A impressão de impunidade na gestão dos clubes brasileiros

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BELO HORIZONTE, BRAZIL - JULY 26: A general view at Mineirao Stadium during the match between Cruzeiro and URT as part of the state championship on July 26, 2020 in Belo Horizonte, Brazil. The match is played behind closed doors and further precautionary measures against the coronavirus (COVID - 19) Pandemic. (Photo by Pedro Vilela/Getty Images)
(Foto: Pedro Vilela/Getty Images)

Há uma contradição comum no futebol brasileiro: muitas vezes o mesmo clube que tem sucesso em campo está tendo dificuldades para pagar as suas contas. Todos os 20 clubes que participaram da elite do futebol brasileiro em 2020, por exemplo, possuem dívidas. O que só piorou com a Covid-19 que impediu a realização de jogos com público e, ainda este ano, impacta os times brasileiros.

Mas a Covid não é o maior fator visto que este problema existia antes mesmo do seu nascimento. O que existe são falhas estruturais, de fiscalização e de gestão. “Isso é reflexo de um histórico de gestões irresponsáveis do futebol brasileiro que se perpetuavam através de uma construção política muito forte. Os grupos trocavam nomes e se mantinham no poder gerencial dos clubes. Como as regras internas dos clubes eram frágeis (em muitos clubes, ainda são), a instituição não conseguia se proteger e sequer punir esses gestores”, afirma Andrei Kampff, jornalista e advogado especializado em direito desportivo.

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O cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas, Cláudio Gonçalves Couto, que em um de seus artigos científicos estudou o caso do Corinthians, compartilha da percepção: “A permanência à frente do clube possibilita promover mudanças nas normas que facilitam a continuidade no poder e restringem o espaço dos opositores. Tais condições possibilitaram a permanência, por 14 anos, de um grupo dominante no Sport Club Corinthians Paulista”, ressalta em seu texto “Oligarquização em um grande clube de futebol: O Caso Sport Club Corinthians Paulista”. Ele explana, no entanto, que o caso do time alvinegro não é uma exceção. “Notou-se que tal longa permanência não se constituía em uma exceção histórica, mas na regra”.

Tal prática, por tanto tempo, não existe sem resistência, explica Andrei Kampff: “recentemente, até por pressão da opinião pública e divulgação da imprensa, o Ministério Público tem agido, usando os caminhos legais, como Código Penal e Lei Pelé, para denunciar gestões com indícios de crimes, como nos casos de ex-dirigentes do Internacional e do Cruzeiro”.

O Brasil não é o único país a encontrar este problema no seu futebol. Entretanto, devido a sua relevância e longa história, é de se esperar que haja uma evolução. Para isso Andrei Kampff enxerga a seguinte alternativa: “ O melhor caminho é sempre o da profissionalização. Tratar o esporte de competição como um produto, de maneira séria, investindo em transparência e pilares de integridade. E, claro, com a fiscalização permanente do Estado”.

Atualmente a maior parte dos clubes brasileiros atuam como “associações sem fins lucrativos”. Na Série A, por exemplo, apenas o Bragantino e o Cuiabá são clubes empresas e o América-RN está em processo de mudança. Tudo isso pode mudar, no entanto, devido à Lei da SAF (Lei do Clube-empresa), que foi sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro no dia 9 de setembro. As mudanças podem oferecer um caminho para reestruturação dos clubes brasileiros, no entanto, não é uma garantia de mudança, como alerta Andrei Kampff:

“Clube-empresa não é pó de pir-lim-pim-pim. Ele não faz mágica. Transforma natureza jurídica, vira empresa e pronto, os problemas acabaram. Nada disso. Independentemente de natureza jurídica, o que os clubes precisam é de uma gestão séria, responsável, que trabalhe de maneira profissional, investindo em governança e compliance”.

Em essência, a nova oportunidade não é uma garantia de que os clubes atuarão de forma diferente. Apenas o futuro pode responder se teremos uma mudança na cultura do futebol brasileiro e de seus participantes.

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