A maconha que o doping aceita no surfe

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Em uma época amadora do surfe, um atleta fumar cigarro era normal (Reprodução)
Em uma época amadora do surfe, um atleta fumar cigarro era normal (Reprodução)

Por Emanoel Araújo

Em 2004, a França recebia mais uma etapa do Mundial de Surfe. As regras rígidas da política de drogas no país, exigia um exame antidoping nas competições e, durante o evento, um brasileiro foi atestado com positivo para esteroides. Com dores nas costas decorrentes de uma hérnia de disco, o catarinense Neco Padaratz fez uso de suplementos alimentares e analgésicos.

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No ano seguinte, Neco se tornou o primeiro surfista penalizado por doping – com um ano de punição. O curioso deste caso é que outros dois testes também foram barrados na França. Ambos pelo percentual elevado de THC no corpo. No entanto, não houve afastamento dos outros dois surfistas e suas identidades, até hoje, são mantidas em sigilo.

No mesmo ano em que ganhou o bi da Divisão de Acesso, Neco foi flagrado no doping (Nick Laham)
No mesmo ano em que ganhou o bi da Divisão de Acesso, Neco foi flagrado no doping (Nick Laham)

De lá pra cá, o surfe se profissionalizou e, em 2020,fará sua estreia nos Jogos Olímpicos. Antes de debutar na maior competição esportiva do mundo, o esporte quer evitar o estereótipo que Gabriel Medina citou na primeira parte dessa série especial. Querendo evitar acusações sobre negligências na dopagem, a World Surf League foi ao ataque, como explica o diretor Renato Hickel:

“Os atletas podem testar positivo para as drogas recreativas [maconha e cocaína] por até três vezes, podendo ser suspensos também. Mas desde o primeiro caso, ele já passa por tratamento”

Até hoje, a WSL não registrou nenhum caso de reincidência. No entanto, a regra de “na terceira você está fora” não vale aos esportes olímpicos. Nos Jogos, a punição é imediata e garantida na primeira evidência. Reincidentes podem receber a pena máxima: suspensão vitalícia do esporte.

Doping no Surfe: ser ou não ser?

Atualmente, a WSL analisa de 10 a 14 surfistas em cada uma das 11 etapas do Circuito Mundial. O controle relativo das drogas recreativas causa discussão até mesmo entre os surfistas.

Afinal, maconha é ou não é doping?

Kelly Slater é uma lenda que atravessou as fases mais extremas do surfe. O garoto da Flórida surgiu no início dos anos 90, momento do esporte como estilo de vida. Deslizar sobre as ondas era algo para ser curtido, sem pressão por resultados.

Neste período faltavam exames de dopagem e sobravam drogas e festas. Público jovem, vivendo a contracultura e viajando pelos mais diversos países. O início dos anos 2000 cobrou seu preço de uma forma trágica. Slater lamentou a perda de seu maior rival, o tricampeão do mundo, Andy Irons. O havaiano morreu em decorrência de uma parada cardíaca, mas sua autópsia indicou o uso de cocaína e opioides.

Andy Irons conquistou o Mundial três vezes, mas perdeu para si mesmo nas drogas (Chris Polk)
Andy Irons conquistou o Mundial três vezes, mas perdeu para si mesmo nas drogas (Chris Polk)

Aos 47 anos, o 11 vezes campeão do mundo não acredita no poder de performance das chamadas drogas recreativas. Para ele, se as substâncias não valem como prova, não é necessário sequer considerá-las doping.

“Não acho necessário invadir a vida pessoal de uma pessoa pelas suas escolhas individuais. Ninguém ali é seu pai ou sua mãe, não é a sua família para ficar te dizendo o que fazer e não fazer. As pessoas vão fazer o que elas quiserem e não há como impedir isso.”

O outro lado

Atleta de snowboard, Ross Rebagliati perdeu medalha olímpica por atestar positivo para maconha e, após mudanças da WADA, recebeu de volta (Nathan Bilow)
Atleta de snowboard, Ross Rebagliati perdeu medalha olímpica por atestar positivo para maconha e, após mudanças da WADA, recebeu de volta (Nathan Bilow)

A inclusão da maconha na lista de ‘substâncias proibidas’ da Agência Mundial Antidoping não significa que exista uma proibição absoluta das drogas relacionadas. Para todas elas, há uma tolerância. Recentemente, em 2013, a WADA indicou que aumentaria o sarrafo dos atletas flagrados com maconha no organismo. A instituição elevou em dez vezes o limite de THC e derivados no corpo (de 15 para 150 nanogramas/mililitro).

Com as descobertas recentes sobre as vantagens medicinais, o canabidiol é a exceção dentre os derivados da cannabis. De analgésico a remédio para insônia, seu uso relativiza sobre a importância da substância, contradizendo até mesmo o que a própria WADA defende.

“THC e cannabis aumentam as respostas impulsivas, levando a mais comportamentos de risco, mas sem afetar a tomada de decisões. De uma perspectiva esportiva, sugere que fumar cannabis reduz a ansiedade, permitindo aos atletas um melhor desempenho sob pressão e um alívio no estresse experimentado antes e durante a competição. Além disso, os canabinoides desempenham um papel importante na extinção das memórias de medo ao interferir com comportamentos aversivos aprendidos. Atletas que passaram por eventos traumáticos em sua carreira esportiva poderiam se beneficiar de tal efeito”

- WADA, conferindo a maconha e seus derivados o pode de substância ilegal.

Após luta, o lutador do UFC Nate Diaz fumou canabidiol, substância legal nas agências de doping (REPRODUÇÃO)
Após luta, o lutador do UFC Nate Diaz fumou canabidiol, substância legal nas agências de doping (REPRODUÇÃO)

O debate parece não ter fim, mas a própria WADA percebe o prazo se esgotando. No último mês de outubro, por exemplo, o Canadá regularizou o uso recreativo de maconha. Dessa forma, a WADA vive um dilema: como realizar exames fora da competição e flagrar o atleta usando substância na lista das ilícitas quando a mesma é totalmente legal no país dele?

A maconha é um assunto polêmico no surfe, nos esportes olímpicos ou em qualquer debate público. A planta que acalora essas discussões ganhou tanta relevância que virou negócio. No último episódio dessa série, mostraremos que Kelly Slater também quer falar sobre a droga levando você para o cinema.

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