5 - Fraudes da CBDA teriam incluído prêmio não pago a atletas

GUILHERME SETO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Operação Águas Claras, que apura esquema de desvio de verbas públicas que foram repassadas para a CBDA (Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos), investiga supostas empresas de fachada de amigos de dirigentes da entidade que teriam sido utilizadas para esconder as ações criminosas. As fraudes teriam acontecido nas compras de passagens aéreas, hospedagem e na compra de equipamentos de natação.

Rodrigo de Campos Costa, delegado regional de combate ao crime organizado, e Thaméa Danelon Valiengo, procuradora do Ministério Público Federal, detalharam os supostos crimes cometidos pelos dirigentes e que motivaram a operação que nesta quinta-feira (6) levou à prisão do presidente da CBDA, Coaracy Nunes, e de outras três pessoas no Rio de Janeiro. Além disso, quatro pessoas foram conduzidas coercitivamente em São Paulo e outros 16 mandados de busca e apreensão foram cumpridos.

"Havia três agências de turismo: uma de fachada e outras com forte indício de que funcionavam da mesma forma. Em processos de licitação, sempre a mesma empresa sagrava-se vencedora. As viagens ocorriam, mas com superfaturamento de passagens e de hospedagem. Trata-se de uma agência que presta serviço há mais de 10 anos para CBDA, tendo recebido valores de cerca de R$ 24 milhões ao longo do período", disse Costa.

"Os depoimentos dos atletas eram unânimes no sentido de que havia muitas irregularidades. Quando eles iam para competições internacionais, viajavam de classe econômica, com muitas escalas. Eram atletas a serviço do Brasil, com 1,90m, que chegavam no lugar sem a condição ideal (...) e os dirigentes viajavam de classe executiva", completou.

Os dirigentes são acusados de desviar R$ 40 milhões em recursos. Nunes está no comando da entidade desde o final da década de 1980 e é o dirigente esportivo brasileiro há mais tempo no cargo. Os investigados responderão pelos crimes de peculato, associação criminosa e fraude a Lei de Licitações, sem prejuízo de outros crimes eventualmente apurados.

Cerca de 20 atletas contribuíram com a investigação. Membros da seleção de pólo aquático foram especialmente participativos. Em 2015, a seleção masculina participou de um torneio em Bergamo, na Itália, cuja premiação era de US$ 50 mil. Eles ficaram em terceiro lugar, mas não receberam a premiação, que, segundo Valiengo, "ficou no cofre dos dirigentes".

A operação também investiga quatro licitações de fornecimento de material esportivo. Em uma delas, a empresa vencedora levou contrato de R$ 1,5 milhão, mas não entregou nada. Sua sede, segundo a procuradora, ficava em um pet shop.

"Parte do corpo societário das empresas fazia parte do círculo de amigos íntimos de dirigentes da CBDA (...) Um mar de corrupção afundou o esporte olímpico brasileiro. Por conta disso, apenas uma atleta [Poliana Okimoto] foi medalhista na Olimpíada", disse Valiengo.