideal para qualquer jogo.

Combate é o ponto baixo

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Em vez de deixar o combate orgânico e por toda a fase, os desenvolvedores optaram por pequenas sessões impositivas. Nesses locais uma parede de fumaça roxa indica que os inimigos vão aparecer. Após bloquear todas as saídas, eles aparecem para enfrentar o seu grupo.

Esses encontros são rápidos e pouco inspirados. O balanceamento dos heróis é bem fraco e fora o Pontius – que se vira bem até demais nessas horas – os outros dois protagonistas penam para engrenar. A Zoya tem flechas lentas e acaba só sendo útil de verdade contra inimigos com fraquezas elementais ou quando é preciso congelar alguém. Já o amadeus precisa conjurar seus objetos e jogar sobre a cabeça dos adversários, com controles meio travadões e lentos para esse tipo de abordagem que precisa ser rápida e precisa.

Se o combate com os lacaios pelo caminho é sempre bobo e dispensável, os encontros com chefes do jogo são mais próximos dos puzzles. Cada chefe tem um modus operandi que exige raciocínio e o uso de habilidades específicas dos personagens para ser superado. A exceção é infelizmente o último chefe, que é decepcionante de fácil e nem chega perto da genialidade dos seus antecessores pelo caminho da aventura.

Se os puzzles seguram o jogo, pelo menos os mais importantes deles, o combate parece ser o ponto fraco. Cada encontro pelo caminho parece desnecessário e a vontade é sempre de que eles acabem logo.

Conclusão

Trine 4 é um exemplo de volta às origens que deu certo. O retorno ao 2.5D com puzzles geniais ditam o tom da aventura. Se com o tempo as mecânicas ficam cansativas e combate e história não ajudam, pelo menos o visual polido e o áudio bem executado garantem a experiência de um conto de fadas com os três heróis improváveis da franquia.

Prós

  • Puzzles bem pensados e que variam de acordo com o número de jogadores

  • Cenários belíssimos

  • Áudio que cumpre bem o papel

  • Heróis continuam carismáticos

Contras

  • Combate é bobo e maçante

  • História muito simples, que não prende o jogador

  • Repetição das mecânicas e loop deixa o jogo cansativo

Nota: 7.8

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