Abel Ferreira encontra elenco jovem e exigência inédita no Palmeiras

MARCOS GUEDES
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A última entrevista de Abel Ferreira como técnico do PAOK, na última quinta-feira (29), foi tensa. Após um empate por 0 a 0 do time grego com o espanhol Granada, pela Liga Europa, o português não gostou de perguntas críticas sobre o desempenho apresentado e mostrou sua insatisfação. "A única coisa que vos quero dizer é: os treinadores só são bons quando os jogadores de campo demonstram qualidade", afirmou. "Se há clubes interessados nos jogadores do PAOK e no treinador do PAOK, é porque há qualidade dentro do campo. Mas também há quem não goste." Anunciado pelo Palmeiras no dia seguinte, Ferreira terá de exercitar sua paciência na chegada ao Brasil. As expectativas são bem maiores na agremiação alviverde do que nas equipes dirigidas anteriormente pelo profissional de 41 anos: o Braga, de Portugal, e o próprio PAOK. A cobrança é tão grande que parece desproporcional ao elenco à disposição. Vanderlei Luxemburgo chegou a construir 20 jogos de invencibilidade -com dez vitórias, dez empates e um título conquistado sobre o arquirrival- e continuou ouvindo que o futebol era decepcionante. Três partidas depois dessa série, o experiente comandante de 68 anos estava demitido. Agora, após um período sob elogiada direção interina de Andrey Lopes, 47, será o jovem Abel Ferreira que terá de lidar com um elenco também jovem, mas com exigência de veterano. A parceria com a patrocinadora Crefisa, com investimentos altíssimos nas últimas temporadas, estabeleceu a ideia de que o elenco é extraordinário. Porém, neste ano, o Palmeiras mais vendeu do que comprou e perdeu aquele que vinha sendo seu principal jogador, o atacante Dudu. O jeito foi se virar com garotos que subiram das categorias de base, com todas as benesses e todos os problemas que isso acarreta. Se existe óbvio talento entre nomes como Gabriel Veron, 18, Gabriel Menino, 20, e Patrick de Paula, 21, há também clara inconsistência. Patrick pintou como um grande volante e foi decisivo no triunfo no Campeonato Paulista, mas caiu vertiginosamente de produção. É uma oscilação que pode ser considerada normal, porém a tolerância tem sido mínima no clube alviverde, algo que Abel Ferreira precisará entender. O Palmeiras conta com um grupo que dispõe de força e velocidade, ingredientes que animam qualquer treinador. Há também carências evidentes, e o incessante rodízio de meias nas últimas temporadas mostra que nenhum, entre Lucas Lima, Gustavo Scarpa e Raphael Veiga, entregou o que se esperava, apesar do último citado estar com mais destaque que seus concorrentes de posição atualmente. Luxemburgo tentou resolver essa questão no início do ano ao colocar Dudu como articulador, opção que deixou de existir quando o atacante foi vendido, durante a paralisação das competições por causa da pandemia do novo coronavírus. Sem um toque refinado no meio, a agilidade virou a alternativa. Andrey Lopes percebeu isso depois de estrear seu comando interino com um time lento que perdeu por 2 a 0 para o Fortaleza. Nos jogos seguintes, apostou em formações com pontas velozes, ganhando com bastante facilidade de Tigre, Atlético-GO e Red Bull Bragantino. Cebola, como Lopes é conhecido, ainda vai dirigir a equipe no duelo desta segunda-feira (2), às 17h, contra o Atlético-MG, no Allianz Parque, pelo Campeonato Brasileiro, com transmissão do Premiere. Na sequência, será a vez de Ferreira lidar com as expectativas altas que o esperam. Trabalhar com atletas novos é uma de suas qualidades. Especialmente no Braga -que alcançou seu recorde de pontos no Campeonato Português sob seu comando-, Abel mostrou essa capacidade, palpável na chegada do atacante Trincão, hoje com 20 anos, ao Barcelona e à seleção de Portugal. A questão é que o ex-lateral direito, de carreira relativamente discreta como jogador, não está chegando ao Brasil com a expectativa de simplesmente desenvolver o potencial de meninos. Ele precisa dar vez aos garotos, conquistar títulos e jogar como manda o "DNA do Palmeiras". A expressão foi usada pelo presidente Maurício Galiotte logo após a demissão de Luxemburgo. De acordo com o dirigente, a busca do substituto não seria por um nome, mas por "um conceito", diretamente ligado à vocação ofensiva exibida na velha Academia. Não parece haver hoje espaço para o jogo cadenciado da Academia, nome que acompanhou os fantásticos times alviverdes dos anos 60 e 70. Impor-se sobre os adversários exige uma agilidade maior, e essa equação terá de ser solucionada pelo novo chefe.