"Amor de Mãe" contou belas histórias e ousou na linguagem, mas se perdeu no fim

Guilherme Machado
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Lurdes (Regina Casé), ao centro, com os filhos reunidos na cena final de
Lurdes (Regina Casé), ao centro, com os filhos reunidos na cena final de "Amor de Mãe". Foto: reprodução/Instagram/chay

Depois de mais de um ano e gravações interrompidas por conta da pandemia do novo coronavírus, “Amor de Mãe” chegou ao fim nesta sexta-feira (9). A novela marcou a estreia de Manuela Dias no horário nobre e acabou se mostrando uma obra altamente irregular. Por um lado, apostou em um texto de qualidade e em técnicas que fogem aos padrões de um folhetim tradicional. Por outro, lançou mão de recursos exagerados, sobretudo no final, e apresentou núcleos desinteressantes, para não dizer chatos.

A estreia da novela — que ocorreu em 2019, o que já parece uma década — foi cercada de elogios, pela direção, pelos diálogos, pelo estilo. O comentário mais comum é que aquilo “não era uma simples novela”, ou seja, tinha-se a ideia de que se tratava de um produto fora do comum, talvez uma espécie de série no horário das 21h.

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E de fato, há muito que se elogiar na trama: o texto delicado e preciso de Manuela Dias, a história potente de Lurdes (Regina Casé), e a própria personagem, que se tornou a mãe que todos no Brasil queriam ter.

Vários atores também conseguiram se destacar na novela além de Regina. Adriana Esteves brilhou com sua Thelma, uma mãe obsessiva que se mostrou uma vilã tresloucada, que só não caiu na caricatura por conta da precisão e do cuidado da atriz com a personagem. Mallu Galli também chamou a atenção com sua Lídia, uma personagem complexa, que permitiu à sua intérprete mostrar diversas facetas. Chay Suede foi outro que fez o público se emocionar e chorar com seu Danilo.

Em paralelo, porém, a novela teve muitas rachaduras, que foram ficando cada vez mais evidentes. Ficou claro logo no começo que, fora os dramas de Lurdes e Thelma, a história tinha muito pouco a oferecer. Mesmo Vitória (Taís Araújo), que foi anunciada como protagonista, foi murchando ao longo dos capítulos, perdendo cada vez mais espaço.

Isso para não falar dos núcleos que deram completamente errado. Isis Valverde viveu um de seus piores papéis na TV, na pele de Betina, uma personagem que nunca disse a que veio na trama, tanto que passou por no mínimo três arcos diferentes ao longo da novela.

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Mas, sem sombra de dúvida, o pior exemplo foi o do núcleo dos ambientalistas. O tema não foi tratado com a seriedade que merecia, foi representado por personagens absolutamente insuportáveis e só serviu para colocar a novela toda para baixo. Vladimir Brichta nunca encontrou o tom correto de seu Davi, de longe a pior figura de toda a trama.

O folhetim também não conseguiu fazer com que o público fosse cativado por seus casais, tanto que personagens trocaram de par romântico mais vezes do que é possível contar.

Segunda fase evidenciou falhas

Essas falhas ficaram mais evidentes na segunda fase. É compreensível que a pandemia tenha limitado as possibilidades de gravação do elenco. Entretanto, é fato que as tramas tiveram desfechos exagerados demais, que se amontoaram em uma sequência de tragédias, assassinatos e dramalhões.

O último capítulo, de certa forma, foi um amálgama das qualidades e falhas da trama. Por um lado, foi recheado de momentos que soaram aleatórios, como a chegada da mãe biológica de Tiago (Pedro Guilherme Guimarães), ou o sequestro do filho de Danilo e Camila (Jéssica Ellen), que saiu do nada e foi para lugar nenhum. Ao mesmo tempo, houve cenas bonitas, como a própria morte de Thelma e as que se passaram após o fim da pandemia — uma realidade que todos querem viver.

O final da trama foi bagunçado e emocionante, o que talvez seja a síntese da novela. Manuela ousou e brilhou no começo, mas foi perdendo a linha ao longo do tempo. Valeu a tentativa, mesmo com as frustrações. Que venha a próxima novela, e que, assim como no final de “Amor de Mãe”, possamos todos nos juntar em breve para fotos de família.

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