Algoz de Medina, japonês tem casa em Portugal, aprendeu idioma ‘na marra’ e adora picanha

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Igarashi Kanoa durante a Olimpíada de Tóquio. Foto: Du Yu/Xinhua via Getty Images
Igarashi Kanoa durante a Olimpíada de Tóquio. Foto: Du Yu/Xinhua via Getty Images

Logo após a final do surfe masculino, na praia de Tsurigasaki, na província de Chiba, o brasileiro medalha de ouro Ítalo Ferreira recebeu uma pergunta em inglês e ficou com cara de perdido. Olhou para os lados à procura de ajuda. E, no fim das contas, ela acabou vindo do rival Kanoa Igarashi, que derrubou Gabriel Medina na semifinal, em disputa controversa, para ficar com a prata.

Coube a Igarashi fazer a tradução para Ítalo em bom português.

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A cena inusitada tem razão de ser: o japonês de 23 anos passa boa parte do ano em Portugal, namora uma surfista local, Teresa Bonvalot, e se apaixonou tanto pelo país que comprou até uma casa na Ericeira, vila que fica próxima a Lisboa e é famosa por suas ondas.

Na ausência de medalhas nos primeiros dias de Jogos Olímpicos, Igarashi acabou sendo adotado por Portugal como seu e, inclusive, deu entrevistas para a imprensa lusitana para falar de sua ligação com os europeus. Ele promete trazer o alvo de seu orgulho para o país em setembro.

“Uma medalha de prata japonesa-portuguesa”, escreveu o site Mais Futebol.

“Me sinto tão confortável a falar português como japonês ou inglês. Depois de aprender japonês, foi muito mais fácil aprender português. É mais fácil por uma questão de dobragem da língua e tudo isso. Há muitas palavras como ‘João’ que muitos americanos não conseguem dizer, mas eu, como aprendi japonês, consigo. Isso ajuda muito”, explica Igarashi.

“Os meus amigos decidiram que só iam falar português comigo. Eu não falava nada ainda, mas tive que aprender”, completa.

Igarashi levou o bronze em decisão polêmica. Foto: Du Yu/Xinhua via Getty Images
Igarashi levou o bronze em decisão polêmica. Foto: Du Yu/Xinhua via Getty Images

Morando em Portugal há três anos, o surfista que nasceu nos Estados Unidos, mas é filho de pais japoneses, carrega sotaque e hábitos locais, frequenta o Estádio da Luz para acompanhar o Benfica e se sente abraçado onde quer que vá. Um detalhe apenas o afasta dos portugueses: a resistência ao peixe e, por consequência a uma especialidade local, o bacalhau.

Quando o assunto é culinária, ele não dispensa um açaí ao fim de uma sessão de surfe e uma picanha na hora da refeição.

É o máximo de influência brasileira, no entanto, que Igarashi possui. Descontraído, não pensou duas vezes nesta semana antes de tirar sarro em português das mensagens que recebeu em suas redes sociais o acusando de ter sido beneficiado pelos juízes na disputa contra Medina por um lugar final. “Chora que eu estou feliz. Hehehe”, publicou.

Segundo surfista mais jovem da elite do surfe, ele foi preparado desde cedo para esse momento. Viu os pais se mudarem do Japão para os Estados Unidos quando a mãe ainda o carregava na barriga justamente para ter as condições ideais para aprender a surfar. Com pouca idade, já era destaque na TV japonesa e chamava a atenção de seus ancestrais. Pouco depois, aos 12, começou a viajar sozinho atrás das ondas até entrar no circuito mundial seis anos mais tarde.

Virou um verdadeiro cidadão do mundo, embora pregue, em qualquer língua que venha a pergunta, que conserva os costumes japoneses sempre que está rodeado pela família.

“Sigo a cultura japonesa. Como com pauzinhos, tiro os sapatos ao entrar em casa, falo japonês quando estou na Califórnia com meus pais”, exemplifica para ilustrar a sua ligação.

Ele não precisa mais disso. É agora celebridade também no Japão.

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