Alexandre Gallo critica Jorge Jesus e desabafa: “Torço para 2021 acabar logo”

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SP - Sao Paulo - 28/02/2021 - PAULISTA 2021, SAO PAULO X BOTAFOGO - Alexandre Gallo tecnico do Botafogo-SP durante partida contra o Sao Paulo no estadio Morumbi pelo campeonato Paulista 2021. Foto: Marcello Zambrana/AGIF
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Guilherme Faber (@fabergui) e Matheus Brum (@matheustbrum)

Alexandre Gallo é um dos personagens mais conhecidos do futebol brasileiro. Ex-jogador, treinador, coordenador e ex-técnico das categorias de base da Seleção Brasileira. Com currículo vasto e passagens em diversos clubes importantes do futebol brasileiro, Gallo desabafou sobre 2021: “Estou torcendo para o ano acabar logo. Foi ruim”.

Essa “torcida” é por causa de trabalhos decepcionantes. Começou o ano como técnico do Botafogo-SP cujo clube o projetou para os gramados, mas não deu certo. Encontrou equipe com muitos problemas financeiros e de estrutura. Sem elenco, a demissão foi irreversível.

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Na semana seguinte, foi para o Recife treinar o Santa Cruz. Ficou 12 dias apenas no comando da equipe. “Cheguei lá e vi a estrutura. Não sabia que era tão ruim. Tivemos uma reunião. Falei com o presidente: ‘Se não tiver imediato de uns R$ 600 mil, o clube não vai demorar seis meses para evoluir. E não vamos ter este tempo’. Quando vi que não ia ter [esse aporte financeiro], pois a dificuldade era grande, pedi demissão”, comentou.

Gallo também contou sua versão sobre a saída da Seleção Brasileira com 20 dias de estreia para o Mundial Sub-20 de 2015. Contratado para liderar o projeto em busca do ouro olímpico nas Olimpíadas Rio 2016, Gallo caiu depois de quase dois anos e meio à frente da Seleção.

Ele aponta o então coordenador-geral da Seleção Brasileira, Gilmar Rinaldi. “Desde o começo queria trocar a coordenação. Já era para uma eminente saída no futuro. Entendo, que era novo grupo. E queria ter pego a Olimpíada para ele”, contou o treinador.

Abaixo a entrevista completa.

Yahoo Esportes: Repercutiu quando o Jorge Jesus disse que precisou vir até o Brasil para ensinar os nossos jogadores a jogarem sem a bola. Qual sua visão desse comentário?

Alexandre Gallo: Achei covarde a parte dele falar disso. Falou do maior elenco do Brasil, no maior elenco da história do país. Fica mais fácil falar disso em questões táticas. Queria que ele falasse isso em times da Série C e D. O que acontece? Não existe gestão de carreira. Não entendo os clubes brasileiros. Aqui no Brasil aconteceu o seguinte: um presidente entra, o pessoal da base quer ganhar tudo e não formou [os jogadores] em boas condições. Não adianta disso. Não existe uma composição de ficar na base dez anos e formar atletas. Ganhar é consequência. Hoje a maioria do diretor da base quer ganhar tudo no sub-15, 17 e 20 e chegar ao profissional. Vivemos num país de 210 milhões de pessoas e temos dificuldades de ganhar do Uruguai [na base] com 3,5 milhões de habitantes. A maioria dos treinadores lá são ex-jogadores e estão preocupados em treinar os fundamentos. Isso se faz lá. Cheguei no Atlético-MG como gestor. Sub-15 jogou 71 jogos. E vai treinar quando? Não adianta ganhar e não formar. Até pelo modelo de gestão fracassado, que é o estatutário do Brasil.

Na minha época joguei do infantil ao juniores não me lembro de ter jogado no meio de semana. Então jogamos menos que 40 jogos. O que aconteceu? Treinamos muito. Treinador ficava com a gente na categoria toda. Os caras seguiam nos clubes. Isso é importante. É saber formar melhor. Não adianta falar que ganhou.

Yahoo Esportes: Você fica dois anos e cinco meses na Seleção Brasileira e sai na véspera do Mundial Sub-20. Gilmar Rinaldi depois disse entrevista, que você saiu por conta da convocação do Matheus Biteco [ele estava lesionado, na época]. Qual a sua versão sobre isso?

Alexandre Gallo: Na verdade, não tem nada a ver. O Matheus Biteco estava vendido para Alemanha. Quando fiz a convocação do sub-20 não falei com nenhum jogador. O pessoal da CBF entra em contato com cada um para saber a questão clínica. O Matheus tinha ido comigo várias vezes. Ele foi capitão em um torneio em Valencia, na Espanha. Não tivemos acesso ao contato do Matheus. Liguei para o Jorge Machado e depois para o Matheus. Ele disse que machucou e que estava na transição. E que em 30 dias ia voltar a treinar e poderia ser convocada. Nisso a CBF recebeu da Alemanha [um documento] dando a responsabilidade de não convocar, pois ele estava machucado.

Liguei de novo para o agente dele e ele disse: “os direitos são do Grêmio”. Voltei a ligar para o Machado e disse que a empresa não queria que o Matheus fosse convocado. Ele ligou para o Rui Costa [diretor de futebol do Grêmio] e perguntou se o Grêmio tem o direito da convocação. O Rui falou que sim. E convoquei o Matheus. Então não aconteceu nada. É desculpa. Transfere-se a responsabilidade. Desde quando ele [Gilmar Rinaldi] entrou [como coordenador geral da Seleção, em 2014] ele queria minha saída. Entendo que era novo grupo. E queria ter pego a Olimpíada para ele.

Yahoo Esportes: Como foi a saída?

Alexandre Gallo: Cheguei dos Estados Unidos, em uma sexta-feira, pousei com minha família, e recebi uma ligação dele para ir ao escritório dele em São Paulo. Quando cheguei, estava ele e o Damiani. Disse que queria uma outra situação [a não permanência de Gallo]. Foi isso que aconteceu e não especificou nada. Demorou três minutos [a reunião]. Já sentia. Sabia que estava na eminência e não podia fazer nada.

Yahoo Esportes: Você já sabia que seria demitido?

Alexandre Gallo: Imaginei que sim. Desde que entrou disse que queria novo coordenador [para as categorias de base]. Não entendia. Sabia que o Marin [José Maria Marin, então presidente da CBF] fazia muito esforço pela minha permanência porque estava sendo bem feito o trabalho. Reorganização com categorias fixas para ter uma relação melhor com os atletas. Convocação in loco. Os treinadores tinham que assistir os atletas. Criei muito desconforto [com essas ações]. Com certeza criei. Mas entendo que desde o começo queria trocar a coordenação. Já era para uma eminente saída no futuro. Ele veio como coordenador geral.

Yahoo Esportes: Você se sente frustrado por não ter conquistado o ouro olímpico?

Alexandre Gallo: Frustrado, não, pois fiz meu melhor. Lamento bastante não ter estado [nas Olimpíadas]. Fiz 34 jogos com 25 vitórias e nove empates. Por merecimento não poderia ter saída. Ganhamos todos os torneios que participamos, inclusive com o Torneio de Toulon. Jogamos com a França, Colômbia e ganhamos. Todos os torneios pré-olímpicos antes das olimpíadas. Dos 15 convocados abaixo dos 23 anos [para os Jogos], 13 vinham comigo nas categorias de base. O mérito é de quem ganhou [Rogério Micale], mas teve um grãozinho de areia meu nesta medalha.

TOULON, FRANCE - MAY 22:  Coach Alexandre Gallo of Brazil shouts orders from the side line during the Toulon Tournament Group B match between Brazil and South Korea at the Leo Legrange Stadium on May 22, 2014 in Toulon, France.  (Photo by Christopher Lee/Getty Images)
Gallo durante sua passagem pela base da Seleção (Foto: Christopher Lee/Getty Images)

Yahoo Esportes: Quais são os seus planos?

Alexandre Gallo: Estou torcendo para o ano acabar logo. Foi ruim. No Botafogo-SP fiquei incomodado com o que rolou, fiquei quatro jogos. Cheguei ao Botafogo em 3 de fevereiro para estrear dia 28. Tínhamos nove jogadores, sendo quatro goleiros. Como se trabalha assim? Tem que contratar. Victor Ramos [zagueiro] parado há um ano, outro há três meses. Precisamos de tempo, pelo menos de seis meses. Minha estreia contra o São Paulo não tinha o mínimo para o banco. [levei] Três da base, que por causa da pandemia, não estavam jogando. Nem sabia o nome deles.

Acabei pegando covid-19 e tive que operar no joelho. Com todo esse problema de contratar, montar, etc, na parada da pandemia, 15 dias para trabalhar a parte física. Fizemos um jogo amistoso e ganhamos de 1 a 0. Fui demitido depois desse jogo ruim [mesmo ganhando]. A decepção foi tão grande.

Yahoo Esportes: O que aconteceu na sua passagem “relâmpago” no Santa Cruz?

Alexandre Gallo: Na semana seguinte [da demissão do Botafogo-SP] apareceu o Santa Cruz. Recebi as informações do presidente, bem intencionado. Cheguei lá e vi a estrutura. Não sabia que era tão ruim. Tivemos uma reunião. Falei com o presidente: “Se não tiver imediato de uns R$ 600 mil, o clube não vai demorar seis meses para evoluir. E não vamos ter este tempo”. Quando vi que não ia ter [esse aporte financeiro], pois a dificuldade era grande, pedi demissão. Fui execrado pela torcida, imprensa, porque tinham condições péssimas. E modificar tinha que ser tudo. Trabalhei dez dias. E a gente está vendo agora o que aconteceu com o Santa Cruz [caiu para a Série D e não classificou para a fase de grupos da Copa do Nordeste].

Yahoo Esportes: Você já exerceu vários cargos no futebol. Qual a sua preferência para voltar a trabalhar?

Alexandre Gallo: Trabalhei como gestor, fui diretor de futebol do Atlético-MG. Me preparei para me qualificar para isso. Hoje sou preparado. Hoje estou para essas funções – que gosto muito – recebi a proposta do Santos para ser diretor de futebol. Foi em maio antes do Mazzuco vir e não aceitei, pois não era a condição que esperava. Espero que tenha condição de trabalhar e aberto a projetos interessantes.

Yahoo Esportes: Por que você não foi?

Alexandre Gallo: Não é só financeira do Santos. O Santos está com problema gigantesco e ia estourar no campo. Então excluo essa diretoria, porque os últimos dois ou três sangraram o clube. Esse modelo [que queriam me contratar] teria que ter liberdade total. Tem que ser feito de uma cabeça e ser cobrado. Achei melhor me abster. Vou trabalhar no Santos uma hora. Joguei, trabalhei como auxiliar. Moro aqui há 30 anos. O Santos vai passar na minha vida.

Yahoo Esportes: É fácil acompanhar nos noticiários algumas críticas sobre o curso de técnico da CBF. Como você avalia essa escola de treinadores?

Alexandre Gallo: É excelente. Têm mais horas-aula que o da UEFA. Inclusive têm instrutores de fora. É bom que vemos como a gente entende. É didático, prático e grandes nomes participam. O Brasil precisava dessa especificação dos treinadores. Mas não só isso. Precisa ter [treinamento para] o presidente, os vice-presidentes. Não adianta ser profissional, se qualificar, se o que está acima de você não faz. Futebol é a única profissão do mundo que o CEO não entende do negócio. Entende como torcedor, não como questão técnica. Incomoda muito. Ser julgado por um torcedor.

Yahoo Esportes: Você é oriundo da base do Botafogo-SP e, também, acredita que esse modelo S/A do Pantera vai dar certo?

Alexandre Gallo: Acredito 100%. Esse modelo [estatutário] é fracasso no Brasil. Temos três times, principalmente o Palmeiras e o Atlético-MG por causa de mecenas. O Atlético-MG com uma dívida bilionária. Flamengo é um caso de reestruturação. E ninguém quer fazer isso. O Red Bull/Bragantino está fazendo um trabalho de vanguarda. Times do Ceará está se reorganizando, Bahia. Quando entrar a SAF (Sociedade Anônima do Futebol) tudo vai melhorar. Você vai ter um orçamento específico e o dono via te guiar. Hoje o cara tem três anos e fica desesperado. No primeiro ano não ganha nada, aumenta a pressão, aí começa a trazer treinador, contratar jogadores e aumenta a dívida. Assim com dono não acontece. O cara sabe onde vai chegar. Essa responsabilidade fiscal a SA vai trazer, inclusive para base.

Há um agravante ao estatutário: redes sociais. Os caras não aguentam as redes sociais, pois a pressão é grande. Quando tem dono tem outra forma de pensar. Vai melhorar muito a fundo.

Yahoo Esportes: O que influenciou na sua saída do Atlético-MG?

Alexandre Gallo: Na verdade minha saída foi por causa da boa campanha sem ter muito recurso. Contratamos 16 e tiramos 23 jogadores. Tinha folha de pagamento de R$ 12 milhões e baixamos para quase R$ 9,8 mi. Robinho, Fred, um time bem velho. Queríamos uma cara de time jovem. Não tínhamos dinheiro para contratar. Só pôde contratar quando começamos a vender. Há tempos não vende 23 milhões de euros como naquele ano. Desde que cheguei o objetivo era ir para Libertadores. Deixei o time classificado para a pré-libertadores. Isso se deu pela mudança do Thiago Larghi. [Ele fez] 50 jogos, mas sentimos que precisávamos de um treinador experiente. Aí essa escolha do Levir foi do presidente. Acabei saindo pela pressão. E o futebol paga por isso. Chará era um grande jogador. Foi usado em lugar errado. Muito difícil, muita cobrança

Yahoo Esportes: Muitas pessoas dizem que o Atlético-MG pode vir a “quebrar” por causa do grande investimento. Você que esteve lá dentro. Acredita nessa suposição?

Alexandre Gallo: Acho que o Atlético está vivendo um momento que no primeiro ano do Sérgio Sette Câmara era uma ideia. Tinha vendido 50% do shopping [Diamond Mall, de propriedade do clube] e guardou esse dinheiro para fazer a construção. Mas tinha 50% do shopping que iria vender na época e trocar pela dívida do Atlético. Esse caminho ainda está ocorrendo, se acontecer, não sei se está, o Atlético vai virar uma grande potência. Ele tem ativos, uma Arena de mais de R$1 bilhão, tem CT, dois clubes e uma sede em Lourdes. Mesmo que ele saia do shopping e pague a dívida, vai virar uma potência. Com zero de dívida.

Yahoo Esportes: Você trabalhou na base da Seleção com muitos jogadores que estão em clubes brasileiros, que também é o caso do Léo Pereira. Lembra-se muito dele como líder das estatísticas no Athletico-PR, mas que no Flamengo não se encontrou. Você acredita que é melhor ele buscar novos ares ou irá se recuperar no Flamengo?

Alexandre Gallo: É uma grande pessoa, super profissional, ótimo de dia a dia e ótimo jogador. Torcedor se pega em várias situações. Flamengo é o time mais ofensivo da América Latina. Óbvio que vai sofrer contra-ataque e pegar o zagueiro de “calça curta”. Rodrigo [Caio, companheiro de zaga de Léo Pereira] é mais de velocidade. O Léo não pode ser tão exposto. Não tem muita velocidade. Tem boa técnica, bola ofensiva, primeira bola frontal. Quando é exposto contra o Flamengo é demais. Vejo um baita zagueiro em boas condições, precisa de uma adaptação e respeito. Qual jogador você tiraria para colocar no lugar do Léo Pereira? Duas linhas de quatro, linhas baixas, o Léo ia arrebentar. Ele vai falhar, porque é exposto, porque [o Flamengo] propõe jogo dentro e fora de casa.

Yahoo Esportes: Rodrigo Caio foi seu jogador na base da Seleção Brasileira. Você é conhecedor do perfil dele e acredita que foram injustas as críticas que ele recebeu na época do São Paulo?

Alexandre Gallo: Grande personalidade. Na Seleção sempre jogou de volante e não de zagueiro. Rodrigo é um baita volante. Ele é muito responsável pela equipe. Quando veste o Brasil você joga com todo mundo lá em cima. Qualquer competição você joga lá em cima. Tínhamos laterais como Fabinho, Wendell ou Douglas Santos, você liberava todo mundo. Todo mundo muito ofensivo. Precisava de três caras que segurasse esses jogadores. Então o Rodrigo Caio fazia um tripé defensivo com o Marquinhos, Doria ou Walace. É igual a situação do Léo Pereira. Se não têm uns três caras que “seguram a onda”, não dá. O Rodrigo Caio de primeiro volante era excepcional. Sempre falo com ele “meu volante” (risos). Para ele é confortável jogar de zagueiro, pois tem muita capacidade.

Yahoo Esportes: Você teve a oportunidade de trabalhar com Alexandre Pato no Internacional. O que você acredita que faltou para ele ter se consolidado na Europa?

Alexandre Gallo: Era o treinador dele quando foi vendido. Talvez tenha sido um dos jogadores mais completos com quem já trabalhei. Esperava de ele ganhar dois a três títulos de melhor do mundo. Talvez tenha faltado um pouquinho de ambição. É evidente que quando o jogador sai como ele, financeiramente, ele fica bem. Particularmente esperava mais. Impossível um jogador da categoria dele não ter participado de uma Copa. Finalização com as duas pernas, cabeceio, arranque, todas as funções de atacante ele era bom. Situação próxima do Ronaldo. Achei que ele poderia ter feito mais. Cada um está dentro da sua condição. A gente tem que respeitar.

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