Análise: primeira derrota no basquete desde Atenas mostrará uma face camuflada pelo sucesso dos Estados Unidos

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Ninguém gosta de perder no esporte, mas a relação dos Estados Unidos com o basquete internacional vai um pouco além disso. Turbinada pela principal liga da modalidade do mundo, a equipe norte-americana se acostumou a atropelar adversários e empilhar títulos no cenário de seleções. Nesta terça-feira, porém, a atual tricampeã olímpica iniciou a busca por sua 19ª medalha e um possível 16º ouro com um choque: derrota por 83 a 76 para França, a primeira desde os Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004.

O revés deve mostrar uma face há algum tempo ausente da seleção norte-americana, ou pelo menos camuflada no sucesso: a do orgulho. A história nos lembra que o Dream Team de 1992, em Barcelona, foi formado após uma dolorosa derrota para a União Soviética nos Jogos de Seul, quatro anos antes, um bronze que nunca foi bem digerido pelo país, dado o contexto da então recente Guerra Fria e da rivalidade esportiva pregressa com os soviéticos. Na época, a pressão pela liberação de jogadores da NBA de atuarem nos Jogos cresceu e acabou bem-sucedida. Os EUA então montaram um esquadrão com nomes como Michael Jordan, Magic Johnson e Larry Bird.

De lá até 2004, os americanos simplesmente não sabiam mais o que era perder. Foram três ouros seguidos sem qualquer derrota, até conhecerem novamente o sabor rejeitado e amargo da decepção contra o histórico time argentino de Manu Ginóbili, na semifinal da Olimpíada da Grécia. Novamente machucados, alinharam Kobe Bryant, LeBron James e Dwyane Wade quatro anos depois para devolveram a supremacia em Pequim, e o ciclo do tricampeonato se repetiu.

Nos dias de hoje, o contexto é diferente. Ainda reflexo da pandemia da Covid-19, a NBA teve temporada exaustiva para os jogadores, mesmo que mais curta. A equipe tem três finalistas da última edição (Jrue Holiday, Khris Middleton e Devin Booker), além de atletas que foram longe na competição e chegam desgastados fisicamente, casos de Kevin Durant, Draymond Green e Jayson Tatum, por exemplo. A força da França, liderada por Rudy Gobert e Evan Fournier, nomes carimbados da NBA, também não é surpreendente aos norte-americanos: foram os europeus os algozes na penúltima derrota dos EUA em competições mundiais, nas quartas de final do Mundial de Pequim, em 2019 — a última foi contra a Sérvia, na disputa pelo quinto lugar do torneio.

Naquele Mundial, os Estados Unidos viram na prática a evolução do basquete internacional. Se deram ao luxo de enviar uma equipe alternativa, quase uma terceira opção entre o leque dos principais jogadores da NBA da época, e acabaram sofrendo. A lição e a dose de orgulho levaram a equipe a partir para Tóquio com um time bem mais qualificado que o de dois anos atrás.

As eleições para MVP (melhor jogador) da liga norte-americana também têm sido um indicativo nesse sentido. O sérvio Nikola Jokic ganhou nesta temporada (em disputa com Steph Curry e outro estrangeiro, o camaronês Joel Embiid), após duas temporadas seguidas de vitória de Giannis Antetokounmpo. Há menos de uma semana, o grego foi eleito o melhor jogador das finais, quando viu seu Milwaukee Bucks sair com o título, com direito a atuação de 50 pontos no último jogo.

A evolução dos adversários, a ainda recente (em termos olímpicos) troca de técnico — o multi-campeão e experiente Gregg Popovich substituiu o também muito bem-sucedido Mike Krzyzewski em 2017 —, o cansaço da temporada e as derrotas para Nigéria e Austrália na preparação chamaram a atenção. A derrota na estreia liga o sinal de alerta. Irã e República Tcheca, adversários próxima fase, não devem dificultar. Resta saber para que lado o orgulho da seleção americana a levará: o de subir o seu nível, como é tradicional, ou de dar sopa para o azar, como fez em 2019.

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