Abel Ferreira já atropelou Liverpool e prometeu até ida a Disney em caso de título continental

Marcus Alves
·5 minuto de leitura
Abel Ferreira no comando do Sporting na Champions Sub-19, em 2013. Foto: Bryn Lennon/Getty Images
Abel Ferreira no comando do Sporting na Champions Sub-19, em 2013. Foto: Bryn Lennon/Getty Images

De Lisboa

Wallyson Mallman sorri ao lembrar os rituais pré-jogo de Abel Ferreira e sua comissão técnica quando ainda começava na base do Sporting.

“Gosto muito do auxiliar dele, o João Martins”, conta o meio-campista, hoje no Leixões, da segunda divisão portuguesa, ao Yahoo Esportes. “Ele tinha um jeito bastante peculiar de motivar os jogadores antes das partidas. Chegava na gente e dava uma chapada no rosto. Um tapa na cara, ainda no túnel, como motivação”, prossegue, aos risos.

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 min e receba todos os seus emails em 1 só lugar

Siga o Yahoo Esportes no Google News

Farley Rosa, que defende atualmente o Al-Fujairah nos Emirados Árabes, foi outro que sentiu na pele e, por isso mesmo, não se surpreende com os discursos inflamados de Abel agora no futebol brasileiro. “O que ele faz ali no vestiário já era assim com a gente. Muitas vezes, tinha resultado. Passava muita confiança”, recorda.

Não resta dúvida de que está funcionando no Palmeiras.

Leia também:

No sábado, às 17h (de Brasília), o português de 42 anos fará contra o Santos o maior jogo de sua carreira, na final da Libertadores, no Maracanã.

Não é a primeira vez, ainda assim, que Abel chega longe em uma competição continental.

Um dos grandes orgulhos de seu percurso no banco de reservas foi quase ter conquistado a NextGen Series, uma espécie de Champions League de aspirantes, quando dava seus primeiros passos fora de campo. Em 2013, ele conduziu o Sporting até as fases finais do torneio sub-19, atropelando o Liverpool nas oitavas, batendo o Tottenham nas quartas e parando apenas no Aston Villa nas semis. Ficou com o terceiro lugar após vencer o Arsenal na disputa pelo posto.

Praticamente, uma Premier League, por assim dizer.

Na altura, a campanha teve ampla repercussão em Portugal, sendo destacada na capa do tradicional jornal A Bola e com os seus jogos em Como, na Itália, palco do final four, transmitidos em TV aberta.

Ex-lateral direito, então recém-aposentado, Abel sonhava com o título para impulsionar a sua carreira. A sua obsessão era tamanha que, como modo de incentivar seus atletas, decidiu, então, fazer uma promessa a eles: caso conquistassem um troféu naquela temporada, levaria todo o grupo para curtir o parque da Disney.

Não o de Orlando, nos Estados Unidos. Mas o mais próximo, claro, em Paris, na França.

Foi o suficiente para fazer a imaginação de muitos garotos como Zé Roberto, que nem sabiam que havia uma Disney a poucas horas de Lisboa, decolar.

“A gente estava na briga pela NextGen e também pelo Português da categoria, por isso, em determinado momento, o mister Abel prometeu para a gente uma viagem para Disney se a gente fosse campeão de um dos dois. No fim, não deu certo, mas ficou essa experiência marcante”, afirma o atacante, que está treinando hoje em São Luís, no Maranhão, no aguardo de um clube.

Zé Roberto, um dos atletas do Abel no Sporting. Foto: Arquivo Pessoal
Zé Roberto, um dos atletas do Abel no Sporting. Foto: Arquivo Pessoal

Ao todo, eram quatro brasileiros no elenco comandado por Abel: Wallyson, Farley, o próprio Zé Roberto e ainda Fellipe Veloso, atualmente no Real Brasília.

Em comum entre todos eles, a gratidão por ter cruzado caminho com o comandante palmeirense.

“Tive a chance de trabalhar com Jorge Jesus, Leonardo Jardim, mas sempre disse que o Abel foi o melhor treinador que eu tive. Ele tinha um estilo de jogo que priorizava muito a posse de bola. Costumava repetir que, para jogar com ele, o pessoal da frente tinha que correr sem a bola também, roubar pelo menos cinco por partida. Caso contrário, ficaria de fora. Não bastava ter qualidade”, explica Wallyson.

“Cheguei a ter sondagens de outros times, interesse do Barcelona, conversa concreta com o Mônaco. O Abel foi o técnico que mais tirou de mim e me ajudou a ir para o Nice”, acrescenta.

A exemplo do que acontece hoje, um dos aspectos mais destacados no trabalho de Abel era o seu lado didático. Esse é, inclusive, um dos fatores que impressionou Zé Roberto em sua transferência para o Sporting.

“Desembarquei no meio da temporada vindo do Santos. Me recordo até a data: 13 de janeiro. Uma das coisas que eu mais gostava eram os treinos dele, muita bola, conversa, tática. Logo que assinei, ele me entregou um caderno como se fosse um livro com os esquemas, o que o atacante tinha que fazer, movimentos para não ficar impedido. No Brasil, você não vê isso”, afirma.

“Quando ele me deu, já disse que, se tivesse qualquer dúvida, era só vir e perguntar. Estava sempre aberto ao diálogo. Foi fundamental para mim”, continua.

“Tive a chance de jogar 10, 15 minutos contra o Liverpool, vencemos por 4 a 0 em um estádio sensacional como Alvalade, uma das partidas mais marcantes da minha vida. Foi uma experiência muito boa para mim”, conclui.

Farley vê de longe o sucesso de Abel no Brasil e deseja apenas a oportunidade de voltar a ser dirigido por ele.

“Queria muito ter continuado trabalhando com o Abel, mas, infelizmente, tive uma proposta boa para sair. Tinha apenas 19 anos e estava no segundo ano de juniores no Sporting”, diz.

“No ano em que estivemos juntos, cresci demais como jogador, melhorou muito a minha intensidade, me ensinou a parte defensiva. Joguei contra ele pouco tempo atrás na Grécia e trocamos uma ideia no final. Disse que gostou bastante da partida que fiz contra o PAOK e brincou que, futuramente, poderíamos nos encontrar de novo. Mas ele acabou indo para o Palmeiras e eu para os Emirados”, prossegue.

“É um cara sensacional, muito justo e que não leva as coisas para ele. Você vê o Jorge Jesus falar que fez isso e aquilo enquanto o Abel, não, responde sempre que fizemos juntos”, finaliza.

Talvez esse seja o segredo para o português de Penafiel, no norte do país, ter conseguido um impacto tão imediato do outro lado do oceano. Falta apenas o título continental com que tanto sonhou. Mas sem promessa de viagem para a Disney dessa vez.

Siga o Yahoo Esportes no Instagram, Facebook e Twitter

Assine agora a newsletter Yahoo em 3 Minutos