Acirramento político torna "alternativa ao centro" cada vez mais distante

Manifestantes protestam na avenida Paulista contra o STF no domingo, 17 de novembro. Foto: Fabio Vieira/FotoRua/NurPhoto via Getty Images
Manifestantes protestam na avenida Paulista contra o STF no domingo, 17 de novembro. Foto: Fabio Vieira/FotoRua/NurPhoto via Getty Images

Você pode não acreditar, mas em algum lugar distante do acirramento do Facebook ou dos grupos de Whatsapp vive escondido um tipo de eleitor que nem está batendo continência para a estátua da Liberdade da Havan nem acredita que, uma vez solto, Lula será capaz de transformar os excessos e injustiças cometidos no processo do tríplex numa grande borracha nos erros dos governos petistas que ele diz não ver razão para revisar.

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Esse eleitor provavelmente não vê com bons olhos o acirramento da tensão dos últimos dias, e não só porque o Natal em família tende a azedar a maionese até dezembro.

Até pouco tempo, o maior adversário do governo Bolsonaro era o próprio Bolsonaro.

Ele arrumou briga com a imprensa.

Com ONGs.

Com a França.

Com o papa.

Com o partido que o elegeu.

Com ministros (agora ex-ministros).

Com os antigos coordenadores de sua campanha, que agora botam a boca no trombone e ameaçam contar o que sabem.

A cada canelada, acendia um alerta entre os adultos na sala (no Brasil existem alguns) sobre a capacidade de gerenciamento de crise de um governo em modo fogo alto por quatro anos.

O aumento do desmatamento e das queimadas na Amazônia é apenas a versão trágica, e real, dessa alegoria.

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Em setembro, segundo o Ibope, havia mais gente que desconfiava (55%) do que confiava (42%) no presidente.

E mesmo aquela parcela de eleitores que se apegava à conversa de que, sem o PT, a economia decolaria já começava a murchar. Eram 45% no começo do ano e, nove meses depois, 37%.

Os pessimistas, por sua vez, saltaram de 23% para 31%.

Não por acaso, antigos apoiadores ou mesmo eleitores que apostavam que “veja bem, veja lá, a postura de Bolsonaro quando deputado era só tipo, ele vai mudar quando virar presidente” começavam a se afastar do barco. 

Nas rodas de conversa, tinham até vergonha de defender o governante que mandava defecar dia sim, dia não, para ajudar o meio ambiente.

O desgaste animava candidatos ao centro ou que viam no centro uma oportunidade. Ninguém precisava vestir a camisa de “Lula livre” para condenar a estratégia bolsonarista de dialogar apenas com seus eleitores, refutar declarações preconceituosas sobre mulheres e nordestinos, se preocupar com a sanha censurante nos costumes e na produção cultural e com os flertes de autoritarismo cada vez que os filhos testavam as profundidades das águas em defesas do AI-5 e queixas sobre a democracia e o funcionamento dos outros Poderes.

Os protestos pedindo fechamento do Congresso, do Supremo e outros delírios é consequência dessa marcha.

Com a soltura de Lula, Bolsonaro ganhou um espantalho para chamar de seu. Algo como: “Se não eu, será ele”. 

Lula, ao mirar em Paulo Guedes, o ministro para quem só rico sabe poupar no país, aposta na insatisfação com o governo, sentida no bolso de quem terá descontado até o seguro-desemprego, para reaglutinar a esquerda. “Se não eu, será ele”.

O resultado é um estado de mobilização constante, em que contrapontos ou alternativas no mesmo campo são automaticamente descartados como sinal de rachadura e enfraquecimento. Não se trata de comparar extremismos (nessa disputa, apenas um pode ser chamado de extremista), mas estratégias de discurso.

Lula aposta na amnésia de quem acha que a fila andou, que os erros das investigações não anulam os desvios cometidos nos últimos anos, que a política de campeões nacionais e controle de preços não é a única via econômica alternativa ao desmonte prometido por Bolsonaro, etc.

O título de anti-Bolsonaro requer a hegemonia no campo da esquerda, e ela não admite autocrítica.

Bolsonaro, que em 2018 se vendeu como o melhor anti-PT do cardápio, também não aceita concorrência. Nem de Wilson Witzel nem de João Doria. Seu novo partido será o balão de ensaio da causa própria.

As eleições municipais serão um grande teste sobre a validade das estratégias. Em 2018, o discurso conciliatório foi engolido pela gritaria. Um ano depois, segue presente apenas como aposta: a de que ninguém pode cozinhar em fogo alto por tanto tempo.

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