É um absurdo a Justiça do Trabalho interferir na educação, diz empresário

JOANA CUNHA
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*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 22.11.2017 - Retrato do empresario de educacao Chaim Zaher. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 22.11.2017 - Retrato do empresario de educacao Chaim Zaher. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O empresário Chaim Zaher, dono do Grupo SEB, que reúne 200 mil alunos em escolas como Pueri Domus, Maple Bear,e Concept, diz que o debate sobre a volta às aulas presenciais está sendo prejudicado por questões jurídicas, que ele considera absurdas.

Segundo Zaher, o planejamento das escolas para 2021 deve prever um período de revisão do conteúdo deste ano.

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Pergunta - O sr. tem demonstrado preocupação com as questões políticas e jurídicas no debate da volta às aulas presenciais.

Chaim Zaher - Ninguém está pensando no aluno, que é o mais importante. O aluno está sofrendo, está doente. Tem depressão, falta de esperança. Levará décadas para recuperar isso.

Ele tem de voltar a acreditar que lá é o lugar dele. Daqui a pouco, ele perde a vontade de estudar. Não pode tirar mais a convivência com os amigos, a rotina. Essas crianças vão sofrer muito lá na frente. E tem os pais que estão voltando a trabalhar. Precisam deixar os filhos.

O sr. tem a rede Maple Bear, com unidades no exterior. Como se compara o que está vendo aqui e lá fora?

CZ - O Brasil é um dos únicos que está assim. Por que Finlândia, Alemanha e Canadá conseguem ser os melhores em educação? Porque os alunos voltam para a escola. Como uma criança vai bem no Pisa [Programa Internacional de Avaliação de Estudantes] se está tendo aula online por tanto tempo?

Essa falta de bom senso detona a educação no país. Como vai explicar a um pai e a um aluno que está liberada a abertura do bar, do shopping, da praia, do avião para viajar três pessoas sentadas ao lado uma da outra, mas não libera escola? É na escola que passa o vírus? Nestes outros lugares não passa? Justo a educação, que precisa de atenção maior. Não tem sentido, além de politização e judicialização.

Como se equilibra isso?

CZ - Brasília diz que quem define é o estado, que joga para o prefeito, que joga para o secretário da educação. No mesmo estado tem 300 decisões diferentes. O meu grupo tem aula em São José dos Campos [SP], Sorocaba [SP], não aconteceu um problema até agora.

Na escola, vamos seguir as recomendações de saúde. Estamos triplicando custos com higienização, vamos respeitar a distância. Se tem um lugar seguro, é aí. O Maple Bear tem aula em diversos locais.

Aqui no Rio, tivemos aula no pré-vestibular. Só não estamos tendo na educação básica porque a Justiça do Trabalho, olha o absurdo, até a Justiça do Trabalho está interferindo na educação. Deixem a educação ser tocada por educadores, que entendem de educação. O ecossistema que tem de ser respeitado. ​

Qual ecossistema?

CZ - Pais, alunos, professores, escolas, diretores, colaboradores e saúde. Os pais têm de estar confortáveis. Tem aluno que está doente, com depressão. Os professores são heróis, como os médicos estão sendo para a saúde. Sem eles dando essas aulas online, se reciclando, seria mil vezes pior. Veríamos suicídios, pessoas em depressão, mais do que já tem.

A politização e a Justiça não têm de se preocupar com isso. Eles têm de se preocupar com as escolas públicas. Eles têm de olhar por que as escolas públicas não estão preparadas para voltar. As particulares estão ajudando no que está ao alcance delas. Eu fiz um convênio com o governo do estado de 400 mil bolsas de pré-vestibular para atender alunos do terceiro ano.

Está todo mundo ajudando. Vão falar: ‘mas tem um fosso entre a educação pública e a privada’. Só agora viram isso? Não vai resolver em três meses. Tem de aproveitar e olhar agora para a escola pública e melhorar. Para evitar o problema de não poder reabrir quando precisa.

Como está o planejamento das escolas para 2021? O ano foi perdido?

CZ - Esse ano, infelizmente, apesar de as aulas terem acontecido a distância, não é a mesma coisa. Eu não diria que foi perdido, porque não foi. O aluno não foi reprovado. Mas pedagogicamente afetou o ano de vida da criança. Isso sim é lamentável.

Não adianta o prefeito falar em voltar em 3 de novembro, faltando um mês para as férias. E se for dar aula em dezembro, janeiro, emendar, é pior ainda. Vai liquidar as crianças, os professores. Vai penalizar quem não tem nada a ver.

Não podemos esquecer que os professores estão dando aula direto, sem férias. Estão se desdobrando, tendo que preparar aula online. Estão sendo heróis.

O sindicalismo, a politização e a judicialização não têm nada a ver com o ecossistema escolar. Deixem que os professores se acertem com as escolas, que os professores da rede pública conversem com os secretários de Educação.

Em 2021, vamos ter de, talvez, nos primeiros meses, fazer uma revisão do ano anterior. Vai ter de fazer uma retomada para os alunos. As escolas vão ter de abraçar os alunos, deixar o ambiente mais gostoso para eles voltarem a ter prazer de ir à escola.

O sr. está acompanhando a disputa dos grandes grupos de ensino superior para comprar a Laureate? Mas o setor não vinha sofrendo, até pela pandemia? De onde vem esse apetite?

CZ - O que eu vejo é que estão buscando dinheiro no mercado. O dinheiro está fácil. Tem muito no mercado. Estão tentando recompor a perda de alunos fazendo aquisição. Sempre foi esse tipo de situação entre esses grandes. Não tem novidade. Só cresceram em cima de fusões. Não cresceram internamente. É uma briga pelos primeiros lugares.