Afinal, qual o estado atual dos objetivos da China dentro do negócio do futebol?

Oscar é um dos principais nomes do futebol chinês nos últimos anod (Foto: REUTERS/Aly Song)
Oscar é um dos principais nomes do futebol chinês nos últimos anod (Foto: REUTERS/Aly Song)

Em 2014, o Conselho de Estado da China emitiu um documento que visava a impulsionar a indústria esportiva no país. "Opiniões para a aceleração do desenvolvimento da indústria desportiva e promover o consumo do esporte" é considerado o marco para a decolagem do segmento na nação. Em linhas gerais, a pretensão era de que o setor esportivo na China produzisse o correspondente a US$ 460 bilhões até 2021 (meta que foi alcançada já em 2019) e US$ 813 bilhões até 2025. Mas há metas mais ambiciosas. A China resolveu mergulhar no futebol e ainda muito se pergunta sobre isso. Os objetivos estão sendo alcançados?

Para entender melhor o assunto, conversamos com Emanuel Leite, doutorando em Políticas Públicas, pela Universidade de Aveiro, Portugal, e responsável por diversos artigos publicados sobre o desenvolvimento do futebol na China.

“A ideia é que em 2035 a indústria esportiva chinesa supere a dos EUA, tornando-se a maior do mundo, e corresponda a 5% do PIB chinês”, detalha Leite. “Para se ter uma ideia, em 2014, a indústria esportiva representava apenas 0,64% do PIB. Ou seja, pretendem fazer com que esse setor contribua para o desenvolvimento econômico e social do país, cumprindo os objetivos estabelecidos no chamado Sonho Chinês”.

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Para cumprir este desafio, o governo chinês identificou o futebol como a mola propulsora para todo este processo de crescimento e desenvolvimento. Partindo disso, em 2015 foi publicado outro documento, o "Plano Geral de Reforma para Impulsionar o Desenvolvimento do Futebol na China". Com 50 pontos, ele é uma espécie de preâmbulo da principal política pública para a expansão do futebol na China, que é o Plano de Desenvolvimento do Futebol a Médio e Longo Prazo (2016-2050).

“Para transformar a China em uma grande nação esportiva, as autoridades chinesas entendem que é preciso promover o desenvolvimento do futebol, pois veem neste esporte o papel de liderança na reforma e desenvolvimento do setor. Porém, reconhecem que há um grande problema a ser enfrentado, que é a defasagem do futebol no país. Outro problema é a necessidade do desenvolvimento do futebol em todos os níveis, não apenas na esfera da alta competição e de elite, mas desde a formação de novos atletas a, principalmente, a criação de um novo hábito cultural, pois a população chinesa, de modo geral, não tem a cultura de jogar futebol. Criar este hábito, esta cultura, é fundamental para que haja uma maior participação da juventude no esporte e, consequentemente, seja possível a identificação de novos talentos, para além de formar novos fãs, que, ao fim, são também consumidores, fazendo com que essa cadeia produtiva tenha circulação”, explica Emanuel.

Cifras muito altas

Para a implementação do Plano do Futebol, foi criado o Gabinete do Conselho de Estado da Conferência Conjunta Interministerial sobre Reforma e Desenvolvimento do Futebol, órgão que reúne, dentre outros, 11 Ministérios, quatro Comissões do Conselho de Estado, cinco agências governamentais, o Departamento de Propaganda do Partido Comunista, além de órgãos dos governos locais e provinciais. Por que tamanha magnitude?

“No Plano do Futebol não há a previsão de que os clubes chineses gastassem tanto dinheiro em transferências de jogadores estrangeiros como aconteceu principalmente entre 2015 e 2017. Tanto é assim que já em 2017 a Administração Geral do Esporte acusou os clubes de “queimarem dinheiro e pagarem salários muito elevados a jogadores estrangeiros”, implementou medidas de controles salariais e estipulou uma taxa de 100% sobre as transferências internacionais que custassem acima de €5,9 milhões – foi por conta dessa medida que Diego Costa e Rooney, por exemplo, não se transferiram para clubes chineses”, relembra Leite. “A questão é que os clubes – leia-se os seus proprietários – entenderam que o governo chinês pretendia desenvolver a indústria do futebol e o consumo e pensaram que se contratassem jogadores consagrados no futebol mundial, atuando nas principais ligas europeias, seria uma boa forma de dar visibilidade à Super Liga Chinesa. De alguma forma isso aconteceu. Porém, o problema é que os altos gastos tornariam o desenvolvimento de toda a cadeia produtiva do futebol insustentável. Foi aí que o Estado interveio através de declarações e recomendações e a Associação Chinesa de Futebol resolveu intervir diretamente com as regulações”.

Estas intervenções de 2017, e as que se verificaram ao fim de 2020 e início de 2021, ajudam a ver, através das lentes do futebol, como funciona o socialismo de mercado chinês. Isso porque, como o documento de reforma do futebol de 2015 afirma textualmente, o que se estabeleceu para a indústria do futebol foi “uma combinação de um sistema nacional e mecanismo de mercado, usando a superioridade do sistema socialista”. O que seria isso, de forma bem resumida? Com a palavra, Emanuel. “Basicamente, tira-se proveito da iniciativa privada para atingir os objetivos de desenvolvimento pretendidos, mas o domínio sobre os meios objetivamente estratégicos da economia é detido pelo Estado”.

E falando sobre os altos investimentos já feitos em alguns atletas, Emanuel explica que a percepção de gastos apenas em veteranos não é totalmente verdadeira.

“Se você olhar, ao contrário do que fazia a MLS até bem pouco tempo (e digo fazia porque o perfil de contratações mudou de uns tempos para cá), os clubes chineses não contrataram veteranos em fim de carreira no futebol europeu. As contratações chinesas foram, em sua maioria, de atletas consagrados, mas que estavam no auge da forma, como Oscar, Hulk, Witsel, entre outros. De todo o modo, é importante ressaltar que esse perfil de contratação foi escolhido pelos clubes. Isso não estava previsto no Plano do Futebol e nas outras políticas públicas relacionadas ao desenvolvimento desta indústria. E a estratégia dos clubes foi de tentar mostrar ao governo chinês que estavam investindo pesado para o fortalecimento da Liga nacional e de sua marca, colocando a CSL no centro das atenções. O problema, como já disse, era a (in)sustentabilidade disso. Como as autoridades mesmo perceberam.”

O caminhar do plano chinês para o futebol

O plano de desenvolvimento foi lançado em 2016 e é longo, mas já alcançou marcas proporcionais às dimensões do referido país. Pretendia-se que até 2020 houvesse 20 mil escolas especializadas em futebol, 70 mil campos e entre 30 a 50 milhões de estudantes dos ensinos básico e secundário praticando este esporte. De acordo com Wang Dengfeng, diretor para o futebol do Ministério da Educação da China, ao fim de 2020 já eram 30 mil escolas especializadas em futebol, com cerca de 30 milhões de praticantes, 181 Instituições de Ensino Superior matriculam jogadores de futebol e foram construídos ou reformados 60 mil campos. Além disso, criou-se várias faculdades de estudo do futebol.

“Contudo, a bolha que foi inflada entre 2015 e 2017 teve que ser controlada com medidas regulatórias ainda mais firmes no fim de 2020 e começo de 2021”, conta Leite. “Como eu mencionei antes, a planificação estatal chinesa não é inflexível e imutável, pelo contrário, os chineses têm consciência de que o desenvolvimento deste porte é um processo dialético e, portanto, enfrenta contradições e é gradual. Principalmente um plano de médio e longo prazo. E os ajustes foram feitos na tentativa de manter a planificação para o desenvolvimento do futebol em um curso sustentável.”

O Plano do Futebol é bem abrangente. O documento se debruça sobre diversos setores a serem desenvolvidos, e um dos pontos considerados é a da geopolítica do esporte. Emanuel esmiuça.

“Aqui há dois desdobramentos. Por um lado, a expansão do capital chinês nos mercados externos. Por outro, a chamada diplomacia do esporte, em que o futebol, nesse caso concreto, serve de ponte, de ligação, de instrumento de aproximação e abertura de portas. A diplomacia é fundamental não apenas para as relações entre Estados, mas também para as relações comerciais. Assim, o futebol pode abrir portas para o estabelecimento ou aprofundamento de relações bilaterais e, também, para negócios – seja de empresas estatais, seja de empresas privadas ou de capital misto. E foi assim que se viu em diversos investimentos por todo o mundo. Eu tenho alguns artigos científicos e capítulos de livros publicados com o meu orientador, o professor Carlos Rodrigues, em que identificamos e demonstramos como certos negócios foram feitos pensando nessa dimensão do comércio exterior chinês, em especial alguns relacionados à iniciativa chamada de ‘Nova Rota da Seda’.”