Carnaval! Com dinheiro da Crefisa, Mancha constrói hegemonia; desafio é se 'reinventar' sem ele

Em 2019, comemoração presencial; este ano, Leila ficou em silêncio após título da Mancha (Foto: Acervo/LANCE!)


'Dinheiro na mão é vendaval' diz canção de Paulinho da Viola que fez fama em trilha de novela. Pois quem viverá o refrão musical que se tornou um mantra da classe trabalhadora brasileira é a Mancha Verde. Após chegar ao seu segundo título do Carnaval de São Paulo, na última terça-feira (26), a agremiação ligada à principal torcida organizada do Palmeiras vê uma hegemonia consolidada pelo aporte financeiro da Crefisa. Mas precisará se reinventar após o rompimento com a presidente da empresa financeira, agora também mandatária do clube alviverde. Um enredo conhecido de outros carnavais, que o LANCE! relembra a vocês cada detalhe.

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Em primeiro lugar, é preciso descartar os juízos de valores. A Crefisa e Leila colocam o dinheiro onde quiser. É uma transação transparente, por mais que os motivos pessoais dela possam ser políticos, na prestação de contas não há irregularidades.

Como a própria Leila declarou ao jornal 'O Estado de S. Paulo' no início do ano, quando anunciou o rompimento com a organizada, o aporte financeiro é feito pela polêmica Lei Rouanet, seguindo os parâmetros legais previstos na Constituição brasileira.

- Chegam vários projetos à Crefisa todo ano pedindo apoio financeiro. Vários. Peças de teatro, filmes. Escolhemos o Carnaval - explicou Leila.

- Os caras falam muito. A Lei Rouanet para nós quem aporta o dinheiro é a Crefisa. O dinheiro não é nem do bolso dela, ela só direciona para quem quer colocar. Dinheiro que serviria para pagar imposto. Ou seja, é do governo. A gente não tem etiqueta de preço. Se errar, nós vamos conversar. Acha que está certo, cada um vive a sua vida. Não tem nada a ver com grana, havia respeito, havia toda as ideias que a gente trocou nesse tempo todo em que ela esteve se preparando para ser presidente - destacou o presidente da Mancha escola de samba, Paulo Serdan, a um podcast na mesma época.

Agora vamos aos fatos. A Crefisa despejou muito, mas muito dinheiro na Mancha. Os patrocínios acontecem desde 2016, quando foram dados R$ 250 mil à agremiação, que se sagrou campeã do grupo de acesso.

Importante fazer uma pausa aqui. Afinal idealizada por Serdan ainda em 1994, de olho na rival Gaviões da Fiel que começava a frequentar a primeira divisão da folia paulistana - principalmente com um espaço imenso na TV Globo - , a escola de samba saiu de vez do papel em 1995 por dois fatores: o primeiro, o de sobrevivência. Desnecessário lembrar aqui a história briga entre palmeirenses e são-paulinos no Pacaembu que levou à extinção temporária das organizadas (pelo menos no papel) no Estado. O segundo era calcado no rival alvinegro que vencera naquele ano também o primeiro título do Carnaval com um enredo mitológico e um samba-enredo lembrado até hoje ('Me dê a mão me abraça, viaja comigo para o céu...').

Ou seja, ter uma escola de samba poderia manter os manchistas unidos em meio ao período de turbulência pelo qual passavam as organizadas. Além, claro, de cumprir a função social sempre proposto pelas organizadas.

Novamente deixando o juízo de valor de lado, as torcidas organizaram se valeram muito do samba, mas em compensação deram muito a ele. Antes da Gaviões, o Carnaval paulistano era tratado de forma amadora, com fontes precárias de receitas. Depois da inauguração do sambódromo do Anhembi em 1991, na gestão Luiza Erundina (então no PT), quase sempre as arquibancadas viviam vazias nos desfiles, e os ingressos acabavam doados.

Foram as organizadas que mudaram esse cenário, atraíram patrocinadores fortes, alavancaram dinheiro da TV e principalmente aumentaram o sarrafo fazendo São Paulo ver, se não igual, em condições de peitar o Rio de Janeiro, ganhando inclusive os dois dias de desfile.

Nesse cenário, a Mancha Verde não passava de uma fraca coadjuvante da festa. Por mais que Serdan tenha galgado degraus na hierarquia do samba, principalmente na gestão Gilberto Kassab (PSD), quando pacificou e unificou a então rachada Liga das Escolas de Samba, sua agremiação tinha pouco destaque.

A Mancha subira pela primeira vez ao Grupo Especial em 2004. Chegou a fazer um enredo histórico em 2006, "Bem Aventurados Sejam Os Perseguidos, Por Causa Da Justiça Dos Homens... Porque Deles É O Reino Dos Céus", cujo samba é lembrado até hoje pelos sambistas ('A ópera vai começar...'). Mas conseguiu apenas o sétimo lugar.

Na virada daquelas décadas, a coisa parecia que iria. A escola engatou por três anos seguidos, entre 2010 e 2012, a quarta colocação e a consequente classificação para o Desfile das Campeãs, onde os olhares de desconfiança que restavam temerosos por episódios de violência se arregalaram com o fato de que ela desfilaria no mesmo dia que a rival Gaviões. Sem incidentes registrados, a maturidade parecia ter chegado quando, em 2013, em um desfile problemático e cheio de erros primários custaram a queda da Mancha.

Até a chegada da Crefisa, os palmeirenses seguiam em um bate e volta entre o Especial e o acesso. Mas Serdan tinha um plano. Conhecedor de Carnaval, dos bastidores e, principalmente, de como pensam os jurados, ele se valeu do bom relacionamento com Leila para aumentar as verbas recebidas. E consequentemente aumentar a posição da escola na classificação final. Foram R$ 1,3 milhão em 2017 (décimo lugar no grupo especial), R$ 2,3 milhões em 2018 (terceiro lugar no grupo especial), além dos R$ 3,4 milhões de 2019 (campeã no grupo especial).

Justo. A Mancha construiu sua hegemonia com o dinheiro aportado. Chegou ao vice em 2020 e em meio a uma pandemia manteve pagando em dia funcionários, colaboradores e fornecedores no ano passado. Em eterna mutação, Serdan copiou modelos da Gaviões dos anos 1990 e modernizou quando preciso, adaptando a escola nos moldes da Dragões da Real, que tem uma excelente diferenciação entre torcida do São Paulo e escola de samba.

O problema neste ano fica visível somente quando se compara com 2019. Na ocasião, Leila não só esteve presente in loco na comemoração do título, como ela e o marido José Roberto Lamacchia batizaram uma quadra de esportes inaugurada dentro da quadra da organizada. Desta vez, silêncio absoluto por parte da agora dirigente, que se encontra no Equador para acompanhar o jogo entre Palmeiras e Emelec pela Copa Libertadores. Ela nem mesmo teve o nome citado por Serdan nos agradecimentos.

O rompimento parece definitivo e preocupa a comunidade. Afinal no Carnaval, exemplos de escolas que amargaram queda livre após a saída de patronos não são raros. Em São Paulo, a Império da Casa Verde surpreendeu como a Mancha vindo dos grupos de acessos para conquistar um bicampeonato em 2005 e 2006 com o aporte do patrono Chico Ronda. Após sua morte, só uma conquista em 2016. No Rio, a Mocidade Independente foi uma potência enquanto teve Castor de Andrade vivo, ganhando em 1979, 1985, 1990 e 1991. Depois só um controverso título em 2017 dividido com a Portela, ganho no tapetão, e mesmo assim com a volta simbólica dos herdeiros da família Andrade à agremiação.

Se Mancha e Crefisa seguirem separados, uma coisa é certa. A estrutura está montada. E Serdan é astuto o suficiente para saber o que precisa ser feito para se manter no topo da folia paulistana. Resta saber como resolver uma equação onde dinheiro, a cada ano que passa, se torna mais essencial do que força de vontade...

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