Acionista da Ferroviária, Saul Klein é afastado de partido e deixa a política; equipe feminina terá reformulação

Rodrigo Viana* - Especial para o LANCE!
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Não bastasse o escândalo envolvendo o acionista majoritário da Ferroviária, Saul Klein - acusado de estupro e aliciamento de 14 mulheres, a turbulência na vida do empresário ficou ainda maior na última terça-feira. Em São Caetano do Sul (SP), o ex-vereador e ex-candidato a prefeito Fabio Palacio anunciou o afastamento de Klein do PSD (Partido Social Democrático). Ele foi candidato a vice-prefeito na chapa liderada por Palacio.

Por outro lado, a Ferroviária, time do qual é acionista, mesmo afastado, está adotando uma postura surpreendente no futebol feminino. Não renovou o contrato da treinadora Tatiele Silveira – bicampeã brasileira - e está vendo suas principais jogadoras se despedirem do clube através das redes sociais. Duas atacantes, Adriane Nenê e Elisa, e uma meia, Rafa Andrade, anunciaram através de suas redes sociais que não vão permanecer na Ferroviária na próxima temporada.

Outras saídas devem acontecer até quinta-feira, último dia do ano. Nada menos que sete atletas encerram seus vínculos com a Ferroviária neste dia 31 e ainda não tiveram situação definida. São elas: as laterais Monalisa e Bruna Natieli, a zagueira Luana, as meias Maglia e Rafa Mineira, além das atacantes Ludmila, e Chu, esta presença constante na Seleção Brasileira e que já teria acertado sua ida para o Palmeiras.

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Modelo de gestão

A Ferroviária sempre foi considerada o melhor modelo de gestão do futebol feminino no Brasil. Tanto é que neste ano venceu o prêmio da Conferência Nacional de Futebol, a Conafut, de Melhor Departamento de Futebol Feminino, com 60% dos votos. Concorriam com a Locomotiva o Corinthians e o Internacional, dois clubes que vão manter suas principais jogadoras e ainda se reforçarem.

Em 2019, a Ferroviária foi bicampeã brasileira, sendo única equipe a ter dois títulos na competição, vice-campeã da Libertadores e chegou entre as quatro melhores equipes do Campeonato Paulista. Além de ter feito boas campanhas no Brasileiros Sub-14 e Sub-16, ter conquistado o título do Festival da Federação Paulista de Futebol no Sub-14 e chegado na semifinal do Campeonato Paulista sub-17. A Ferroviária também foi a primeira equipe campeã brasileira sob o comando de uma técnica mulher e com uma comissão técnica, majoritariamente formada por mulheres.

Mesmo assim, e antes de estourar o escândalo de Saul Klein, em nota, a diretoria já tinha dito que “para que a instituição se mantenha competitiva em um mercado cada vez mais inflacionado, o clube optou pela adequação de sua estrutura e métodos de trabalho, pelo maior investimento na formação e desenvolvimento de jovens talentos da categoria”, dando a entender que vai formar um time de jovens promessas. A começar pela futura técnica.

A goleada sofrida para o Corinthians na semifinal do Paulista (8 x 1 no placar agregado) contribuiu para a demissão de Tatiele Silveira. Interlocutores dizem que a relação da técnica com algumas jogadoras e a diretoria também estava desgastada. Pesou também o alto salário de Tatiele, já não mais condizente com a nova realidade do clube.

Assistente da Seleção Sub-17

Após a saída de Tatiele Silveira, a Ferroviária deve oficializar nas próximas semanas a sua nova treinadora para 2021. Trata-se de Lindsay Camila, que estava como auxiliar de Simone Jatobá na seleção brasileira Sub-17, ficando mais de um ano na função.

Curiosamente, Lindsay esteve presente nos últimos meses em Araraquara, observando jogadoras da Ferroviária e de outras equipes que disputaram do Paulista Feminino Sub-17, onde o time grená perdeu a final para o Santos, na Fonte Luminosa. Lindsay Camila, de 38 anos, construiu carreira na Europa, jogando pelo Boavista-POR e também pelo Lyon-FRA. Após uma lesão, pendurou as chuteiras e não se afastou do futebol. Trabalhou na base do clube francês, entre 2006 e 2010, e retornou ao Brasil para trabalhar no Jaguariúna, porém o trabalho durou apenas nove meses.

Em 2014, retornou para a França para finalizar os seus estudos sobre futebol e possui a Licença A de treinadora com pela UEFA. Ano passado, antes de ser auxiliar da seleção brasileira Sub-17, treinou o time masculino do Terville, da divisão amadora francesa.

Diretoria não confirma, mas acordo está feito

A diretoria não confirma, mas o acordo verbal já está feito. Inclusive Lindsay já anunciou a sua saída da CBF na semana passada e retornou para Paris, onde está passando o final do ano.

A primeira missão de Lindsay no comando das Guerreiras Grenás será a disputa da Copa Libertadores da América de 2020, que será realizada entre os dias 5 de 21 de março de 2021, na Argentina. Resta saber se a equipe vai se manter competitiva – com uma equipe de jovens jogadoras - como é há 20 anos, quando foi montada. A Ferroviária é a equipe mais longeva do futebol feminino brasileiro.

*Rodrigo Viana nasceu em Ilha Solteira (SP), mas adotou Araraquara como cidade natal. Jornalista e Mestre em Estudos Literários, pela Unesp, foi professor de pós-graduação em Jornalismo Esportivo e Novas Mídias. Também foi colunista da Revista Imprensa e deste LANCE!. Ministrou palestras e workshops em parceria com a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – Intercom. Em 2013, lançou, no Museu do Futebol em São Paulo, o livro “A Bola e o Verbo – o futebol na crônica brasileira”, pela Summus Editorial.

Foi jogador das categorias de base da Ferroviária e integra a Seleção Brasileira de futebol dos escritores, o ‘Pindorama’, projeto que une Literatura e Futebol. Trabalhou em todas as grandes emissoras de TV do pais, com destaque para a cobertura da Copa do Mundo de 2014 pelo Sportv/Globo e o título mundial do Corinthians em 2012, no Japão, pelo SBT. Também denunciou o esquema de venda de ingressos pela Fifa na Copa das Confederações em 2013.