Amor de Pai: Ian McCall, ex-UFC agora luta pela maconha medicinal

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Ian McCall, ex-UFC agora luta pela maconha medicinal. Foto: Arquivo Pessoal
Ian McCall, ex-UFC agora luta pela maconha medicinal. Foto: Arquivo Pessoal

Em nossa conversa por telefone o ex-lutador estadunidense do UFC Ian “Uncle Creepy” McCall, 36, apresenta um tom de voz calmo e espaçado de alguém que encontrou uma iluminação em sua vida após anos de tumultos e decepções.

McCall deixou o octógono em 2018 enquanto ainda tinha um nome respeitável, e entrou em uma batalha ainda maior: levar medicinas alternativas para atletas e ex-atletas focando em remédios psicodélicos e o tema deste texto: maconha medicinal.

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Porém, mais do que ajudar os colegas de profissão, a maconha medicinal entrou de fato em sua vida para ajudar sua filha que aos dois anos e meio de idade passou a sofrer de artrite reumatoide juvenil, mal inflamatório crônico que afeta articulações, dentre elas as das mãos e dos pés.

“Maconha medicinal trouxe saúde para minha família e aqueles que amo”, revela McCall em uma exclusiva para o Yahoo Brasil. O ex-atleta recorda que maconha não era um tabu entre sua família, a única resistente era sua mãe, entretanto, ele sabia: “assim que minha filha ficou doente que seria o que a ajudaria.”

McCall visualmente já se destacava de seus pares, o bigode que lembra os artistas dos espetáculos de vaudeville –muito populares nos EUA e no Canadá em finais do século XIX e início do XX -, corpo tatuado medindo 1,63m e lutando nas categorias dos galos (até 61 kg) e depois na dos moscas (até 57 kg).

O californiano se manteve em alto nível por 15 anos deixando em 2018 um cartel de 13 vitórias, sendo quatro por nocaute e três por submissão, sofrendo sete derrotas. Faixa preta de Kung Fu e roxa de Jiu-jítsu brasileiro, também praticou wrestling na juventude.

Mas apesar da figura pública de um homem forte e valente, o interior guardava outro lado menos conhecido do artista marcial. Em entrevista ao site da Forbes americana de janeiro, McCall abriu sua jornada pessoal: “Houve muitos danos cerebrais, muitos traumas que ocorreram comigo. Eu estava quebrado e cheguei ao ponto de querer me matar.”

Um dos principais males que afetam atletas e ex-atletas de esportes de alto contato é a encefalopatia traumática, vulgarmente conhecida como demência pugilística, a qual pode causar perca de memória, mudanças comportamentais e perturbação do humor entre outros problemas, podendo ser tratada por remédios que possuem em sua base cannabidiol.

A maconha medicinal também pode ser utilizada nos tratamentos de dores crônicas, insônia, depressão, ansiedade, epilepsia além das náuseas e vômitos em pacientes que em processo de quimioterapia.

Os dilemas de McCall não me são estranhos, uma vez que como praticante de wrestling, além de cobrir lutas por considerável tempo, vi e vejo muitos colegas enfrentando estas batalhas em suas rotinas, porém sem o apoio profissional necessário e com receio de se exporem por conta dos preconceitos sociais, dos quais já são vítimas por sua escolha profissional.

Maconha medicinal nos esportes

Os antigos indianos acreditavam que o uso de maconha aumentava a coragem e a capacidade de luta dos guerreiros, aponta o neurocientista brasileiro Dr. Renato Malcher Lopes, professor da Universidade de Brasília, e um dos principais pesquisadores e defensores dos benefícios da planta no país, em e-mail para o Yahoo.

A maconha ainda consta no código disciplinar da Wada (Agência Mundial Antidoping) conforme visto no caso da velocista estadunidense Sha’Carri Richardson, cortada dos Jogos de Tóquio; e Dr. Malcher Lopes recorda que o lendário futebolista argentino Diego Armando Maradona "foi eliminado da Copa do Mundo de 1994 por usar um descongestionante nasal contendo efedrina, uma substância de uso normal na medicina, mas considerada doping, porque modifica a capacidade física e a motivação do atleta. Então, são situações específicas. Mas, em algumas categorias esportivas, essas restrições estão sendo reduzidas pelas respectivas confederações.”

Sha'Carri Richardson ficou fora das Olimpíadas de Tóquio após testra positivo para maconha (Foto: Patrick Smith/Getty Images)
Sha'Carri Richardson ficou fora das Olimpíadas de Tóquio após testra positivo para maconha (Foto: Patrick Smith/Getty Images)

Questionado quanto ao uso de maconha medicinal para atletas, Dr. Malcher Lopes explica que os fitocanabinoides presentes na planta medicinal dilatam os alvéolos pulmonares, fato que melhora a oxigenação do sangue, sendo assim uso adequado de canabinoides pode ser feito por inalação de extratos gasosos, obtidos através de aparelhos vaporizadores, que não fazem combustão. Ou podem ser ingeridos na forma de extratos e formulações comestíveis. O uso fumado, por outro lado, não é recomendado, já que o uso crônico por meio da fumaça pode causar bronquite e acabar prejudicando a respiração.

O cientista aponta que há também os endocanabinoides (canabinoides produzidos por nosso próprio corpo), os quais aumentam durante a atividade física intensa, causando bem-estar e redução das dores. O fenômeno natural pode ser amplificado com a ingestão de canabinoides. Desta forma, os atletas sentem menos dores físicas e desconfortos corporais e respiratórios durante a realização de exercícios. Além disso, os canabinoides possuem um efeito mais duradouro de inibição de processos inflamatórios, frequentemente presentes nos músculos e tendões de atletas.

Enquanto escrevo esta matéria, há muitos cientistas de diversas áreas no Brasil e no mundo pesquisando sobre os usos medicinais da cannabis, e também os efeitos do uso recreativo para atletas.

Malcher Lopes afirma que apesar dos mecanismos ainda não serem bem definidos, há estudos que indicam que usuários crônicos de cannabis tendem a ser mais ativos fisicamente e possuir melhor índice de massa corporal do que não usuários. Embora de forma aguda a cannabis seja famosa por causar relaxamento e aumentar o apetite, é provável que exista mecanismos metabólicos que, no longo prazo, favorecem o acúmulo de mais massa magra do que de gordura.

Por outro lado, há dados “conflitantes e inconclusivas sobre os possíveis riscos cardíacos do uso cannabis em pessoas propensas a esses problemas. Por esse motivo, enquanto persistir a dúvida, pessoas com problemas cardíacos não são aconselhadas a usar cannabis durante exercícios físicos”, esclarece o professor.

Outro aspecto encontrado pelas pesquisas, destacados por Dr. Malcher Lopes, são os efeitos mentais da maconha favorecem o foco e a percepção lúdica das atividades físicas, e podem, assim, reduzir a sensação de tédio que pode eventualmente desmotivar as pessoas a manterem uma rotina de exercícios repetitivos. Há também na comunidade científica estudos apontando que o uso recreativo de cannabis está ligado à menor atividade física entre adolescentes.

Para McCall “os benefícios são atuação anti-inflamatória e analgésica sem danificar o corpo ou a mente. Outros benefícios para atletas em atividade e aposentados é poder relaxar e lidar melhor com ansiedade e depressão, além de ajudar com o apetite.”

Um problema de preconceito e ignorância

“Diria que para a maioria das pessoas, mesmo que lentamente, estes tratamentos estão se tornando cada vez mais aceitáveis, e menos e menos um ‘tabu’. Em particular devido ao perceberem o potencial medicinal, assim como também o crescimento de pesquisas cientificas sobre o assunto”, aponta a jornalista canadense Amanda Siebert, autora de The Little Book of Cannabis (O Pequeno Livro da Cannabis, 2018, sem tradução no Brasil), focado nos usos medicinais da erva.

Porém, a realidade canadense é diferente da brasileira. No país do hemisfério-norte o uso medicinal é permitido desde 2001, e em 2018 foi legalizado o uso recreativo. Em solo brasileiro foi liberado o uso medicinal em 2015, e há na câmara votação para legalizar o cultivo da erva para fins medicinais, o que baratearia o custo para enfermos e suas famílias, uma vez que é importada, entretanto a bancada conservadora dificulta o avanço da medida, apontando o momento conservador pelo qual a nação atravessa.

Dr. Malcher Lopes crê que os entraves na plena legalização da maconha medicinal no Brasil se dão por “Interesses comerciais e políticos daqueles que lucram ou se beneficiam com fármacos protegidos por patentes e aqueles que ganham, de uma forma mais genérica, com a guerra às drogas e a demonização fundamentalista do uso da maconha.”

Siebert acredita que em seu país, a legalização do uso recreacional “certamente impactou a maneira que a cannabis é vista pela sociedade de forma geral. Enquanto ela não será apreciada ou defendida por todos, cada vez mais canadenses estão se informando sobre a mesma. Entretanto, devo admitir que as regulamentações para a legalização da maconha recreacional tornaram o debate sobre a medicinal e seus benefícios um tanto difícil.”

Um dos problemas para a aceitação da cannabis medicinal em solo brasileiro é a desinformação. Aos fins de 2020, o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, comandado pela Ministra Damares Alves, publicou uma cartilha ignorando evidências científicas ou utilizando apenas estudos ligados a sua linha ideológica e apontando que “não existe ‘maconha medicinal’”, conforme publicado no site da Isto É.

Outro famoso detrator é o médico e deputado Osmar Terra. Enquanto Ministro da Cidadania em 2019 declarou que “se abrir as portas do plantio, vai ter consumo generalizado”, ao se colocar contra a licença para cultivo para entidades com fins medicinais. No atual momento, a participação de Terra na CPI da Covid tem sido criticada pela imprensa em geral por seu emprego de fake news.

De acordo com matéria da Revista Veja São Paulo de 2021, o uso de medicamentos com base em cannabis tem aumentado, e o geriatra Paulo Camiz, professor no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP aponta para a publicação que a procura denota a diminuição do preconceito, por outro lado no mesmo texto o neurocirurgião e professor da Santa Casa de São Paulo Nilton Lara, especialista em distúrbios do movimento, ressalta a necessidade de critérios para receitar a medicação, uma vez que há pessoas pesquisando quais profissionais trabalham com a matéria e requisitam a mesma antes de saber os outros possíveis tratamentos.

Apesar dos problemas tanto de preconceitos quanto os da própria indústria, para Dr. Malcher Lopes o apoio de atletas na divulgação desta linha medicinal é bem-vinda, assim como de outras figuras públicas, uma vez que a “planta extraordinária” move a sociedade para um caminho humanizado e cientificamente mais avançado.

“A maneira com a qual atletas podem ajudar a promover a cannabis medicinal e mostrar para as pessoas que realmente melhora suas vidas é apenas contar suas histórias pessoais, e, como foram ajudados quanto aquilo que os afligiam”, conclui McCall.

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