A demissão de Blind é mais um passo que a Holanda dá rumo ao abismo

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Certa feita, o meia João Pinto, do Porto, deu uma declaração que ficou marcada na história do futebol. Em situação adversa, os Dragões perdiam uma partida no Campeonato Português, mas reagiram com muita vontade. Foi então que João atendeu os repórteres após o apito final e emendou: “O meu clube estava à beira do abismo, mas tomou a decisão correta e deu um passo à frente“.

O engano do português pode ajudar a explicar o que é que a Holanda está vivendo desde 2014, quando passou por intenso processo de reformulação e acabou ficando fora da Eurocopa de 2016. Agora o risco é de não se classificar para a Copa do Mundo, o que aumentou com a demissão do técnico Danny Blind.

A Holanda nada lembra o grande time finalista em 2010 e semifinalista em 2014. Com muitos jovens e apenas Robben como um craque remanescente, a Laranja Mecânica está em quarto lugar na sua chave (apenas o líder se classifica, enquanto o pior segundo colocado dos nove grupos é eliminado) e perdeu na última rodada, para a Bulgária, por 2-0. A dificuldade é tamanha que até mesmo uma vaguinha na repescagem entre estes oito segundos colocados parece uma realidade distante desta geração.

O pior de tudo é que além de despencar para o quarto lugar, a Holanda viu a Suécia tomar o seu posto na chave. A França lidera com folgas, somando 13 pontos, enquanto os suecos fizeram 10. A Bulgária chegou aos nove e deixou os holandeses com sete. Por sorte, o próximo compromisso, em junho, será contra Luxemburgo. O que dá alguns meses de tranquilidade para pensar em formas de escapar de mais este vexame.

A campanha é ruim: cinco jogos, duas vitórias, um empate e duas derrotas (França e Bulgária), o time não engrena e parece perdido. A formação titular escolhida por Blind ante os búlgaros chega até a ser desconhecida do grande público: Zoet, Karsdorp, De Ligt, Martins Indi, Blind, Wijnaldum, Claassen, Strootman, Robben, Promes e Dost. Sneijder e Depay, duas grandes referências técnicas, ficaram no banco (Sneijder entrou na segunda etapa). De todos estes, apenas Blind (Manchester United), Strootman (Manchester United), Wijnaldum (Liverpool) e Robben (Bayern) atuam por grandes equipes no cenário internacional. De resto, jovens inexperientes do Ajax e do Feyenoord completam a lista.

Se Sneijder não consegue mais ocupar um posto de titular, com todo o histórico que tem vestindo esta camisa, algo está errado. Sobra para Robben o protagonismo e a responsabilidade de conduzir a honrosa seleção a um papel melhor no cenário internacional. Sem jogadores à altura desta tradição, fica difícil fazer algo de qualidade. A estreia prematura de Matthis De Ligt, de apenas 17 anos, foi trágica. Ele esteve muito mal, sentiu o peso da partida e cometeu erros que facilitaram a vitória búlgara em Sofia. De Ligt é o mais jovem a atuar pela Holanda desde 1931, um recorde que pelo menos por agora, não traz boas lembranças.

Desde que Louis Van Gaal abandonou o cargo de técnico para assumir o Manchester United, a Holanda tem sido cercada por instabilidade e incerteza. Quando Robben se aposentar, quem irá ser o craque do time? Sem Sneijder, quem será o responsável por criar alternativas para o ataque. Será que Dost e Promes são os nomes mais apropriados para a dupla de frente?

Fato é que eles estão perdidos. Faltam cinco rodadas para o fim das eliminatórias e a missão mais clara é a de superar a Suécia para ficar com a segunda vaga. Além disso, é preciso torcer para que os outros segundos colocados tenham campanha inferior. No momento, a última que está indo para a repescagem é a Eslováquia, que soma nove pontos no grupo F, atrás da Inglaterra. Há um enorme risco da Holanda ficar fora se não reagir rapidamente.

Pela frente, a Laranja tem Luxemburgo (casa), França (fora), Bulgária (casa), Belarus (fora) e Suécia (casa), até outubro deste ano. Se não houver uma revolução nos ânimos e na intensidade, será a segunda Copa deste século sem a presença dos holandeses. Em 2002 eles ficaram de fora do torneio no Japão e na Coreia do Sul.

O nome da vez, pelo menos por enquanto, é Fred Grim, técnico da equipe sub-21 da Holanda. Ele que comanda a equipe no amistoso desta terça-feira contra a Itália. Outros candidatos para a vaga em longo prazo ainda não foram divulgados pela Federação Holandesa e sequer especulados na imprensa internacional. O que pode acontecer é que algum medalhão assuma o barco para as rodadas finais em uma espécie de trabalho de emergência. Quem será o bombeiro a salvar a Holanda de mais este fiasco?

A única coisa que a Federação declarou é que vai procurar o substituto e terá um nome até junho. Tarde demais para consertar os grandes problemas desta geração. O candidato mais qualificado e em condições de assumir essa bucha, pasmem, é Louis Van Gaal, que está desempregado desde que saiu do Manchester United. Mas até para ele parece difícil chegar com tão pouco tempo neste cenário tão arrasado. A moral dos jogadores pode ter um papel crucial na redenção da Holanda.