A superexposição de competições até o Sub-15 pode afetar o desenvolvimento dos jogadores?

Garotos do Sub-13 do Corinthians, em 2019 (Foto: Rodrigo Gazzanel/Agência Corinthians)
Garotos do Sub-13 do Corinthians, em 2019 (Foto: Rodrigo Gazzanel/Agência Corinthians)

É inimaginável, no período atual, a organização de qualquer evento que passe à margem dos meios de comunicação, sejam eles os veículos tradicionais ou mídias sociais. Isso não poderia ser diferente com o futebol. Para um atleta que passa por um processo de formação e visa um dia se profissionalizar, essa pressão externa é um desafio constante em toda a carreira. Hoje, não é difícil encontrar transmissões de partidas de categorias Sub-15, Sub-13 e outras ainda mais baixas. Mas afinal, essa superexposição de jogadores tão jovens é saudável?

Para responder de melhor forma, conversei com três profissionais que acompanham de perto as camadas mais jovens do futebol: Felippe Cardoso, doutor em Educação Física pela Universidade Federal de Viçosa (UFV-MG); Marina Dantas, psicóloga e doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP); e Mozart Maragno, mestre em Educação Física pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e um dos fundadores do "Olheiros", perfil no Twitter que desde 2007 acompanha categorias de base.

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A relação do torcedor com jogadores jovens e a estrutura necessária na formação

“Torcedor é emoção, né? A cobrança vai existir. Com uma certa crueldade em algum momento. O jovem vai subir e vão dizer que ele não tem qualidade, que é superestimado, mascarado. Por outro lado, se o jovem fizer um golaço, vai ser exaltado”, explica Mozart Maragno, que administra o perfil Olheiros no Twitter. “O torcedor avalia o último jogo, basicamente. Raros são os que percebem que ali é um jovem, que vai oscilar, ter dificuldade. E isso muda muito da quarta para o domingo. Claro que, quando há exageros, isso deve ser criticado e coibido pelo próprio clube, pela proteção ao atleta. Mas vale destacar que a cobrança sem violência amadurece, faz parte do futebol.”

Psicóloga e doutora em Ciências Sociais, Marina Dantas pondera sobre as transmissões, mas ressalta a influência da exposição elevada. “Não vejo as transmissões das partidas das categorias de base em si como um problema. A questão que talvez a gente possa pensar é nessa exposição midiática mais ampla. Na forma como esses meios de comunicação fazem essa mediação entre os atletas, a torcida, a forma como alguns acontecimentos são amplificados, reverberados. Isso tudo pode, sim, trazer questões para os atletas, e em qualquer idade. Uma vez que existe a transmissão, isso é um elemento a ser observado justamente pelo impacto dessa opinião, do olhar do outro muito amplificado que a mídia traz.”

Felippe Cardoso, doutor em Educação Física, aponta como inegável o poder da mídia sobre o futebol, com a capacidade de determinar quem é o craque, quem é o “perna de pau”, o que é certo ou errado.

“Esse fato, apesar de parecer cotidianamente simples, na nossa percepção externa, eleva a pressão sobre o jogador de futebol, atingindo cada dia mais esses jogadores em categorias mais novas. Hoje, já temos apelo midiático em jogadores de categoria Sub-7, dependendo da equipe. Então, a cada dia que passa, começamos a ter essa influência em idades mais baixas. E nós sabemos que grande parte dos jogadores que tentam a sorte no futebol, ou mesmo se tornarem os craques do futuro, para receber salários astronômicos, ascendendo socialmente, vêm de classes sociais mais baixas e muitas vezes de famílias disfuncionais. Agora se a gente soma a isso uma pressão por não poder falhar diante das câmeras, você tem uma bomba relógio aí prestes a explodir, e sabemos que o erro faz parte desse processo de formação.”

Mas há fatores positivos?

“Claro, temos também que entender que há outro lado da moeda”, continua Cardoso. “Quando você escolhe uma carreira, ela vem com o bônus e ônus. Então por que não a gente entender a importância da mídia já nas categorias mais novas? isso também cabe uma reflexão. Acho que o jogador tem que aprender a conviver com a mídia, com a cobrança. Só que em categorias mais novas, além de os clubes terem um papel de instruir o que deve ser feito, como lidar com o erro, como lidar com a exposição demasiadamente grande, a mídia também tem que ter um papel mais educativo nessas idades mais novas. Entender que o papel dela não é cobrar, julgar, e sim, por vezes, estimular a criança ou adolescente ali a tentar lutar pelo sonho de ser jogador de futebol.”

Maragno, que também trabalha na área da educação, faz um paralelo com uma estrutura escolar.

“Sou muito pragmático com o aspecto futebolístico. É como uma escola. A minha tem psicólogo, assistente social, equipe pedagógica. Se uma escola não tem, o aluno vai sofrer, ficar mais vulnerável, sem acesso a um monte de situações. A mesma coisa é o futebol. Não é só aprender o conteúdo tático, técnico e trabalhar fisicamente. Alguns atletas vêm de uma situação extremamente complicada familiar, então é preciso ter todos os profissionais ali. A psicologia já foi um avanço. Tem o assistente social, o nutricionista, todo mundo muito atuante nesse processo. Tudo isso melhora o desenvolvimento do atleta. Assim como um aluno numa escola.”

Como estão cada vez mais expostos, pela forma como o futebol, como negócio, se estrutura, precisa-se ter atenção para que isso não “invada a subjetividade, o modo de ser” do jogador, como aponta Marina. Por isso, a importância da psicologia esportiva nestas camadas.

Notamos que em muitos clubes ainda não há uma abertura grande para o profissional trabalhar. Muitas vezes que falamos do psicólogo nas categorias de base, vemos apenas uma inserção meio que pro forma, para cumprir ideais de clube formador, exigência, sem uma abertura para se entender o trabalho em si. A psicologia do esporte não é somente sobre adaptar o corpo do atleta às exigências de desempenho esportivo.”

A inserção de níveis de cobrança de acordo com a faixa etária do jogador

O desenvolvimento dos atletas está atrelado a diversos fatores do indivíduo. Por isso, é essencial que os profissionais que lidam com estas camadas entendam a pedagogia ideal para cada faixa etária. Cardoso, estudioso da área, fez essa divisão.

“Dos quatro aos seis anos de idade, a criança tem um caráter egocêntrico. Nessa faixa etária, focamos principalmente no desenvolvimento das habilidades motoras básicas. O pular, o saltar, o correr. Isso associado a alguns aspectos da percepção. Paralelo a isso, a gente atribui muitas questões de caráter cognitivo. Sabemos, por exemplo, que as funções executivas, impulsividade, planejamento, a memória, são chave para o sucesso não só esportivo, mas profissional. Temos que estimular dentro das práticas o desenvolvimento dessas funções executivas. E do mesmo jeito essa questão motora, porque as habilidades motoras são desenvolvidas prioritariamente até os sete anos de idade.

Dos seis para os sete anos, as crianças saem daquele pensamento egocêntrico para um pensamento mais social, uma capacidade de visão. Aqui, começamos a trabalhar, além de aprimorar o desenvolvimento motor, e ainda estimulando esse desenvolvimento cognitivo, a tática de pequenos grupos. Paralelo a isso, aquela questão lúdica começa a se perder um pouquinho. Aqui, começamos a estimular, mesmo que minimamente, a pressão. Cobrança, de exigência, mas ainda bastante superficial, para que ela possa lidar principalmente com a frustração.

Quando chegamos próximo aos 12 anos, essas crianças já saem daquele pensamento puramente concreto e já conseguem esse pensamento abstrato. Isso é muito bom porque conseguimos desenvolver aspectos táticos mais complexos. Os princípios fundamentais e específicos. Paralelo a isso, começamos, aí sim, a intensificar substancialmente as cobranças. Tanto em termos de competição quanto as cobranças de outros aspectos associados às demandas do jogo de futebol.”