Última semana para uma Copa do Mundo sem igual

Com os campeonatos nacionais parados ou terminados desde o fim de semana, as estrelas do futebol mundial vão começar a chegar ao Catar, onde no próximo domingo começa a primeira Copa do Mundo realizada em um país árabe, a primeira também que despertou tantas críticas, muitas relacionadas ao meio ambiente e aos direitos humanos.

Organizado no final do ano, outra novidade, para evitar o verão rigoroso na região, o Mundial de 2022 será aberto com um inédito duelo entre Catar e Equador no estádio Al-Bayt, o mais distante de Doha, a 40 quilômetros da capital catari.

Os jogadores começarão a chegar nos próximos dias ao país anfitrião, com pouca tradição no futebol e de menos de 12 mil km² de extensão territorial, apenas um terço da área de países como Bélgica ou Suíça.

Muitos atletas entraram em campo por seus respectivos clubes no último fim de semana, como o brasileiro Neymar, o argentino Lionel Messi e o francês Kylian Mbappé, estrelas do Paris Saint-Germain.

Por outro lado, Sergio Ramos, também do PSG, não disputará seu quinto Mundial pela Espanha por não ter sido convocado pelo técnico Luis Enrique.

Estas quatro seleções fazem parte do grupo de favoritos ao título de um torneio do qual a Itália está fora pela segunda edição consecutiva.

Outros astros do futebol deixam seus países em suspense, ao chegarem para o Mundial com problemas físicos, como é o caso do senegalês Sadio Mané, do sul-coreano Son Heung-min e do belga Romelu Lukaku.

E em sua última Copa, qual papel terá Cristiano Ronaldo, agora que o craque português é reserva no Manchester United?

- Investimentos faraônicos -

Um início de torneio sem erros de organização já será uma primeira vitória para o pequeno emirado do Golfo, que vem sofrendo várias críticas desde 2010, quando a Fifa o escolheu de forma surpreendente para organizar a Copa do Mundo deste ano, em detrimento dos Estados Unidos.

Esta decisão, "um erro" segundo o então presidente da Fifa, Joseph Blatter, motivou investimentos faraônicos, estimados por algumas fontes em cerca de US$ 200 bilhões (mais de R$ 1 trilhão, na cotação atual), dos quais US$ 35 bilhões foram destinados ao metrô e outros US$ 6,5 bilhões aos estádios.

O Catar teve que enfrentar primeiro as acusações de corrupção, com investigações na Suíça, França e EUA. Depois vieram as críticas pelo impacto ambiental do evento, diante do aquecimento global e catástrofes climáticas. A imprensa ocidental tratou como absurdos a climatização dos estádios e os voos fretados diários com torcedores de países vizinhos para assistir aos jogos.

Mas sobretudo será a construção de estádios de 40 mil a 80 mil lugares (sete foram construídos do zero e um oitavo foi totalmente reformado) o que pesa na balança ambiental, segundo as ONGs, que não acreditam no compromisso de neutralidade de carbono anunciado pelos organizadores.

- Direitos humanos -

Na reta final da preparação, os ataques mais pesados, vindos principalmente da Europa Ocidental, tiveram origem na violação dos direitos humanos no Catar, com denúncias de "racismo" e de "padrões duplos" para se defender.

Também foi criticada a situação dos trabalhadores migrantes, essenciais em um país onde apenas 10% da população é de origem catari. Algumas organizações humanitárias calculam que milhares de trabalhadores morreram durante as obras de infraestrutura para o Mundial, algo que Doha desmente.

As autoridades do Catar e a Fifa insistem que houve avanços em tempo recorde em matéria de legislação social, com o estabelecimento de um salário mínimo mensal (de cerca de US$ 280, R$ 1,4 mil), sanções para os patrões que não pagam salários e a supressão da 'kafala', o sistema de apadrinhamento que obriga qualquer assalariado estrangeiro a ter autorização de seu empregador para se demitir.

Em várias ocasiões, a Anistia Internacional e a Human Rights Watch pediram à Fifa o pagamento de indenizações aos trabalhadores que construíram os estádios da Copa.

Em um país conservador como o Catar, onde a homossexualidade é considerada crime, outro tema que gera preocupação é a situação do coletivo LGBTQIA+, apesar de as autoridades afirmarem que todos os visitantes serão bem recebidos, independentemente de sua orientação sexual.

Os capitães de oito seleções, entre elas Inglaterra, França e Alemanha, anunciaram que usarão uma braçadeira com cores do arco-íris como protesto contra a discriminação.

Uma iniciativa que com certeza não agrada ao presidente da Fifa, Gianni Infantino, que pediu às 32 seleções participantes que "se concentrem no futebol" e não em "dar lições de moral".

A entidade máxima do futebol mundial proibiu, por exemplo, que a seleção dinamarquesa treine com camisas exibindo a mensagem "Human Rights for All" ("Direitos Humanos para Todos").

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