A história do bilhão: por que não existiam tantos bilionários e hoje existem?

Felipe Blumen
·5 minuto de leitura
A história do bilhão: por que o mundo não tinha tantos bilionários antigamente?
A construção das fortunas - e a maneira como a sociedade participa delas - ajuda a entender por quê temos mais bilionários hoje do que antes. Ou pelo menos por que sabemos mais sobre eles agora.

Não é preciso acompanhar de perto as notícias sobre economia para conhecer os nomes de Elon Musk, Jeff Bezos, Bill Gates ou Jack Ma. Afinal, esses homens (são quase todos homens) não apenas exercem poder sobre movimentações financeiras, mas influenciam na forma como nós consumimos cultura, tecnologia e até saúde. Todos eles pertencem ao grupo chamado de bilionários, uma espécie de casta praticamente inatingível que reúne personalidades tão curiosas que não raramente vivem no limite entre a genialidade e os distúrbios psicológicos. Consequentemente, atraem as atenções dos meros mortais, curiosos sobre a vida de pessoas que, em um dia, podem ganhar ou perder o PIB de uma pequena cidade.

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Ser um bilionário é, atualmente, ser uma celebridade. CEOs do mundo inteiro que desconhecem as vidas de seus próprios funcionários sabem a que horas Jeff Bezos se levanta e por quanto tempo Jack Dorsey medita. Isso nos faz pensar que os bilionários são um fenômeno da era da informação e das redes sociais, algo recente. Mas isso não é verdade. A história do bilhão é muito mais antiga do que Bill Gates - assim como o culto aos bilionários.

O bilhão ao longo da história

O bilhão existe no mundo há pelo menos 2500 anos. Seus donos foram variando e se multiplicando no ritmo em que a capacidade de acumulação do capital permitiu ao longo dos séculos. Exemplos de bilionários na história vão do governante romano Marco Licínio Crasso (inimigo de Espártaco, com fortuna calculada entre 200 milhões e 20 bilhões de dólares) no século 1 antes de Cristo ao imperador Mansa Musa, do Mali (cujo patrimônio foi imensurável, mas chuta-se que tenha sido de 400 bilhões de dólares), no século 13.

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“Quando falamos da Antiguidade, só olhamos a filosofia, a poesia, a matemática, a política, etc. Pouco olhamos para a escravidão da época e para as fortunas comerciais construídas por ela”, explica José Francisco de Lima Gonçalves, professor da FEA USP e economista-chefe do Banco Fator. “Mas não há dúvida de que existiam esses indivíduos”, completa

Mansa Musa, imperador do Mali, a caminho de Meca
Mansa Musa a caminho de Meca. O imperador do Mali, normalmente apontado como uma das pessoas mais ricas da história, peregrinou a Meca em 1324. Conta-se que ele fez a viagem com uma corte de 60 mil pessoas.

Das fortunas pessoais à globalização

O professor explica que, durante o Renascimento, por exemplo, a figura do bilionário existia, mas no âmbito do que era a sociedade daquela época. “Não eram os mais ricos do mundo, mas os mais ricos entre cidades como Veneza e Siena”, diz. “Era quem se sobressaía na disputa entre diferentes linhagens políticas e econômicas e quem fazia as melhores alianças comerciais e financeiras”, afirma. A família Medici (com 130 bilhões de dólares de fortuna, em estimativas) e o banqueiro alemão Jacob Fugger (220 bilhões de dólares, idem) são bons exemplos de fortunas construídas na base de muita influência.

Ao longo dos séculos seguintes, o setor bancário, financeiro e, depois, o do petróleo, consolidaram essas fortunas pessoais e familiares. “O rico brasileiro nessa época não fugia disso”, diz Lima. “Tinha um ou outro industrial, como o Francesco Matarazzo [com fortuna avaliada em cerca de 20 bilhões de dólares], mas geralmente estavam nesses setores. A Argentina era assim, o México era assim, Índia, Paquistão, China também. Eram fortunas pessoais, de indivíduos conhecidos na Europa. Eles iam para lá pegar uma praia, o pessoal de lá reconhecia eles. Mas não era global, então a dimensão era outra. Esse bilionário exercia sua fortuna em um lugar que não tinha a ver com ele”, diz.

Em que momento isso muda? Segundo o professor, é quando se cria um parâmetro mundial. “Não tinha uma medida de riqueza. A medida era a exibição pública ou o reconhecimento da fortuna”, diz. “Essa coisa de pessoa mais rica do mundo só tem sentido com a globalização, quando o mundo passa a ser uma referência. Aí, sim, trata-se de fortunas de alcance global e comparáveis entre si”, argumenta.

De ladrões a ídolos

A história do bilhão: de ladrões a ídolos
Michael Douglas no papel de Gordon Gekko no filme "Wall Street, o dinheiro nunca dorme". O personagem representa a geração que olhou para os magnatas do século XX como exemplos de enriquecimento. Ressurge assim o culto aos bilionários. (Foto Sunset Boulevard/Corbis via Getty Images)

Na virada do século XIX para o XX, o número de bilionários começa a aumentar. Ao mesmo tempo, seu status de casta intocável também entra em análise pela própria sociedade.

Em 1934, o livro “The Robber Barons”, de Matthew Josephson, jogou luz sobre a formação das grandes fortunas americanas. “A expressão do título é originalmente europeia”, explica Lima. “O príncipe João do Robin Hood era um barão ladrão, ficou rico e famoso cobrando o que não devia além da renda dos servos. Era ‘ladrão’ no sentido de apropriar-se do trabalho alheio. Para um pessoal nos anos 1920 que percebia as dificuldades de ser americano, uma classe média ilustrada ligada à imprensa, é daí que vem o estilo dos Rockefeller, Morgan, Vanderbilt, os grandes magnatas dos Estados Unidos. Também eram ‘ladrões’ que conseguiam poder de comando sobre coisas que não eram deles por meio de manobras de várias naturezas”, explica.

Com a revolução cultural dos anos 1980 ressurge um tipo de respeito e admiração por esses personagens outrora acusados. O contexto é o de uma mudança de geração no comando das maiores empresas do mundo, de profissionalização, de internacionalização e do fim da Guerra Fria. Os bilionários passaram a estar em todos os lugares. Não só por sua presença agressiva no mercado e em nossas vidas (via redes sociais, sobretudo), mas também porque começamos a olhar para todos os lugares em busca deles.

“Aquela coisa bem Gordon Gekko em ‘Wall Street, o dinheiro nunca dorme’ representou a criação de um culto a quem construiu grandes fortunas”, analisa o professor da FEA-USP. “Mas a partir de então saem os barões ladrões e entram os bonzinhos. O Bill Gates é bonzinho, o Steve Jobs mais ainda. Um cara antipático que, quando ficou doente, teve que virar simpático. São pessoas cuja grana decorre de coisas que a gente vive. A fortuna deles tem a ver com o nosso cotidiano, por isso nos sentimos próximos deles”, conclui.