Quarentena: "Não é a solidão que nos causa horror, mas a falta de controle"

No fim, somos seres sociais que precisamos do outro para viver (Foto: Getty Images)
No fim, somos seres sociais que precisamos do outro para viver (Foto: Getty Images)

Por Nathan Fernandes (@nathanef)

Além do sentimento de solidão, outro efeito colateral comum do isolamento social, promovido por conta da pandemia do novo coronavírus, é a proliferação de memes. A união dos dois gera peças tragicômicas como aquela em que Britney Spears ressuscita um verso da música 'Baby One More Time', de 1999, e diz: 'My loneliness is killing me' (‘minha solidão está me matando', em tradução livre).

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Não demorou, claro, para surgir a evolução do meme, com a cantora usando uma máscara e dizendo: “Minha solidão está me salvando”, referindo-se à ideia do isolamento ser a medida de proteção mais recomendada até a descoberta de uma vacina. Salvando ou não, momentos de solidão parecem ser companhia certeira para aqueles que podem exercer a quarentena e que estão afastados dos amigos e da família.

“Uma coisa é você viver sozinho porque quer, mas, na hora que isso se torna obrigatório, é como quando a nossa mãe nos manda fazer uma coisa que nós já íamos fazer e perdemos o interesse”, explica o psicanalista e professor da USP Christian Dunker, autor de 'Reinvenção da Intimidade’ (Ubu). “Esse efeito rebote pode encontrar apoio na ideia de que a solidão, quando se estende, quando passa de um certo ponto, mostra também os nossos piores demônios, o nosso vazio.”

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No livro ‘O Dilema do Porco-Espinho' (Planeta), o historiador e professor da UNICAMP Leandro Karnal evoca o filósofo Arthur Schopenhauer ao comparar os seres-humanos com o mamífero espinhento. “O frio do inverno (e da solidão) nos castiga. Para buscar o calor do corpo alheio, ficamos próximos dos outros. Efeito inevitável do movimento: os espinhos nos perfuram e causam dor (e os nossos a eles). O incômodo nos afasta. Ficamos isolados novamente. O frio aumenta, e tentamos voltar ao convívio com o mesmo resultado”, escreve.

Para ele a metáfora trata de um profundo paradoxo humano: Solitários, somos livres, porém passamos frio. A dois ou em grupos, as diferenças causam dores. 

Não existe uma distância padrão para nos manter aquecidos e longe dos espinhos ao mesmo tempo. Mas, com o distanciamento social, esse equilíbrio parece ter sido ameaçado, fazendo com que, para muita gente, reste apenas o frio como opção. 

Karnal explica que é impossível falar de solidão sem mencionar a ideia idealizada que temos de felicidade.

“O novo imperativo não é case, tenha filhos e siga uma carreira estável. O imperativo absoluto é ‘seja feliz’ e, se não for, ao menos pareça nas fotos de redes sociais. A solidão aparentemente pesa mais em um mundo onde a felicidade é cláusula pétrea. (...) Nunca sorrimos tanto nas redes e nunca consumimos tantos remédios para dormir, para ser viril ou para acordar”, escreve ele, lembrando que, com a ajuda de filmes e comerciais que reproduzem essa felicidade idealizada, a solidão perdeu seu papel de momento de reflexão e autodescoberta. 

Para o antropólogo Michel Alcoforado, mesmo trancados, ainda reproduzimos a ideia de que é preciso estar sempre positivo. “As pessoas estão vivendo um processo de extrema insegurança, de medo. Vivemos agora com algo que a sociedade sempre afastou, que é a ideia da morte, com notícias a todo momento de caixões empilhados. Entender que não está bem é o normal”, acredita. “A gente categoriza sentimentos entre bons e maus. E sentimento não têm classificação, ele apenas é.”

Juntos, mas separados. A falta de controle é o que incomoda

Millennials se sentem mais sozinhos? Por quê? (Foto: Getty Images)
Millennials se sentem mais sozinhos? Por quê? (Foto: Getty Images)

O antropólogo se dedica a pesquisar o comportamento de millennials (nascidos entre o início dos anos 1980 e metade dos anos 1990) e da geração Z (nascidos a partir de metade dos anos 1990). Para ele, o fator geracional ajuda a explicar por que pessoas com mais de 25 anos têm predisposição a se sentirem solitárias durante a quarentena.

“Um dos fatores fundamentais para o millennial é o contexto de vida. Ele gosta de viajar para postar foto em um lugar que ninguém mais está, gosta de tirar foto do prato para mostrar que foi a um restaurante diferente dos outros. Então, eu diria que essa solidão, muitas vezes, não é uma falta dos outros, mas de coisas, de um contexto”, explica. “Imagina como se sente alguém hoje que não está fazendo ‘call’ e postando foto do Zoom.” 

Não à toa um levantamento feito pela Rede Nossa São Paulo, em parceria com o Ibope, mostra que 42% dos paulistanos sentem falta de frequentar bares, restaurantes e shoppings, enquanto apenas 36% sentem falta de contato físico. 

O professor Leandro Karnal adiciona outro elemento que ajuda a identificar o sentimento de solidão.

Talvez não seja a solidão que nos cause horror, mas a falta de controle sobre estar só ou acompanhado. O celular respondeu de forma extraordinária a essa demanda, criando a companhia real-ficcional do mundo. Todo o sucesso do aparelho está no jogo de permitir palco e camarim ao mesmo tempo, escreve.

Para ele, a chave de tudo não é solidão ou companhia, mas falta de controle. 

Segundo Christian Dunker, no entanto, esse controle digital têm seus prejuízos. “A relação digital pode nos informar que tem algo faltando no nosso contato com o outro, já que contato envolve coisas como cheiro, presença não deletável, rituais de encontros e despedidas. Existe uma dimensão em volume real e outra dimensão em volume reduzido nas telas”, diz. “Tudo isso que a gente perde acaba contribuindo para o sentimento de solidão.”

Além disso, um resultado direto daquela felicidade idealizada, citada por Karnal, é a dificuldade que as pessoas têm de assumir a própria solidão, já que ninguém quer parecer triste. Para Dunker, se expor dessa forma pode ser difícil para alguém que quer transmitir uma imagem de autossuficiência.

“Muitas vezes, vamos ligar para aquele amigo e ele vai dizer que está tudo bem, mas um tom de voz, um afeto dissonante, uma pausa, um silêncio podem dizer mais que uma resposta direta”, explica. “A questão é que muita gente só consegue se abrir se a outra pessoa se abrir primeiro. Então, se está difícil pegar o abridor de latas para entrar na alma ou no coração do seu amigo, abra-se e fale das suas dificuldades.”

Dunker reforça o conceito de idealização da felicidade ao lembrar de pessoas que sentem vergonha de ir sozinhas a lugares como o cinema, por exemplo, por medo de parecerem fracassadas. Segundo ele, quando o sentimento de abandono perdura ao longo do tempo ele cria uma espécie de “autoconfirmação performativa”. Ou seja, quanto mais a pessoa se sente abandonada, mais ela tenta se agarrar ao outro, e quanto mais ela faz isso de forma não espontânea, mais o outro percebe o desespero da carência.

“Enquanto não formos amigos da nossa vulnerabilidade vai ser difícil ser amigo de outra pessoa”, diz o psicanalista. 

Segundo ele, para transformar a solidão em uma experiência positiva, “é preciso enfrentar a ideia de que, se ninguém está com você, você está consigo, você é um imenso continente a se descobrir, e que, enquanto você não se suportar, dificilmente vai abrir espaço para ser amado por outra pessoa”. 

Parafraseando Karnal, em 'O Dilema do Porco-Espinho', é pouco provável que alguém estivesse lendo uma reportagem sobre solidão se estivesse rodeado de amigos ou namorando no sofá. Mas como afirma o historiador, “de todos os antídotos contra a solidão, a leitura é um dos mais criativos”.

Logo, a questão que fica para quem enfrentou todos os parágrafos deste texto é: você apreciou a sua própria companhia neste curto tempo? Só refletindo sobre isso é que poderemos deixar de usar 'Baby One More Time' como meme para nos dedicarmos a 'Stronger', música na qual Britney Spears se supera e afirma: “Minha solidão não está mais me matando”. 


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