Aluno que denunciava guardas de universidade da PB é morto e entidades cobram investigação do MPF

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Amigo contou que Alph se inscreveu no jiu-jitsu com medo das ameaças | Foto: Reprodução/Facebook
Amigo contou que Alph se inscreveu no jiu-jitsu com medo das ameaças | Foto: Reprodução/Facebook

Por Arthur Stabile

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O estudante de filosofia Clayton Tomaz de Souza, 31 anos, o Alph, era conhecido por sua militância, parte dela contra a violência dos guardas da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), onde estudava. Fez ao menos duas denúncias ao MPF (Ministério Público Federal). No dia 8 de fevereiro, seu corpo foi encontrado com um tiro na nuca no bairro Gramame, periferia de João Pessoa, capital da Paraíba.

Amigos de Alph contam que demoraram para entender que ele havia desaparecido. Passou pelo menos cinco dias sem ninguém receber notícias ou vê-lo em algum lugar até entenderem que era algo grave e não somente um dos sumiços recorrentes.

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Um deles conta que o jovem sofria de depressão e tinha surtos, mas também conhecia muita gente. Era comum ficar dias sem notícias, até que por fim aparecia. “Uma vez ele ficou sumido cinco dias até descobrirmos que estava na casa de uma namorada”, relembrou um dos amigos.

Dessa vez, esse encontro não aconteceu. O corpo de Clayton foi encontrado em um local apontado por uma fonte ouvida pela reportagem como “conhecido ponto de desova de grupos de extermínio” da capital. O estudante tinha uma marca de tiro em sua nuca e a família reconheceu o corpo.

Um amigo conta que as denúncias de Alph ao setor de segurança da UFPB começaram em 2016. À época, uma roda cultural era feita na Praça da Alegria, dentro da universidade, com apresentação de maracatu e outros ritmos.

A festa acontecia de noite e geralmente ultrapassava as 22h, horário em que as aulas encerravam. Isso gerava insatisfação dos seguranças, conta um aluno e amigo de Alph, que pediu para não ser identificado por temer represália.

O estudante lembrou que era normal os guardas agirem com agressividade ao encerrarem a festa, apagando a fogueira que eles faziam e agredindo quem estivesse no local. “Teve uma vez que ele foi preso na festa, não passou por audiência de custódia e o levaram para o presídio. Voltou de cabelo raspado e todo roxo”, relembrou.

Alph decidiu, então, ficar meses na casa de sua família em Arcoverde, cidade no estado de Pernambuco e, quando voltou, passou a gravar as violências e cobrar respostas da reitoria da universidade. Uma garantia para que a violência cessasse seria um termo de ajustamento de conduta firmado pela universidade com o MPF, mas que, segundo o amigo de Clayton, não mudou a realidade.

Alph era natural de Arcoverde, em Pernambuco | Foto: Reprodução/Facebook
Alph era natural de Arcoverde, em Pernambuco | Foto: Reprodução/Facebook

Ele conta que os guardas seguiam atuando da mesma forma e o MPF se baseou no termo para afirmar que teria feito algo. Alph, então, passou a denunciar publicamente ameaças que sofria dos guardas.

“Guardinha terceirizado achando que é polícia, jurando que serve a um estado. Ameaça minha pessoa e a UFPB finge não ver”, denunciou o estudante de filosofia, em publicação no Twitter feita em 12 de setembro de 2019. “Meu sangue vai aspirar nas mãos de vocês quando eles fizerem o que tanto dizem que farão a mim e a outros e outras”, completou.

Os relatos dos amigos são de que Clayton manteve a mesma atitude contra as práticas violentas dos seguranças até este ano. Sem obter respostas, ele teria feito ao menos duas representações no MPF (Ministério Público Federal) para investigar os seguranças da UFPB.

Em entrevista ao G1, o procurador do MPF José Godoy explicou que recebeu um dossiê contra a universidade em fevereiro de 2016, mas o inquérito foi arquivado. Desde o ano passado, outro inquérito corria e Alph era uma das testemunhas, mas foi morto antes disso.

O amigo de Alph, que falou sob a condição de anonimato, conta que eles se aproximaram quando houve ocupação da reitoria da UFPB em 2016. Um dos guardas da universidade teria apontado uma arma para os dois, que teriam então o enfrentado. “Ali ele ganhou o meu respeito, senti que era alguém que ia até o fim”, relembrou.

O rapaz, que estuda no Centro de Ciências Exatas e da Natureza, afirmou que se afastou dessas mobilizações que aconteciam no campus em 2018, momento em que Alph ampliava sua ação e suas denúncias contra os guardas.

“Os guardinhas começam a ser quadros que não entraram na PM ou GCM (Guarda Civil Metropolitana), ou expulsos delas, não propriamente pessoas ali somente trabalhando, mas uma coisa de colocar o brucutu para fazer o trabalho sujo e isso vai avançando”, contou A.F.N.

Estudantes protestaram na universidade no dia 18 de fevereiro por conta da morte de Alph. Eles cobravam da reitoria respostas sobre o assassinato e também homenagearam o amigo.

De acordo com a Polícia Civil da Paraíba, a investigação analisa um dos vídeos em que Alph denuncia ameaças dos seguranças. “Vamos ouvir os seguranças da UFPB, todos vão ser convocados a prestar esclarecimentos”, afirmou o delegado Carlos Othon ao G1.

Nesta terça-feira (25/2),coletivos de alunos, professores e movimentos sociais se manifestaram publicamente exigindo uma apuração rigorosa do MPF sobre a morte do estudante.Em nota, eles questionaram o posicionamento da reitoria da UFPB que apontou não ter conhecimento de que Alph denunciava as práticas dos seus seguranças.

“Para que a justiça seja feita e a memória do estudante honrada, é preciso que a reitoria mude a sua posição e passe a colaborar ativamente com a elucidação dos graves fatos em questão”, criticaram as entidades.

Assinam a nota a Associação dos Docentes da UFPB, Comitê Estadual de Prevenção e Combate à Tortura na Paraíba, Núcleo de Extensão Popular Flor de Mandacaru, Mecanismos Estadual de Prevenção e Combate à Tortura na Paraíba, entre outros.

Ponte questionou a UFPB sobre as denúncias que Clayton Tomas de Souza fazia em relação à truculência dos guardas e também sobre as ameaças que relatou nas redes sociais. A universidade informou que criou uma comissão para acompanhar as investigações e o Consumi (Conselho Universitário), do qual o aluno era integrante, aprovou a decisão. Sobre os outros questionamentos específicos relativos às ameaças, a reportagem ainda aguarda uma posição oficial.

A reportagem solicitou ao MPF detalhamento das denúncias feitas pelo aluno, bem como questionou o andamento das investigações e aguarda uma resposta.

Ponte tentou contato na tarde do último domingo (23/2) com a Secretaria da Segurança e Direito Social pelo telefone informado no seu site oficial, mas não foi atendida.

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