Amigo de Flávio Bolsonaro deve causar debandada militar no Esporte

JOÃO GABRIEL
Folhapress

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A escolha de Marcelo Magalhães para comandar a Secretaria Especial de Esporte no governo Jair Bolsonaro (sem partido) desagrada a militares que, desde o início da gestão, davam as cartas nessa área.

Apelidado de Marcelo Negão, ele é padrinho de casamento do senador Flávio Bolsonaro (sem partido) e o primeiro não militar a assumir o cargo. Até então, o posto havia sido ocupado pelos generais Marco Aurélio Vieira e Décio Brasil.

A decisão frustrou grande parte dos militares e militares de reserva que hoje ocupam cerca de 20 dos mais de 90 cargos da secretaria.

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A expectativa é de que por volta de um terço do grupo deixe o órgão nos próximos dias. Inicialmente, devem sair os nomes mais próximos do general Brasil. São os casos do secretário especial adjunto, coronel Marco Aurélio Araújo, e do diretor de projetos, Celso Perlucio.

A principal reclamação dos insatisfeitos é sobre a forma como foi conduzido o processo de troca no comando da secretaria.

Na última sexta-feira (28), o recém-empossado ministro da Cidadania (pasta à qual a secretaria está subordinada) Onyx Lorenzoni (DEM) exonerou Brasil.

Antes de se tornar secretário, Magalhães já ocupava um cargo na pasta, de chefe do Escritório de Governança do Legado Olímpico (EGLO). O órgão foi criado no início de dezembro para gerir parte do Parque Olímpico da Barra da Tijuca e o Parque Olímpico de Deodoro (este em parceria com as Forças Armadas), no Rio de Janeiro, com 26 funcionários.

Décio Brasil já havia indicado dois nomes para chefiar o órgão, ambos militares, mas que não tiveram a aprovação do Ministério da Cidadania. Magalhães chegou ao órgão por meio da família Bolsonaro e sem que o então secretário fosse consultado.

Brasil afirma ter tentado por duas vezes entrar em contato com seu novo subordinado para marcar uma reunião, mas nas duas ouviu que o chefe do escritório responderia apenas ao ministro Onyx, ao presidente Jair Bolsonaro e ao senador Flávio.

Conforme informação publicada inicialmente pelo blog Olhar Olímpico, do UOL, e confirmada pela reportagem, no tempo em que ocupou a direção do EGLO, Magalhães não foi ao prédio da secretaria e tampouco ao Parque Olímpico da Barra.

Pouco antes de ser exonerado, na semana anterior ao Carnaval, Brasil e a equipe da secretaria fizeram uma apresentação a Onyx. Receberam como resposta que o trabalho teria prosseguimento. Na quinta-feira (29), o general foi chamado para uma reunião, que durou menos de cinco minutos, e comunicado de que seria desligado.

"Um sentimento de frustração mesmo, porque ninguém me avisou nada, fui simplesmente tirado da posição sem qualquer aviso prévio. Aliás, os avisos que eu tinha é de que não haveria mudança. Fui surpreendido e fico triste por não continuar, mas a vida segue", disse o general à reportagem.

Ele defende que seu trabalho deu credibilidade à secretaria principalmente pelo envio no período do Plano Nacional do Desporto ao Ministério da Educação. Ele acredita que os feitos da gestão acabaram abafados pelo fato de o órgão ser subordinado ao Ministério da Cidadania.

Magalhães segue o perfil da ala ideológica do bolsonarismo. Ativo nas redes sociais antes de ocupar o cargo, fazia críticas aos governos petistas, à imprensa e a políticos de oposição ao atual governo.

Formado em jornalismo pela Universidade Gama Filho (RJ), ele não exerceu a profissão. No setor esportivo, trabalhou como empresário e assessor. Atuou, por exemplo, na intermediação dos contratos do ex-judoca Flávio Canto com a patrocinadora TNT e com o clube Tijuca Tênis.

Também trabalhou por anos ao lado das gêmeas do nado sincronizado, Bia e Branca, e pontualmente com o canoísta Isaquias Queiroz. Também já gerenciou a imagem de lutadores do UFC, como Anderson Silva, além de ter trabalhado como captador de recursos e promotor do Gigantes de Nazaré, programa de surfe que foi ao ar no Esporte Espetacular, da TV Globo.

É tido por quem o conhece como alguém que, apesar de não ter conhecimento técnico da administração pública, está aberto ao diálogo e pode trazer à pasta uma visão comercial do esporte, mais liberal.

Dentro da comunidade esportiva, o sentimento geral é de que o esporte está cada vez mais deixado de lado pelo governo. A entidade Atletas pelo Brasil, por exemplo, uma das principais instituições de representação dos esportistas, emitiu uma carta aberta sobre a nomeação de Magalhães.

"Registramos que a nomeação de gestores públicos deve seguir não apenas fatores políticos, mas critérios como capacidade de gestão pública, compromisso com o esporte e conhecimento da área", diz o texto. "Vale ressaltar que, até o presente momento, a secretaria não apresentou o planejamento e as metas para os próximos anos, e há pouca transparência."

Procurado pela reportagem por meio da secretaria, Magalhães disse que não vai comentar o assunto.

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