Acordo para vacinar delegações da Copa América é cheio de incertezas e pouco eficaz

·6 minuto de leitura
***FOTO DE ARQUIVO***SUZANO, SP, 10.04.2021: Acordo para vacinar delegações da Copa América é cheio de incertezas e pouco eficaz. (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)
***FOTO DE ARQUIVO***SUZANO, SP, 10.04.2021: Acordo para vacinar delegações da Copa América é cheio de incertezas e pouco eficaz. (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Conmebol organiza a logística para que todas as dez delegações estejam vacinadas para a Copa América no Brasil, algo combinado com o governo federal e as quatro sedes (RJ, MT, GO e DF). Um grande desafio, que esbarra em um fato: a maior parte dos atletas vai iniciar o torneio sem ter recebido a segunda dose.

A competição sul-americana começará em 13 de junho e, nesta quarta-feira (2), 11 dias antes do primeiro jogo, Argentina, Brasil, Colômbia e Peru ainda não receberam nem a primeira aplicação do imunizante. A Coronavac, por exemplo, uma das quatro vacinas aprovadas no Brasil, é indicada com um intervalo igual ou maior de 21 dias entre as duas doses.

Ao aceitar a realização da Copa América no país, apesar do recrudescimento da pandemia da Covid-19, a Casa Civil da Presidência da República disse em nota que, segundo a CBF, serão dez delegações com, no máximo, 65 pessoas cada -todas vacinadas- e jogos sem público.

O governo federal, a entidade brasileira e a sul-americana não explicaram também detalhes desse acordo para que todos sejam vacinados nem se haverá uma espécie de "bolha" para isolar os participantes da Copa América do restante da população.

O laboratório chinês Sinovac, fabricante da Coronavac, é parceiro comercial da Conmebol e destinou 50 mil doses à entidade que rege o futebol sul-americano. No dia 28 de abril, a confederação começou a distribuir 5.000 doses para cada um dos dez países filiados. No entanto, as doses não puderam ser utilizadas pelos atletas e comissão técnica da seleção brasileira.

Parte dos jogadores brasileiros que atuam no exterior, como Neymar e o próprio técnico Tite, já se vacinaram fora do país. A CBF não informa quantos foram imunizados nem como fará com os demais. Em tese, esse segundo grupo de atletas e integrantes da delegação teriam que tomar a primeira dose no dia 8, na sede da Conmebol, em Luque (PAR), após a equipe enfrentar os Paraguai pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022, em Assunção.

Cientistas do Instituto Butantan publicaram os resultados do estudo que avaliou um subgrupo de voluntários que recebeu as duas doses com intervalo igual ou maior de 21 dias e verificaram que a eficácia da vacina aumentou para 64%. Assim, o laboratório tem recomendado o intervalo de 21 dias ou 28 dias entre as doses para obter uma eficácia maior.

As delegações ainda não vacinadas terão esse problema do tempo, como a do Uruguai, por exemplo.

"Já vacinamos todos os funcionários e comissão técnica da seleção com as duas doses. A primeira foi nos dias 6 e 7 de maio e a segunda, em 27 e 28 de maio. Os jogadores serão vacinados na próxima sexta-feira (4), às 17 horas no Complexo Celeste", disse à reportagem o vice-presidente da Associação Uruguaia de Futebol, Gaston Tealdi.

Ele não sabe dizer como a segunda dose será aplicada nos atletas. Seguido o protocolo da Sinovac, a delegação vai chegar ao Brasil apenas com a primeira parte do imunizante e terá de receber a outra em 25 de junho. A final da Copa América está marcada para 10 de julho.

Especialistas dizem que o prazo não será suficiente para alcançar a imunização e que o ideal mesmo seria esperar 28 dias entre as doses, não 21. A Casa Civil divulgou que os envolvidos no torneio teriam de estar "vacinados contra a Covid-19".

"Os estudos deixam claro que a proteção maior acontece duas semanas depois da segunda dose. E o intervalo entre as doses deve ser de 28 dias. Intervalos menores, a eficácia da vacina é menor", diz a médica Raquel Stucchi, professora da Unicamp e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Mesmo vacinados, membros das delegações poderão contrair o coronavírus e retransmiti-los, adverte. "Alguma proteção existe com a primeira dose, 14 dias depois. Ao que me parece não teremos tempo hábil de que esses atletas estejam protegidos. Lembrando, que a vacina da Coronavac protege contra 50% dos sintomas de qualquer forma, mas as pessoas podem ter a Covid e transmitir, mesmo sem sintomas", completa ela.

Segundo o médico sanitarista Daniel Dourado, a vacinação de atletas e comissão técnica não trará efeito à população. "O objetivo é somente o de não ter que paralisar a competição. A imunização só garante proteção efetiva quando uma parcela da população estiver vacinada. No caso da Covid, isso está em torno de 70%."

Até a última terça (1º), 28% (46,2 milhões de pessoas) receberam a primeira dose no Brasil, enquanto que 13% tomaram a segunda dose (22,3 milhões), segundo dados do consórcio formado pelos veículos Folha de S.Paulo, UOL, O Estado de S. Paulo, Extra, O Globo e G1.

A CBF (Confederação Brasileira de Futebol) fez um pedido ao Ministério da Saúde para imunizar jogadores da seleção e de clubes do país com as vacinas da Conmebol em território brasileiro.

Para isso, há a necessidade de uma nota técnica do órgão para que inclua os atletas no Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação Contra a Covid-19 (PNO), porque a legislação que permite às instituições privadas adquirirem vacinas também exige que elas sejam doadas integralmente ao SUS enquanto os grupos prioritários não forem imunizados no país. Após esse período, essas entidades poderão adquirir e usar 50% do montante, doando o restante.

Foi somente com este aval do governo federal que o COB (Comitê Olímpico do Brasil) conseguiu dar início à imunização da delegação que vai aos Jogos de Tóquio, após receber doações de doses da Sinovac e da Pfizer intermediadas pelo COI (Comitê Olímpico Internacional).

Jorge Pagura, coordenador médico da CBF, disse à reportagem ter consultado o Ministério da Saúde, em abril, mas ainda não teve nenhum retorno.

Procurado pela reportagem na manhã desta quarta, o Ministério da Saúde ainda não se pronunciou até a publicação deste texto sobre a possibilidade de o governo legalizar a vacinação das delegações no Brasil e nem sobre o pedido da CBF.

O Atlético-GO foi o primeiro clube brasileiro que fez uso das vacinas fornecidas pela Conmebol, após visitar o Libertad, em Assunção, pela Copa Sul-Americana. No dia 7 de maio, 44 integrantes da delegação do Atlético-GO receberam a primeira dose da Coronavac em Luque, sede da entidade. Depois, no dia 19 de maio, foi a vez do elenco do Atlético-MG receber a primeira dose, na cidade paraguaia.

O presidente do clube, Adson Batista, disse, na ocasião, que a data e o local da segunda dose seria informado pela Conmebol, o que ainda não ocorreu.