A argentina que foi alvo de ameaças de morte na luta pelo futebol feminino

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Maca Sánchez virou referência na luta das futebolistas (Divulgação/San Lorenzo)
Maca Sánchez virou referência na luta das futebolistas (Divulgação/San Lorenzo)

Futebol é o esporte e a paixão nacional na Argentina, mas as jogadoras mulheres só foram profissionalizadas em março deste ano, quando a Associação de Futebol Argentino (AFA) divulgou novas regras que obrigam os clubes a assinarem ao menos oito contratos com atletas. O anúncio da AFA foi histórico para as futebolistas, mas assim como as demais conquistas delas no esporte e em diversas áreas, não foi dado, e sim conquistado. Quem esteve à frente da campanha de profissionalização foram as próprias jogadoras, lideradas por Macarena Sánchez.

Nascida em Santa Fé, Macarena se mudou para Buenos Aires em 2012 para defender o UAI Urquiza e ganhou notoriedade por sua luta fora das quatro linhas. Ela não era titular absoluta do time, mas com frequência era acionada nas partidas e ajudou o clube a conquistar medalhas tanto no Campeonato Argentino quanto na Copa Libertadores.

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Porém, em fevereiro — no meio da temporada argentina e quando a janela de transferências já estava fechada — ela foi subitamente dispensada após sete anos defendendo o clube. Como dividia o tempo entre a faculdade de Serviço Social, o futebol, e um trabalho de meio período em uma empresa ligada ao clube, ficou desempregada. E como não era considerada profissional, não teve nenhum direito trabalhista respeitado: saiu de mãos abanando.

“O técnico me disse que era uma decisão esportiva e futebolística, mas achei estranho, porque eu jogava seguidamente, às vezes titular, às vezes não, mas sempre entrava nas partidas”, afirmou a jogadora ao Deixa Ela Jogar em maio. “Achei um motivo raso, que me fez pensar. Sou uma pessoa que, por mais que esteja no clube, tenho que denunciar as coisas que não estão bem. Sempre fiz isso, com palavras críticas sobre a AFA e o clube, e creio que em algum ponto isso acabou repercutindo.”

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Com respaldo jurídico da irmã advogada, a jogadora decidiu ir até as últimas consequências e processou o UAI Urquiza e a AFA por "más condições de trabalho”. Com apoio de outras mulheres ligadas ao futebol, inclusive de ex-atletas, Macarena ganhou os holofotes. No entanto, a visibilidade também teve impacto negativo, e Macarena passou a ser alvo de ataques na internet — e até mesmo de ameaças de morte.

"Foi uma situação horrível, mas também naturalizei um pouco. Claro que não dá para minimizar uma ameaça de morte, mas me parece fazem isso muito mais para silenciar as coisas que nós estamos denunciando. E se há pessoas que se sentem atacadas, é porque estamos fazendo repensar toda a cultura do que é o futebol, e isso é um bom caminho. Não é exatamente um mar de rosas, mas as lutas são assim."

Apesar das dificuldades, o fato de Macarena dar a cara a tapa não foi em vão. Ao denunciar o descaso e a desigualdade de tratamento com as mulheres no futebol, chamou atenção do presidente do San Lorenzo, Matías Lammens, que a convidou para uma reunião. “Ele queria saber um pouco mais sobre a realidade do futebol feminino e o que o San Lorenzo podia fazer para nos ajudar.”

Maca foi apresentada pelo San Lorenzo em abril (Divulgação/San Lorenzo)
Maca foi apresentada pelo San Lorenzo em abril (Divulgação/San Lorenzo)

A jogadora explicou as dificuldades e as mudanças mais urgentes que deveriam ser feitas no futebol feminino. “Tivemos algumas reuniões. Ele me ouviu, seus assistentes tomaram notas, e ele afirmou que queria profissionalizar todo o plantel do San Lorenzo. Além disso, queria que todas as equipes fossem profissionalizadas também".

Junto com Matías, representantes das 16 equipes da primeira divisão na Argentina se uniram para formular um projeto, e coube ao dirigente o papel de intermediário entre as atletas e a AFA. “Foi essencial porque não temos muitas formas de chegar à entidade. Enviamos a proposta e, bom, não foi aprovada totalmente. Obviamente nós jamais colocaríamos apenas oito contratos por equipe. Sabíamos que não íamos conseguir a totalidade, que era de 30 contratos, mas vejo que foi um passo importante e bom para todas”, avaliou Macarena.

“Também queríamos que o futebol feminino fosse obrigatório nas escolinhas dos clubes, mas não deu certo. Na verdade, não conseguimos muita coisa, mas espero que seja um movimento progressivo e que dentro de três anos tenhamos a totalidade de contratos profissionais e outros avanços.”

O San Lorenzo deu um grande exemplo. Em abril, o clube foi o primeiro a anunciar a profissionalização das jogadoras, mas em vez de se ater aos oito contratos previstos pela AFA, assinou acordos com todo o elenco — inclusive com Macarena Sánchez. Outros clubes importantes foram na esteira do San Lorenzo, como o River Plate, que assinou com 15 atletas, seguido pelo UAI Urquiza e pelo Boca Juniors, que na última sexta apresentou o time feminino com 21 contratos assinados. Por enquanto, são as equipes confirmadas no Campeonato Argentino, previsto para começar em setembro.

“Foi histórico. Muito bom que o primeiro clube (San Lorenzo) deu o exemplo de que é possível investir no futebol feminino se os clubes apostarem na gente. Eles têm dinheiro para isso, e podemos procurar patrocinadores. Estou muito contente de poder jogar em uma equipe que acredita em nós, que nos trata com respeito”, afirmou Macarena, ciente de que virou uma referência da luta das mulheres no futebol argentino.

“É difícil para mim ter dimensão do que alcançamos nesses últimos meses. Não gosto de me colocar como referência, acredito que há muitíssimas mulheres e pessoas que lutam, no meu caso só estou visível nos meios de comunicação. Acabei virando a pessoa que meio que fala por todas, e isso faz de mim uma referência. Mas eu mais sofro do que desfruto desse rótulo”, explicou.

“Isso me gera muita pressão, sinto que as pessoas colocam muitas expectativas sobre mim. É bem desgastante, na verdade, mas me colocaram nesse papel. Vamos ver até onde isso vai chegar.”

Confira a entrevista completa com Macarena Sánchez:

Como foi sua trajetória no UAI Urquiza?

Em 2012, eu jogava no Santa Fé e fomos a Buenos Aires para dois amistosos. O técnico do UAI Urquiza quis que eu ficasse uma semana treinando com eles para me testar, fui aprovada e passei sete anos no clube até ser dispensada no meio da temporada, no início de 2019. A verdade é que sou a jogadora que tem mais títulos pelo clube. Sempre esteve tudo bem, nunca tive nenhum problema em particular, ganhamos quatro títulos, fomos três vezes à Copa Libertadores, ficamos com o bronze na Colômbia. Mais ganhamos do que perdemos, por isso acho que minha situação foi bastante injusta. É muito comum que no ambiente do esporte nos calemos muito, porque falar pode prejudicar nossa vida esportiva e nossa carreira, mas temos que saber separar as coisas. É muito importante que a verdade sobre o futebol feminino seja dita. Então sempre denunciei quando as coisas estava mal, fosse na imprensa ou nas redes sociais, sempre militei pela mudança, e suponho que em algum ponto acabou repercutindo para mim. Mas nunca escondi a verdade de nada do que penso.

Como foi a decisão de processar o clube e a AFA após a demissão?

Não tive que pensar muito. Na verdade, no dia seguinte à demissão eu já tinha a decisão tomada. Tenho a sorte de ter as ferramentas para levar isso a cabo porque minha irmã é advogada e pode me ajudar nas questões legais, e eu já queria fazer algo mais. Isso poderia ter afetado minha carreira, acho que me afeta até hoje, mas é importante contar o que estamos passando para ter algum benefício coletivo no futuro. Não fui a primeira jogadora a ser dispensada no meio de um torneio, mas espero ter sido a última.

Ficou receosa quanto às consequências?

Sim, naquele momento eu sabia que essa decisão ia repercutir na parte esportiva, sabia do risco que corria porque até hoje sigo no sistema, sigo nos torneios organizados pela AFA e sigo em um clube argentino. E ainda teve a questão das ameaças de morte. A verdade é que o tempo todo estou exposta a isso e será assim até o dia em que eu me aposentar. Creio que vou estar marcada pelo que passou, mas bom, é parte de tudo que implica querer denunciar.

O que achou das novas regras da AFA sobre a profissionalização?

É um dinheiro que a AFA vai destinar somente por um ano e são apenas oito jogadoras, então a verdade é que não sabemos o que vai acontecer. A ideia da AFA é que se busque patrocinadores para fazer com que a atividade seja rentável. Outro pedido nosso era usar a estrutura da AFA porque, na Argentina, as partidas femininas são canceladas quando chove no final de semana e remarcadas para dias de semana, mas como muitas de nós estudam e trabalham, fica difícil juntar a equipe completa nessas partidas adiadas. Isso também conquistamos, mas creio que mais nada do que havia na proposta que enviamos à AFA. Sobre categorias de base, por exemplo, não se fez absolutamente nada.

Suas companheiras de equipe também estão engajadas nessa luta?

Entendo que há muitas jogadoras que estão com medo porque há clubes que só dão pensão, comida ou trabalho, como aconteceu comigo, então é difícil se levantar e ser um pouco mais ativa na luta porque você corre o risco de perder todo o pouco que conquistou. É um pouco do que aconteceu comigo. Mas sim, jogadoras de todos os clubes me escreveram e se somaram ao movimento, difundiram, falaram sobre isso em entrevistas. A verdade é que acredito que neste tempo deixamos a rivalidade dos clubes de lado e se deu uma união entre as jogadoras, o que fazia falta.

O que você pensa sobre jogadoras que preferem não se posicionar?

A união é fundamental para que não seja apenas uma que fique exposta. Se só uma fala e se rebela é muito mais fácil tirá-la e seguir com o sistema, mas também não creio que seja correto apontar o dedo e culpar aquelas que não falam e não se unem. As pessoas para quem temos que apontar o dedo são aquelas que nos colocam medo de levantar a voz, como dirigentes da AFA e dos clubes. Suponho que no Brasil aconteça a mesma coisa. Os clubes já dão muito pouco para nós, que nunca tivemos nada no futebol e temos medo de perder esse pouco que tanto nos custou, e por isso nos calamos. Mas eu jamais apontaria uma jogador por não denunciar porque eu sei o que é estar desse lado. É difícil entender essa precarização do futebol feminino, entender essas questões culturais que nos meteram na cabeça por 20 anos. Dar-se conta disso muda tudo, e é frustrante saber que tudo que você pensou, tudo que colocaram na sua cabeça, não estava certo. Então entendo jogadoras por aí que não falam... mas se eu gostaria que falassem? Vai de cada uma, mas suponho que isso vai acabar acontecendo naturalmente.

Como surgiu o feminismo na sua vida?

O feminismo sempre esteve na minha vida, mas nunca coloquei um nome, nunca soube o que era. Até que em 2015 ocorreu um grande movimento aqui na Argentina com a marcha do #NíUnaMenos depois de um caso de feminicídio, e esse feminismo que sempre esteve invisível e escondido em mim começou a aflorar. Desde então, comecei a militar mais. Feminismo é transformar essa raiva das coisas que estão mal na sociedade em uma luta que ajude outras mulheres, e o futebol sempre esteve relacionado com isso, já que é um dos ambientes mais machistas da Argentina. Quando eu era criança, jogava com os meninos e estava tudo bem, mas quando virei adolescente passei a ser discriminada, excluída. Eu sentia raiva de ver que eles podiam e eu não, mas não via como uma questão de gênero. Isso me ajudou a entender o que aconteceu comigo e também a construir alguma coisa a partir disso.

As ameaças de morte têm a ver com o fato de os homens acharem que o futebol ainda é um espaço exclusivamente deles?

Eu sinto que os homens, pelo menos na Argentina, com todo esse movimento feminista, sentiram que o futebol era o único ambiente que havia restado e no qual as mulheres haviam se metido. Primeiro que se equivocaram, porque estamos metidas no futebol desde sempre, simplesmente eles não nos viam porque ninguém nos mostrava. E me parece que isso causa neles um grande incômodo porque sentem que é um ambiente só deles, sentem que são donos de um esporte que é de todos e de todas. Nós agora estamos nos mostrando, sendo visibilizadas, e não sei se eles têm medo ou se sentem oprimidos. É que fazer a sociedade repensar conceitos pode fazer a pessoa se sentir criticada como indivíduo. Isso também faz sair zona de conforto, o que incomoda e pode ser muito perturbador para quem não está acostumado com isso.

O que precisa ser feito em curto prazo e longo prazo para o desenvolvimento do futebol feminino na Argentina?

De mais urgente me parece necessário que todas as jogadoras tenham contratos, que todas possam gozar os direitos e benefícios de um trabalhador ou trabalhadora da Argentina, com plano de saúde, salário decente que permita uma alimentação saudável antes dos treinos, e contribuição previdenciária no futuro. Nos dedicamos por anos ao futebol feminino e merecemos isso. Também é importante olhar para o futebol nas divisões inferiores. Para termos um projeto sério no futuro, as meninas precisam jogar desde a infância, porque é o momento em que se adquire a maioria dos conhecimentos técnicos e se não tiverem um treinamento adequado, depois o prejuízo é maior. Isso me parece o principal, mas sim, há milhões de coisas por fazer, desde a cobertura da imprensa até o apoio de patrocinadores, das federações, dos clubes... eles precisam se mobilizar porque nós, jogadoras, não podemos seguir responsáveis por tudo o que acontece no futebol feminino. Trabalhamos, treinamos, estudamos, e além disso temos que nos encarregar de que os clubes nos deem mobilidade para ir às partidas, para que todas tenham comida, roupa... me parece que cada um e cada uma deveria ficar responsável de fazer seu papel. O nosso é jogar bola.

Onde você vê a si mesma e ao futebol argentino em cinco anos?

Terei 32 anos de idade em 2024. Não sei se estarei aposentada, suponho que sim, e depois que eu me aposentar acredito que ainda vou querer estar no futebol, seja como técnica, dirigente ou do lado mais social, ajudando jogadoras mulheres que vêm de classes sociais mais baixas e precisam de apoio. E quanto ao futebol feminino da Argentina, espero que em cinco anos esteja profissional em sua totalidade, com muitíssimo mais difusão, com estádios cheios e equipes jogando nos estádios principais. Basicamente tudo o que nós, meninas que jogam, sempre sonhamos. Obviamente não vai ser fácil alcançar tudo isso em cinco anos, em um abrir e fechar de olhos. Vai depender muito da ajuda de todo mundo na nossa sociedade, passando pelos meios de comunicação, patrocinadores, clubes, AFA e as próprias jogadoras.

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