Abel Ferreira flertou com direito e mecânica, mas ganhou o mundo como treinador

·3 min de leitura
Abel Ferreira em sua chegada ao Uruguai para a final (Foto: Dante Fernandez/AFP via Getty Images)
Abel Ferreira em sua chegada ao Uruguai para a final (Foto: Dante Fernandez/AFP via Getty Images)

LISBOA (PORTUGAL) - Pelo menos uma vez por semana, Abel Ferreira enfrenta as câmeras para expor uma faceta que, até pouco tempo atrás, muito pouco se conhecia: mais irritado, falando quase sempre em tom indignado, como se estivesse numa batalha contra o resto do mundo. As razões para isso, claro, são muitas e passam pelas críticas da imprensa que julga ser injustas e até mesmo por sinais de xenofobia que vieram com o seu sucesso no Palmeiras.

O português de 42 anos já conquistou a Libertadores e agora, contra o Flamengo, em Montevidéu, no Uruguai, tem a chance de fazê-lo pela segunda temporada consecutiva.

Leia também:

Talvez não seja suficiente para calar os seus desafetos, mas certamente colocará de forma definitiva o seu nome na história: ele pode se tornar o primeiro treinador europeu a subir ao topo da América por dois anos consecutivos.

É mais do que sonhou quando desembarcou no Brasil sem muita badalação vindo do PAOK, da Grécia, em outubro de 2020.

Abel poderia ter seguido um caminho diferente na vida, no entanto. E bem que tentou.

Quando jovem, o futebol dividia a sua atenção com os carros: tinha uma verdadeira obsessão por copiar os passos do pai Sebastião, mecânico na pequena Penafiel, no norte de Portugal. Na oficina, fazia de tudo um pouco. Mesmo sem carteira de motorista, pegava os carros dos clientes e muitas vezes era o responsável por estacioná-los na garagem.

Bateu o pé, queria que o pai lhe ensinasse o ofício, mas Sebastião sempre se mostrou irredutível, preferindo que se concentrasse nos estudos para abraçar outra profissão. A paixão de Abel pelos carros, ainda assim, resistiu a essas negativas. Quando conseguiu algum dinheiro a mais, comprou um kart.

Se pudesse, já admitiu por diversas vezes, compraria muito mais carros do que já possui. A esposa é a responsável por frear essa espécie de vício. Mantém como passatempo, de qualquer forma, pesquisar o preço de automóveis novos e antigos para acompanhar as suas valorizações. Não perde da mesma maneira qualquer corrida de motor na televisão.

A despeito disso, Abel não tem convicção se, no fim das contas, teria se tornado um mecânico como o pai.

“Talvez um engenheiro automotivo”, já chegou a sugerir em palestra na sua terra natal.

Nada disso aconteceu. E por um breve período de tempo, ele cogitou perseguir uma outra área totalmente diferente por motivos românticos.

Receoso com a distância que ficaria da companheira Ana Xavier após vê-la passar em direito na tradicional Universidade de Coimbra, pensou em partir para o mesmo caminho e também entrar no curso. Chegou a fazer vestibular e ser aprovado, porém, o futuro como lateral direito falou mais alto.

Viu Ana estudar por quatro anos em Coimbra e quase concluir a licenciatura até o momento em que resolveu se juntar a Abel em Braga e, na sequência, acompanhá-lo em sua ida a Lisboa para jogar pelo Sporting. No meio do percurso, se casaram e decidiram ter filhos.

Abel não esconde a gratidão pelo sacrifício da esposa, que abdicou de suas pretensões naquele momento para estar ao seu lado o tempo inteiro.

E é exatamente por tudo que enfrentou que o Abel que sonhou em ser mecânico, quase descambou para o direito e se tornou famoso como técnico, não aceita ver o seu trabalho reduzido. De Penafiel, passando por Coimbra até vir parar em São Paulo, ele jamais abriu mão de suas convicções, por mais que contestadas que elas fossem. Agora, elas podem conduzi-lo ao cume da América mais uma vez.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos