Eles eram mortais há um ano. Hoje são eternos

Matheus Pichonelli
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Foto: Getty Creative

O Nilton era o dono da academia a um quarteirão de casa. Abria cedo e fechava tarde. Parava apenas para almoçar. Nos finais de semana, pegava a bicicleta e se embrenhava pelas cidades da região, a região para onde me mudei em busca do que a letra comum chama de qualidade de vida. Mais que um bom professor, era um bom contador de histórias. Falava das andanças e pedaladas como se falasse sobre seu último prato de comida. Ficamos amigos. Naquela academia tocava Belchior e Raul Seixas. Perto dos 35, admirava a inquietude do meu amigo perto dos 50. Envelhecer não significava passar o resto da vida na frente da TV e do sofá. E tomei coragem também para me embrenhar pela região, subir morro em estrada de terra, observar a vista, fazer amigos pela estrada, me desconectar. Num domingo, nos encontramos no clube. Voltava aos treinos de natação. Queria competir no triatlon e precisava de companhia. Vamo aí? Quem sabe? Domingo que vem começo. Vamos ver até onde aguento. No sábado seguinte, saiu para pedalar e não voltou. Havia um caminhão no caminho. E eu nunca mais atravessei o portão de casa pedalando.

O Mauro era a presença em pessoa, e não só por causa do corpanzil. Aonde ia levava música. No velho iPod, gravava interpretações dos sambas antigos ao sertanejo-raíz, passando pela MPB, seu estilo favorito. Andava encantado por uma música do Odair José que viu num filme e que ainda não conhecia. Foi o que contou na última vez que nos falamos, quando escreveu para comentar quão ridículo estava o cabelo do sobrinho e do sobrinho-neto, meu filho, pintado de roxo para o Carnaval. Na chácara dele passamos as férias na infância. Nadávamos no córrego, jogávamos futebol no pasto, dormíamos tarde em volta da fogueira e acordávamos cedo para cafés mastrodônticos, com direito a frango assado, pizza requentada e ovos mexidos. Nas mensagens de despedida que os amigos escreveram pelas redes, não teve quem não se lembrou do tamanho de seu coração. Justo o coração, que parou de bater enquanto corria de carro entre um trabalho e outro.

A Dionésia ensinou a neta, com quem me casei, a não aceitar imposições nem hierarquias. Em casa, só começou a viver como queria depois que ficou viúva. Aboliu as sopas que preparou durante 40 anos para agradar ao marido e promoveu rupturas entre assadeiras de pizzas, massas, lanches. Aprendeu a tomar cerveja e a sair como e quando quisesse. Nas pequenas brechas de transgressões, em uma rotina mediada pela pobreza e a dependência, ela, semi-analfabeta, incentivou todas as mulheres da família a jamais deixarem de estudar. Para nunca depender de homem algum, nem do pai nem do marido. Estava num asilo quando veio a pandemia. Foi embora sem despedidas. Sem velório para evitar aglomerações.

A Dandara já tinha sido diagnosticada quando precisei viajar. Nunca tinha ficado mais de dez dias longe de casa. Tinha medo de não estar perto se algo de ruim acontecesse. Mas ela me esperou. Me procurava pela casa e ficava confusa quando ouvia minha voz por telefone. Quando voltei, numa madrugada de segunda-feira, todo mundo já dormia, menos ela. Veio a meu encontro cambaleante. Andar já era um esforço. Me lambeu o rosto, como sempre, e dormiu no meu colo, como sempre. Dias depois, já não dormia. A dor não permitia. Na última noite, sofria tanto que não havia opção se não dar um fim àquilo. Na mesa do veterinário, segurava sua pata minúscula quando tomou a injeção e fechou os olhos pela última vez. Ainda sonho que de lá alguém me liga, informando que ela acordou do sono revigorada e que já posso buscá-la. Quando acordo, sou eu que a procuro pelos cantos da casa.

Todos eles estavam por perto, de alguma forma, no feriado de Finados do ano anterior. Doze meses depois, encontro na palavra saudade um meio-termo entre presença e ausência. Estamos condenados a lembrar. E lembrar é reviver. É fazer reviver.

Como na música, a morte, surda, caminhou ao nosso lado nos últimos meses de pandemia. Vimos imagens de caixões, sistemas de atendimento em colapso, aprendemos a nos confinar e a sair aos poucos como quem busca ar. Perdemos familiares e amigos, nem todos por covid; alguns pelo agravamento que a nova situação causou na saúde física e mental.

Vimos nossos amigos se despedirem de seus familiares. E seguimos sob a sombra do medo de que o vírus traiçoeiro atinja novos ídolos, como Aldir Blanc, e mais pessoas do nosso entorno.

Nesta segunda-feira, 2 de novembro de 2020, o país passou a marca de 160 mil mortos por coronavírus. São 160 mil famílias impactadas, em luto e em luta para que ninguém seja esquecido. Que não sejam.

Neste feriado doloroso, resta desejar que a vida brote em cada canto das lembranças dos que nos formaram, nos inspiraram e seguirão a nos formar e inspirar. Somos parte desses encontros enquanto estivermos por aqui.

No ano passado eram todos mortais. Hoje, são eternos.