2019: entre a resistência e os tetos embolorados da vida adulta

Ser adulto é manter um alerta permanente sobre as paredes e o teto de casa
Ser adulto é manter um alerta permanente sobre as paredes e o teto de casa


Começou com um pontinho escuro no teto. Com o vapor dos banhos intermináveis da onça de seis anos de idade que chamo de filho, os 45 graus de abertura da janela ao canto e a porta que precisa ficar permanentemente fechada para a cachorra (que, confesso, às vezes chamo de filha também) não desovar seus líquidos orgânicos de substância metabólica no tapete, o banheiro virou um latifúndio fértil para a proliferação de todos os fungos catalogados e os ainda não catalogados pela ciência.

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Acostumados a andar encurvados, os olhos presos ao celular, demoramos a perceber o estrago. Quem hoje em dia anda olhando para cima?

Quando vimos, levamos dias para nos recompor do susto: será que vamos precisar derrubar as paredes até sumir com tudo isso? Que tipo de profissional especializado em tetos apodrecidos pode ser chamado no feriado para resolver a situação? Quantos frilas vão morrer na brincadeira?

Da linha divisória do muro que divide nossa casa com a das vizinha veio a solução, e a solução assobiava, tinha cabelos brancos e terminava um serviço de pintura na residência ao lado.

“O teto do nosso banheiro está podre. Você pode olhar e fazer um orçamento?”.

As sete palavras da última frase, mais o ponto de interrogação, eram uma condenação prévia. Da última vez que usamos, uma Smart TV inteira que pretendia comprar há mais ou menos dois anos entrou literalmente pelo ralo da outra casa para pagar um entupimento assentado durante anos pelos moradores anteriores. “Vejo sim, mas cada metro desentupido é R$ 200”, disse o agente, enquanto desenrolava a geringonça que parecia ter saído do filme Os Caça Fantasmas.

De metro em metro, ficamos por mais dois anos com a TV de tubo.

O trauma ainda produzia calafrio quando o pintor da casa ao lado olhou para cima e disse que tudo se resolveria com uma escada, uma esponja e um balde com água sanitária. Talvez uma passada de tinta ao fim do trabalho, mas só talvez.

Mal ele desejou boas festas, abrindo mão do serviço (Deus abençoe o santo protetor do orçamento honesto) e a Camila, minha “conje”, já me esperava na porta do banheiro com todos os apetrechos. “Boa sorte”.

Eu tinha muitos planos para aquela manhã. Correr era um deles. O outro, como todas as outras manhãs de folga, era começar a ler “Em Busca do Tempo Perdido”. A sunga e a toalha nas costas sugeriam, porém, minha inclinação a deixar tudo para depois e passar o dia na piscina. Tanto a toalha quanto a sunga foram facilmente adaptadas para a nova missão.

A escada não era tão grande, e tenho a impressão de que estiquei tanto um dos braços que ele ficou maior que o outro.

Conforme eu esfregava o teto com a bucha, a água escorria pelo meu ombro travado e inundava todas as desgraças que eu já fui capaz de praguejar.

Os óculos de natação tiveram muita serventia, sim. Um pingo daquela solução radioativa no globo ocular — que acaba de ter a miopia corrigida para 5,25 graus — poderia ser fatal. 

Algum tempo depois (Uma hora? Uma semana? Uma vida?), o teto estava novo, e eu me olhava no espelho igualmente inundado, ainda sem força para tirar os óculos do rosto, a barriga já protuberante de alguém mais perto dos 40 que dos 30, os poucos cabelos que me sobraram na fronte enlameados pelo resíduo tóxico e me perguntava: então foi isso o que me tornei?

Já fiz essa pergunta muitas vezes ao fim de um cálculo exato das distâncias entre expectativa e realidade da vida adulta. 

Meu recorde foi quando me sentei com uma taça de vinho na frente da TV, agora com acesso ao wi fi e um cadeado em volta para a onça, vulgo meu filho, não chegar perto para colocar nenhum novo vídeo dos Bolofofos, e comecei a chorar ouvindo música fossa, provavelmente do Odair José.

Chorava porque lembrava que naquele dia esqueci de dar o remédio para a cachorra, um exercício diário que consiste em segurar as patas com um braço, abrir a boca de caninos afiados com dois dedos, estourar com os restantes a cápsula com outro e enfiar o pó do princípio ativo goela abaixo sem chance de ela expelir. Lembrava do dia em que ela chegou em casa ainda filhotinha, sem força nem pra latir, pediu pra subir na cama, no meio do casal, e por lá ficou. Oito anos depois, via sua falta de ânimo para sair do colchãozinho depois da infecção e pronto: me desabei.

É sábio o internauta que, tempos atrás, contou da saudade de chorar pelo crush ao ouvir uma música fossa, e não pelo estado democrático de direito ou os perrengues da vida adulta. Como numa trama do Philip Roth, esses perrengues quase sempre se esbarram na macro História e nos levam para a guerra.

Mais que isso: trucidam qualquer tipo de romantismo, e antes de tomar banho por duas horas e meia até desimpregnar do corpo o cheiro de hipoclorito de sódio me perguntava o que minha “conje” diria de mim se me conhecesse naquele estado, ainda com os óculos de natação na testa, há exatos 16 anos.

O pior, desses roteiros tragicômicos da vida adulta, não é atravessar todos eles em silêncio: é saber que eles agora são temas de crônicas e assuntos principais com os amigos mais ou menos da mesma idade que nos visitam ao fim de semana.

Não tenho certeza, mas acho que alguém registrou em fotos ou vídeos o rosto de espanto dos meus amigos de faculdade, com quem outrora conversava sobre Bertolt Brecht e a  revolução, ao visitarem em comitiva meu banheiro, onde eu mostrava o resultado do meu trabalho, centímetro por centímetro, naquela mesma manhã.

Todos pareciam maravilhados diante do teto da minha Capela Sistina particular, toda branca, brilhante, nova em folha, graças a uma bucha, uma escada e uma solução de água sanitária.

“Bravo!”, dizia um, enquanto contava do dia em que conseguiu desentupir a privada onde deixou cair um vaso de flor.

“Olho para cima e vejo 50 tons de branco”, dizia outro, que naquela manhã saiu às compras e precisou voltar correndo após a filha expelir na êmese um córrego de leite fermentado sobre sua camisa.

Em comum, ninguém ali queria outra vida. Nenhum de nós bebia mais além da conta e mesmo os exageros gastronômicos de fim de ano pediam agora moderações. Sob efeito apenas de uma jarra de café, a grande pergunta era se conseguiríamos dormir ou não depois da última xícara às quatro da tarde.

Sim: envelhecemos. Os assuntos não são os mesmos. As preocupações, entre a verdade do universo e a prestação que vai vencer, também. O que não perdemos é a capacidade de espernear, nos indignar e resistir diante das paredes mofadas também da vida pública.

Que em 2020 não nos faltem escadas, baldes e janelas para as correntes de ar.

Feliz 2020.

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