Árbitro da final, Néstor Pitana ri de lance com Deyverson: 'Falei a ele que tinha sido eu'

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Argentino Nestor Pitana na final da Libertadores 2022. Foto: PABLO PORCIUNCULA/AFP via Getty Images
Argentino Nestor Pitana na final da Libertadores 2022. Foto: PABLO PORCIUNCULA/AFP via Getty Images

MACEIÓ, AL (FOLHAPRESS) - A cena já se repetiu diversas vezes e está na memória de todos os torcedores brasileiros. Eram os últimos instantes do segundo tempo da prorrogação entre Palmeiras e Flamengo, final da Libertadores da América. O atacante alviverde Deyverson tentava ganhar tempo quando sentiu uma mão tocar suas costas. Imediatamente ele cai e se contorce de dor no chão, simulando ter sofrido uma agressão de um flamenguista. 

Na verdade, quem havia dado o tapa (um tapinha, diga-se) foi o árbitro da partida, o argentino Néstor Pitana. Com final de Copa do Mundo e título de melhor do mundo no currículo, o juiz demonstrou jogo de cintura no lance e mandou seguir. Ainda hoje, mais de um mês após a decisão da Libertadores, o lance arranca lhe risos. 

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"Eu disse para ele se levantar, para sair do chão, e ele achou que tinha sido um jogador do Flamengo. Falei a ele que não era jogador, que tinha sido eu, e seguimos o jogo. Essa é uma daquelas anedotas que levamos por toda a carreira", lembra Néstor Pitana, aos risos, à reportagem. 

Diplomático, o argentino elogia os jogadores brasileiros, a quem classifica como os melhores do mundo, e evita criticar a mania de simular faltas. Aos 46 anos, o árbitro deixa claro que quer estar na Copa do Mundo do Qatar, no fim do ano, e que, se depender dele, seguirá apitando para sempre. "Só me tiram de campo com uma maca." 

O argentino está no Brasil a convite da Federação Alagoana de Futebol para ministrar uma palestra a todos os árbitros do quadro do estado, na próxima quinta-feira (6). Ele também participará de uma atividade na sexta-feira (7). A participação de Pitana faz parte da capacitação dos árbitros alagoanos para as competições de 2022. 

Pergunta - Você teve uma experiência recente com dois times brasileiros. Como foi apitar a final da Libertadores?

Néstor Pitana - Apitar uma final de Libertadores, depois de ter uma experiência de final de Copa do Mundo, foi outra coisa importantíssima. Significou muito para mim apitar um jogo grande entre equipes brasileiras, Palmeiras e Flamengo, e desfrutei desde que fui designado à partida até o apito final. Foi uma experiência muito boa. Fiz com muita paixão e aceitei o desafio de cara. Graças a Deus, o mais importante para o trabalho de um juiz é que ninguém fale de seu desempenho. 

Houve aquela situação inusitada com o Deyverson, que caiu após seu tapinha nas costas. Como foi aquilo?

NP - (Risos) É uma situação de jogo normal. O jogador está pensando no fim da partida. Para mim, foi um momento para contar como uma história inusitada, uma anedota. Não enxergo nada demais. O árbitro precisa entender a situação do jogo, o momento que o jogador está vivendo. É um momento que acontece em campo, mas a gente apita e deixa para lá, porque o jogador precisa de compreensão. São muitas emoções passando na cabeça do atleta. 

Eu disse para ele se levantar, para sair do chão, e ele achou que tinha sido um jogador do Flamengo. Falei a ele que não era jogador, que tinha sido eu, e seguimos o jogo. Essa é uma daquelas anedotas que levamos por toda a carreira. 

Os jogadores brasileiros simulam muitas faltas? É preciso ter um cuidado maior ao apitar jogos de times daqui?

NP - O jogador brasileiro é o melhor jogador do mundo. Vocês têm cinco Copas do Mundo. Temos que respeitar a história. São culturas diferentes no futebol. Os países mudam as culturas de futebol. Sobre a atitude dos jogadores, eles sabem que estão sendo olhados por muitas câmeras, então um mínimo contato às vezes torna a situação uma coisa muito maior. O futebol moderno é assim. O jogador brasileiro, tecnicamente, é o melhor do mundo. Nunca tive problemas com times brasileiros nesse sentido. 

Sua atuação na final da Libertadores foi muito elogiada no Brasil, mas alguns jornais argentinos falaram que talvez você saísse do quadro Fifa. Há algo nesse sentido, logo em um ano de Copa do Mundo?

NP - Para mim, fico eternamente apitando. A verdade é que essa situação não depende de mim. Quem decide é a federação, e ela decide se eu continuo ou não [no quadro Fifa]. Se eles me perguntarem, digo que fico em 2022, 2023, 2025, 2030... Só me tiram de campo com uma maca. No momento, penso em conhecer aqui Alagoas, desfrutar das praias. Em fevereiro, já voltam as competições e aí posso pensar passo a passo. Árbitros não são como as seleções. A vida é diferente. Nós não sabemos um ano antes se vamos ser escalados ou não para uma competição, então ainda não sei se irei ao Qatar. 

Como foi apitar a final da Copa do Mundo de 2018?

NP - É difícil falar sobre isso. É uma lembrança de quando eu era criança, de quando ganhei a primeira bola de futebol do meu pai. Eu lembrei de tudo isso. Apitar a final é algo incrível porque nós amamos o futebol. É como tocar o céu e as nuvens com as mãos. É maravilhoso assim. Senti que o esforço e o sacrifício valeram a pena. O prêmio maior foi apitar a final. 

A introdução do VAR dificultou em algo na competição?

NP - O VAR é uma ferramenta que não veio só a ajudar o juiz, mas ao futebol como um todo. Quanto menor a interferência, maior o benefício, e creio que temos que seguir trabalhando para chegar a esse nível. Para mim, não mudou nada. Não tive que mudar muita coisa. Apito igual, com VAR ou sem VAR. Com VAR, sempre tem um lance mais cuidadoso que sabemos que temos alguém de olho, para nos auxiliar. Todo jogo para mim é final de Copa do Mundo, até mesmo jogo de solteiro contra casados. Qualquer partida tem que ser encarada assim sempre. 

Os primeiros gols da França chegaram a criar discussões por conta do uso da tecnologia.

NP - Em 2018, foi a primeira vez do VAR na Copa do Mundo e foi a primeira vez que utilizado em uma final de Copa do Mundo. Temos que lembrar disso. Nós fizemos muitos seminários, estudamos bastante a tecnologia. O resultado da Copa do Mundo foi bastante satisfatório, para falar a verdade. É uma tecnologia que estamos ainda nos adaptando, como tudo na vida, e o uso dela vem melhorando cada vez mais. 

Os árbitros são alvos frequentes das torcidas nos estádios. Isso dificulta em algo?

NP - Isso faz parte da profissão. É mais fácil para os torcedores encontrarem problemas na arbitragem do que num lance em que o jogador do próprio clube cometeu um erro. É preciso ter tranquilidade. Nós árbitros sabemos que o futebol é desse jeito e precisamos nos adaptar a essas situações. Não há árbitro que nunca tenha ouvido um "Ei, juiz, vai tomar no..." (risos). Mas é tranquilo. 

Qual sua opinião sobre os comentaristas de arbitragem? Como eles poderiam ajudar a profissão a ser mais entendida?

NP - Acho que toda análise do futebol é bem-vinda. Tornar-se comentarista de arbitragem é um caminho natural quando vem a aposentadoria e isso pode ajudar mais a compreender o jogo. Eu não ouço muitos analistas, mas entendo que existem duas formas de fazer o trabalho. A primeira é com seriedade, analisando os lances e apontando os erros de uma forma construtiva, para que seja compreendido por todos. A outra é para criar um show, em que se coloca o árbitro como o grande vilão, em prol da audiência. É fato que os árbitros também cometem erros. Somos seres humanos. 

Você já foi jogador de futebol, de basquete, segurança, educador físico... Como parou na arbitragem?

NP - Tudo isso que você falou está ligado ao amor pelo esporte. Sempre tive uma ligação muito forte e sempre soube que eu trabalharia com futebol em algum momento da minha vida. No começo, pensava que seria jogador, depois pensei que poderia ser um bom instrutor. Daí, um amigo me perguntou se eu não teria interesse em me tornar árbitro. Achei uma boa ideia, comecei a estudar e estou nessa estrada já há alguns anos 

RAIO X

Néstor Fabián Pitana 

46 anos (17 de junho de 1975) 

Local de nascimento: Corpus Christi (província de Misiones), Argentina 

Formação acadêmica: Educação física 

- Melhor árbitro do mundo em 2018, de acordo com a IFFHS 

- Árbitro da final da Copa do Mundo de 2018 

- Árbitro da final da Copa Libertadores de 2013 e 2021 

- No quadro da FIFA desde 2010

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