Após 50 anos, os 'quase gols' de Pelé na Copa do México ainda são lembrados

Por Rodrigo MARTÍNEZ
AFP
(ARQUIVO) Foto da final da Copa do Mundo do México-1970, na qual Pelé domina a bola na final contra a Itália, no Estádio Azteca, em 21 de junho de 1970
(ARQUIVO) Foto da final da Copa do Mundo do México-1970, na qual Pelé domina a bola na final contra a Itália, no Estádio Azteca, em 21 de junho de 1970

Mesmo após meio século, jogadas mágicas da seleção brasileira na Copa do Mundo do México de 1970 ainda são lembradas. Entre elas se destacam os 'quase gols' de Pelé que deixaram vários gritos entalados nas gargantas.

Essas 'obras de arte inacabadas' do rei do futebol aconteceram diante dos goleiros Ivo Viktor, Gordon Banks e Ladislao Mazurkiewicz. A bola não entrou mas os lances jamais foram esquecidos. Uma bomba contra a Tchecoslováquia. Uma cabeçada que tinha endereço certo no duelo com a Inglaterra. Uma finta fenomenal contra o Uruguai. As três jogadas mereciam terminar em gol. Isso não aconteceu, mas esses momentos fenomenais ocorridos no estádio Jalisco, em Guadalajara, ainda continuam sendo discutidos 50 anos depois.

- Tentar o impossível -

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Em 1970, Pelé já era um velho conhecido no México. Não apenas pelos dois títulos mundiais (na Suécia em 1958 e no Chile em 1962) que ele ganhou com a seleção brasileira, mas também pelas visitas que fez com o Santos em 1959 e 1961. Quando visitou o México nessas ocasiões, Edson Arantes do Nascimento era muito jovem, mas encantou os fãs mexicanos com jogadas fabulosas.

Em uma dessas excursões do Santos, o jornalista mexicano Teodoro Cano teve a oportunidade de conversar com 'O Rei' sobre seus truques.

"Cobri uma sessão de treino e fui para o vestiário. Encontrei Pelé sentado, ele estava sozinho", disse Cano à AFP. "Eu me animei, sentei ao lado dele para conversar e fiz uma pergunta: 'O que passa pela sua cabeça quando você tenta uma jogada inesperada?'". Essa foi a resposta do craque brasileiro: "Eu tenho que tentar até o impossível. Se acontecer, já foi a meu favor, e se não acontecer, eu tenho que tentar de novo".

Anos depois, quando o Brasil esteve no México para a Copa do Mundo de 1970, coisas maravilhosas eram ditas sobre Pelé. Em um daqueles dias da Copa do Mundo, o jornal El Informador, de Guadalajara, publicou uma simpática nota em que ele falava de um jornalista brasileiro - sem especificar o nome - que tinha deixado alguns meninos mexicanos admirados com o que ele lhes disse sobre 'O Rei': "Pelé quer fazer gols bonitos porque não consegue fazer dois gols iguais. Também não é lhe permitido marcar com muita facilidade."

- O chute do meio de campo -

Quarta-feira, 3 de junho. Brasil contra Tchecoslováquia no primeiro jogo da fase de grupos. Pelé pega a bola no círculo central, ainda do lado brasileiro do campo e de lá dispara um míssil quando viu o goleiro Ivo Viktor adiantado. Angustiado, o goleiro acompanha o chute de cerca de 65 metros com os olhos e, com alívio, vê que ela vai pela linha de fundo, passando rente à trave. "Pelé teve uma ótima visão e acho que ele percebeu uma brecha de onde chutou", conta Cano.

Na mesma sintonia, Mario Lobo Zagallo, o técnico daquela seleção, disse: "Das 70.000 pessoas que estavam no estádio, apenas Pelé viu o goleiro adiantado". O astro brasileiro estava inquieto: "Era o gol que me faltava. Eu quase consegui".

- O milagre de Banks -

Domingo, 7 de junho. Brasil contra a Inglaterra no segundo jogo da fase de grupos. Jairzinho avança pelo lado direito da área, chega à linha de fundo e faz um cruzamento preciso para Pelé. A imagem ainda está fresca na memória de Teodoro Cano: "Parecia que Pelé marcaria o gol com uma cabeçada excelente, mas havia Gordon Banks que pulou para a direita e conseguiu rebater rente à trave e na linha do gol". Naquele dia, Banks foi imortalizado com 'a defesa do século'.

Gordon faleceu em 12 de fevereiro de 2019 e Pelé prestou uma homenagem a ele, lembrando a cabeçada e a defesa. "Banks apareceu diante dos meus olhos como uma espécie de fantasma azul. Ele surgiu do nada e fez algo que não achava possível: pôs a cabeçada para fora! Naquele momento, eu não podia acreditar no que estava vendo. Mesmo quando vejo agora, não consigo acreditar".

- O drible de corpo em Mazurkiewicz -

Quarta-feira, 17 de junho. Brasil enfrenta o Uruguai nas semifinais. Tostão dá um passe para Pelé; ele e o goleiro Ladislao Mazurkiewicz correm atrás da bola em um mano a mano que o camisa 10 vence com uma finta inacreditável. A bola segue para a direita do goleiro e Pelé corre para a esquerda e depois a encontra novamente. O resultado do lance ainda empolga e frustra Teodoro Cano: "com o ângulo reduzido, ele chutou rasteiro e a bola foi para fora raspando a trave esquerda. "Foi uma coisa incrível! Essa jogada não foi gol, mas ficou gravada. Se o gol sai, o estádio viria abaixo", conclui o jornalista mexicano.

Com o passar do tempo, Mazurkiewicz - já falecido - falou em 2013 com bom humor sobre esse lance. Ele se sentiu triunfante, apesar de ter sido enganado pela ginga do rei do futebol: "Eu saí e Pelé fez uma jogada excepcional, mas não foi gol, e é isso que eu sempre quis na minha vida, que não marcassem um gol em mim".

Muitos queriam que tivesse sido gol e anos depois, graças à tecnologia, editaram o vídeo em que Pelé consegue colocar a bola no fundo das redes.

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