30 anos depois, Prost relembra 1º título de Senna: “Não acho que ele foi melhor do que eu”

Colaboradores Yahoo Esportes
Alain Prost durante GP de Fórmula 1 em 2018. Foto: Getty Images
Alain Prost durante GP de Fórmula 1 em 2018. Foto: Getty Images

Por Julianne Cerasoli (@jucerasoli)

Um dos melhores carros que a Fórmula 1 já viu, com o motor Honda falando alto e, acima de tudo, dois pilotos dando o seu máximo para mostrar à categoria quem era o melhor: não é por acaso que a dupla Ayrton Senna e Alain Prost venceu nada menos que 15 das 16 corridas disputadas em 1988, em uma batalha antológica lembrada até hoje. No aniversário de 30 anos do que viria a ser o primeiro título do piloto brasileiro, conquistado no GP do Japão, o Yahoo Esportes conversou com seu eterno rival.

Prost reconhece o ótimo trabalho de Senna, mas acha que era ele quem deveria ter ganho o título. “É um pouco estranho quando você faz 12 pontos a mais que seu companheiro e não é campeão”, disse o francês, hoje consultor da Renault. O regulamento da época contava com um sistema de descartes de pontos, e por isso o brasileiro foi o campeão de uma temporada em que Prost seria batido por mais de um segundo em Mônaco na classificação e na qual os primeiros sinais da rivalidade que levaria a dois títulos decididos por acidentes começaram a aparecer.

O MP4/4 foi o melhor carro que você pilotou?
(longa pausa) Com certeza um dos dois. O melhor carro foi a Ferrari de 1990. Digo pelo chassi, pela sensação que você tem no carro, como você pode trabalhar com ele e reagir. Na verdade, a McLaren de 84 também era muito boa. Foram três carros excepcionais.

Há muitas menções à economia de combustível nos relatos da época. Dá para traçar algum paralelo com os dias de hoje?
Claro que era pior porque tínhamos um computador pequeno que não trabalhava de maneira tão precisa, e também tínhamos que fazer muita coisa sozinhos, porque não tínhamos todas as informações da equipe. Era muito diferente. Hoje as pessoas consideram isso um problema, mas não era visto dessa maneira na época. Era uma questão de tecnologia e acho que nenhuma equipe tinha vantagem nesse sentido. Claro que estávamos trabalhando para nos tornar mais eficientes e gastar menos combustível – na época mexíamos na regulagem das asas para fazer isso. É uma realidade diferente. Mas posso dizer que não era nem um pouco monótono!

Ayrton conseguiu o superar em classificação por margens consideráveis, às vezes passando de 1s. Era uma questão de estilo de pilotagem? Como você lidava com isso?
Acontecia em algumas corridas, em outras não. Em Paul Ricard, por exemplo, eu sempre fui mais rápido que ele e não sei explicar por quê. Mas na maioria das pistas ele era muito difícil de ser batido. Há alguns fatores para explicar isso: primeiramente, ele era muito rápido, sem dúvida, e também focava muito em classificação. Ele também sabia que eu estava trabalhando muito mais no acerto para a corrida. Estava tudo aberto, então ele estava confortável com essa situação.

Do meu lado, era comum eu ter problemas [em classificações] por conta do meu estilo. Eu fiz alguns testes com a Ferrari e também com a McLaren com pneus de classificação para tentar melhorar a maneira como eu trabalhava esses pneus, treinando maneiras diferentes de aquecê-los, porque, pelo meu estilo de pilotagem, eu acabava ficando sem aderência na dianteira e muitas vezes só sentia essa aderência no final da volta.

Ayrton ganhou muitas corridas porque ele largou na frente e era difícil ultrapassá-lo. Não acho que ele era tão rápido assim em ritmo de corrida. E eu sempre achei melhor focar na corrida.

Ayrton Senna e Alain Prost lado a lado antes do GP de Imola de 1988. Foto: Getty Images
Ayrton Senna e Alain Prost lado a lado antes do GP de Imola de 1988. Foto: Getty Images

Havia uma conversa na época sobre você não gostar do fato dele copiar seus acertos. Isso realmente aconteceu?
Isso nunca aconteceu. Tudo era colocado na mesa. No final, quando saí da McLaren [no final de 1989], eu decidi fazer isso por diversos motivos, porque politicamente a situação não era boa para mim, mas também porque Ayrton costumava sair de férias e eu tinha que fazer os testes. Isso sim me deixou chateado. Porque a temporada era longa e testávamos muito na época durante a temporada e também na pré-temporada. No começo do ano, ele tirava quase dois meses de férias e eu estava fazendo todos os testes, já estava cansado, enquanto ele estava revigorado. Ele pegava o carro e o acerto já estava perfeito. Isso realmente não estava bem equilibrado. Mas durante os finais de semana de corrida, mesmo quando não estávamos falando um com o outro, sentávamos lado a lado com nossos acertos abertos em cima da mesa.

Um momento que sempre é tido como o começo dos problemas entre vocês dois é o GP de Portugal, quando ele te espremeu no muro. Foi isso mesmo?
Não, foi em Imola [em 89]. Tudo bem que aquela corrida foi um dos momentos, mas em 1988 não diria que tivemos problemas. Mas é uma longa história. Vamos focar nos pontos positivos.

Você teve dois abandonos por quebras durante aquele ano, e Senna teve dois por acidentes – em Mônaco e na Itália. Além disso, você acabou o campeonato com mais pontos do que ele. Você considera que ele foi realmente melhor do que você naquele ano?
Não considero que ele tenha andado melhor do que eu. Ele fez mais pole positions, mas fiz corridas muito boas. Tive alguns problemas certas vezes que não eram visíveis e acho que fiz uma temporada muito boa. Acho que ambos mereceríamos o campeonato. Mas é um pouco estranho quando você tem 12 pontos a mais que seu companheiro e não é o campeão, mas era a regra da época. As pessoas costumam esquecer disso.

[NR] – A temporada foi decidida nos detalhes: Senna venceu oito provas, contra sete de Prost. O francês acabou tendo como descartes três segundos lugares, enquanto Senna teve algumas provas fora do pódio naquele ano, e por isso a pontuação de Prost foi melhor.

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