A incógnita em torno de Unai Emery no Paris Saint-Germain

Felipe Portes
AP Photo/Manu Fernandez

Sim, a derrota do Paris Saint-Germain para o Barcelona na Liga dos Campeões foi humilhante, jamais poderia ter acontecido em um time grande e uma vantagem de quatro gols é sim garantia de classificação em 99,9% dos casos. Mas isso não quer dizer que Unai Emery tenha virado um treinador fracassado ou incompetente do dia para a noite.

Ele cometeu alguns erros de execução enquanto era goleado pelo Barcelona, ainda que isso diga mais sobre a apatia do time em geral do que exatamente uma falha do treinador. Afinal de contas, quem é que entra com o mesmo espírito depois de fazer 4-0 no jogo de ida? O PSG, em termos normais, teria condição de sustentar a vantagem, mas lidou com um adversário extremamente pressionado para fazer uma virada. Pressionado e motivado para tal.

Muito se fala que o PSG foi covarde e deu espaço para que o Barça buscasse o 6-1, o que é verdade. Quanto disso pode ser atribuído a Emery? Faltou colocar na cabeça dos jogadores que era possível sofrer outro placar igual o da ida, faltou fechar a sua defesa para evitar mais gols, tudo isso, deixemos claro, que pode ser atribuído ao técnico. Se Unai Emery foi aplaudido por ter levado o PSG ao 4-0 em Paris, seria injusto trata-lo como um homem comum em virtude da goleada. Verdade seja dita, os jogadores possuem igual responsabilidade pela vitória e pelo vexame no Camp Nou. E claro, há que se levar em conta que o Barcelona estava em um dia bem inspirado.

É cedo para dizer que o trabalho de Emery está encerrado após a eliminação na Champions. Ele ainda pode conquistar um atípico Campeonato Francês liderado pelo Monaco. A distância é de apenas três pontos para os monegascos. Aliás, é a única chance de salvar uma temporada que tinha tudo para acabar com uma campanha boa na Europa e o pentacampeonato francês. O PSG oscilou demais no início da temporada e acabou se recuperando na segunda metade. Os reforços (exceto Draxler) não funcionaram e a saída de Ibrahimovic foi muito mais crucial do que parecia.

Era a vaga mais fácil de se conquistar para as quartas de final da Champions, mas deu no que deu. Um capítulo improvável e fora da curva no projeto do PSG para dominar a Europa. Algo que não deve servir para acabar com a Era Emery no clube. A frustração pelo momento não pode impedir que ele permaneça no cargo no futuro. Entretanto, algo pode mudar esse cenário drasticamente: as declarações do próprio técnico vão contra o elenco em um momento delicado. Unai não soube muito bem explicar o que aconteceu, mas culpou os jogadores pela perda da vaga em contexto tão específico. Por mais que os atletas reconheçam sua parcela de responsabilidade pelo fiasco, não é aconselhável que um treinador saia apontando dedos em um momento tão sensível.

Um detalhe que parece perdido é a escalação de Thiago Silva após a ausência no primeiro duelo. Houve informações de que o brasileiro pediu para não atuar contra o Barça na ida por motivos emocionais. O que fez dele então o titular e capitão no lugar de Kimpembe, que foi muito bem no primeiro jogo? Thiago não foi nada bem no Camp Nou e sua influência sobre o time desapareceu. Ou ajudou de alguma forma a explicar a apatia dentro de campo.

Emery falou muito em “desperdiçar uma chance para evoluir” e talvez a análise dele esteja correta. Ele que diga isso para Kimpembe, que foi sacado do time na hora H e deu lugar a um perdido Thiago Silva. O próprio Unai sabe a resposta para o acachapante 6-1, pois de tudo que os seus jovens haviam crescido neste ano, pouco sobra depois do massacre imposto pelo Barcelona. Recuperar a confiança depois disso é um longo trabalho a ser feito. A diretoria do PSG admitiu profunda irritação com o jogo de quarta-feira, o que certamente terá efeito de pressão em cima do elenco e do técnico.

Os próximos meses é que darão o tom do PSG que esperamos ver no futuro. Já está provado que os medalhões não são a única forma de chegar ao sucesso. Fracasso mesmo é voltar a vencer com a força da juventude e em uma hora decisiva apostar sempre nos mesmos caras, rasgando qualquer noção de meritocracia que possa existir nos vestiários. Nisso podemos culpar Emery sem sombra de dúvidas.