Agora no Cruzeiro, Ronaldo tenta repetir receita para faturar como no Valladolid

Ronaldo durante coletiva em uma de suas visitas ao Cruzeiro (Foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro)
Ronaldo durante coletiva em uma de suas visitas ao Cruzeiro (Foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro)

LISBOA (PORTUGAL) - Como sempre faz nos últimos dias do ano, a Liga Espanhola anunciou em 30 de dezembro a grana total de direitos televisivos a ser repartida pelos clubes da primeira e segunda divisões.

Ao todo, coube ao Real Valladolid o montante de 62,2 milhões de euros (R$ 358 milhões).

Foram 48,5 milhões de euros (R$ 280 milhões) pela transmissão de seus jogos mais 13,7 milhões de euros (R$ 79 milhões) como ‘socorro’ pelo rebaixamento.

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Pela similaridade entre os valores, não tardou até que a imprensa espanhola associasse o recebimento do dinheiro com a compra por parte de Ronaldo Fenômeno, dono do Valladolid, de 90% das ações do Cruzeiro no Brasil. O raciocínio era de que as receitas de um time poderiam ser investidas em outro. Somente no início de fevereiro, em coletiva de apresentação de reforços, David Espinar, diretor de operações dos espanhóis, deitou a possibilidade por terra.

“Não vai haver nenhum fluxo de caixa entre as duas equipes”, esclareceu Espinar.

Ao contrário da imagem que se propagou inicialmente no Brasil, a gestão de Ronaldo no Valladolid tem tido relativo sucesso.

Depois de bater o martelo para pagar 30 milhões de euros (R$ 173 milhões) por 51% das ações do clube em setembro de 2018, ele conseguiu manter o Valladolid na elite por três temporadas consecutivas, algo que não acontecia desde 2009/10. Com o descenso no ano passado, pregou, então, que era fundamental o retorno imediato. Para isso, no entanto, tem que superar números desafiadores: dos 60 times rebaixados nas últimas 20 temporadas, somente 13 conseguiram o acesso logo de cara.

Até aqui, a campanha na segundona tem sido animadora, com o Valladolid brigando no topo da tabela para voltar no fim de maio.

Seria o cenário de sonhos para Ronaldo, que, sempre que questionado, negou qualquer plano de se desfazer da equipe. Hoje com 82% de suas ações, ele sustenta que sua participação vale muito mais do que os 85 milhões de euros (R$ 490 milhões) que chegaram a ser discutidos pelos veículos locais.

A despeito do que aconteceu no Cruzeiro, o pentacampeão mundial demorou a romper verdadeiramente com a estrutura que encontrou no clube que fica a uma hora e meia de sua casa em Madri.

Somente no fim de sua terceira temporada, na verdade, é que ele deu início a uma revolução interna que resultou em mais de 70 cortes entre jogadores, comissão técnica e direção. No processo, vieram pessoas de sua confiança, entre outras, os ex-companheiros Julio Baptista e Paulo André e o fisioterapeuta Bruno Mazziotti, ex-Corinthians e seleção brasileira.

Foi o culminar de um projeto que, desde o seu princípio, alterou a rotina do Valladolid em seus mínimos detalhes.

Até a sua chegada, sempre que tinham de viajar para jogos fora de casa, os atletas se deslocavam de ônibus até Madri e, então, embarcavam em um voo comercial. Eles agora contam com voos fretados para amenizar o desgaste físico. A estratégia tem se provado acertada.

Mesmo com a queda na última temporada, o desempenho em campo foi suficiente para assegurar ao menos uma grande venda para os seus padrões em cada verão europeu.

No último meio do ano, por exemplo, negociou o atacante brasileiro Marcos André com o Valencia por 8,5 milhões de euros (R$ 49 milhões). O detalhe: ele havia sido adquirido duas temporadas antes por 500 mil euros (R$ 2,9 milhões). Um lucro fenomenal.

Antes dele, também foram transferidos o defensor Mohammed Salisu por 12 milhões de euros (R$ 69 milhões) para o Southampton em 2020 e o zagueiro espanhol Fernando Calero por 8 milhões de euros (R$ 46 milhões) para o Espanyol em 2019.

A figura de Ronado à frente do Valladolid provoca ainda situações inusitadas. Na compra da revelação Stiven Plaza ao Independiente del Valle, os equatorianos fizeram uma exigência no mínimo curiosa: para fechar negócio, exigiam a presença do Fenômeno para uma palestra e uma coletiva de imprensa em seu CT. O francês Hatem Ben Arfa, por sua vez, atrasou a sua assinatura de contrato em um dia para que ele pudesse estar ao seu lado.

A reverência, claro, lhe garante uma maior confiança e possivelmente facilidade no dia a dia, mas não é garantia de sucesso.

Ronaldo chegou a abrir conversas com clubes como Charlton e Brentford e tem planos de investir na Inglaterra. Até esse dia chegar, contudo, precisará primeiro cumprir os seus objetivos no Cruzeiro e no Valladolid. É apenas o início de uma caminhada longa agora fora dos gramados.