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    Superliga é ápice da revolução dos bilionários estrangeiros no futebol europeu

    SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em entrevista ao site The Athletic publicada no final de março, o agente italiano Mino Raiola defendeu a ideia de que a Fifa deveria ser "desmantelada" e substituída por uma "plataforma". "Eu acho que a Fifa não deveria existir", afirmou o empresário de Erling Haaland, Paul Pogba, Zlatan Ibrahimovic e outros dos mais badalados nomes do futebol mundial. Dezenove dias depois da veiculação de suas declarações, 12 dos clubes mais ricos do planeta dispararam contra a Uefa e anunciaram a criação de uma Superliga europeia. Recebida com protestos e acusações de ganância por boa parte da comunidade do futebol, o projeto começaria na próxima temporada, em agosto. "É um assunto muito complexo. Não vejo outra solução que não seja um alinhamento [entre os times rebeldes e a Uefa]. Fala-se em sanções, como expulsão dos clubes da Superliga e de jogadores, mas são punições muito difíceis de serem implementadas. Muita coisa vai acontecer ainda. Há muitas variáveis em jogo", afirma o advogado Marcos Motta, especialista em direito esportivo internacional e que tem Neymar entre seus clientes. Segundo a imprensa inglesa, dirigentes dos seis times do país envolvidos (Arsenal. Chelsea, Liverpool, Manchester City, Manchester United e Tottenham Hotspur) já estão em negociações para fechar contratos de transmissão. O valor poderia chegar a 4 bilhões de euros (R$ 26,7 bilhões). Não seria a primeira revolução no futebol provocada pelo dinheiro. A Champions League, torneio diretamente ameaçado pela Superliga, já passou por isso. Criada em 1955 como Copa da Europa, enfrentou oposição de associações nacionais. A Federação Inglesa impediu o Chelsea de participar da edição inaugural. Em 1992, a competição mudou de nome, abarcou mais times (antes apenas os campeões nacionais participavam) e se tornou o torneio de clubes mais rico do planeta. O Bayern de Munique embolsou 130 milhões de euros (R$ 868 milhões pela cotação atual) na campanha do título do ano passado. No mesmo ano da criação da nova Champions nasceu a Premier League, para substituir a antiga Division One, na Inglaterra. A liga nacional de futebol que mais fatura no planeta em contratos de TV (5 bilhões de libras ou R$ 38,8 bilhões apenas pelo acordo para mostrar partidas no Reino Unido) mudou a maneira de se transmitir os jogos e virou exemplo para outros países. Mas seu surgimento também teve enorme oposição de torcedores e políticos na época. Ironicamente, mais tarde criou um sistema que passou a ser combatido pelos mais ricos e os uniu em um grupo que foi a semente da nova Superliga. A Premier League foi criada pela regra de que o dinheiro da TV tem de ser dividido em partes iguais entre todos os participantes. Com o passar do tempo, isso mudou. Na última temporada, cada clube recebeu exatamente a mesma quantia (cerca de R$ 217 milhões) do valor global pelos direitos no Reino Unido. Um valor extra foi pago de acordo com o número de partidas mostradas. Os contratos internacionais renderam R$ 293,8 milhões em valores atuais por equipe. Ferran Soriano, diretor executivo do Manchester City, nunca se conformou com a divisão do dinheiro desde que chegou ao clube, em 2012. O espanhol pleiteava um sistema mais parecido com o espanhol, em que Barcelona e Real Madrid (dois dos representantes do país na Superliga, ao lado do Atlético de Madrid) embolsam mais do que os outros. O novo torneio continental deverá seguir esse raciocínio. Além dos ingleses e espanhóis, os italianos Juventus, Milan e Internazionale também estão envolvidos. A reação ao anúncio foi gigantesca entre dirigentes de outras equipes, treinadores, torcedores e até jogadores. Bruno Fernandes, português do Manchester United, e Ander Herrera, espanhol do PSG, clube que até o momento recusou a oferta da Superliga, se manifestaram contra. Após partida desta segunda (19) entre Leeds United e Liverpool, Patrick Bamford (do Leeds) e James Milner (Liverpool) fizeram o mesmo. "Os clubes deveriam ser expulsos da Champions League e espero que isso aconteça na sexta-feira (23). Então vamos ver como o torneio vai terminar", disse Jesper Moller, integrante do comitê executivo da Uefa. Entre os quatro semifinalistas do torneio, apenas o PSG não faz parte da Superliga. O presidente da entidade europeia, Aleksander Ceferin, disse que os atletas das equipes poderiam ser proibidos de jogar a Eurocopa e a Copa do Mundo e comparou os dirigentes dos times envolvidos a serpentes. "É inviável justificar a expulsão dos clubes da Champions por um motivo muito concreto. A Superliga não existe. Ela existe como ideia que eles querem colocar em prática. Existe um projeto. Seria uma medida altamente ilegal", afirma Eduardo Carlezzo, advogado especializado em direito desportivo. Ele e Motta lembram que a ideia da Superliga existe há mais de dez anos, mas os clubes sempre tiveram medo de punições. Desta vez há uma diferença: os donos. À exceção de veteranos como Joan Laporta (novo presidente do Barcelona), Florentino Pérez (presidente do Real Madrid e da Superliga) e da família Agnelli na Juventus, a cartolagem da Superliga é composta por pessoas sem ligação antiga com o futebol. Dos 12 participantes, apenas Barcelona e Real Madrid não são uma propriedade privada. Além deles, Juventus e Tottenham (controlado por ingleses) não têm participação estrangeira na sociedade. Arsenal, Manchester United, Liverpool e Milan estão nas mãos de famílias ou investidores americanos. O Manchester City é de uma empresa subsidiária do conglomerado controlado pela realeza dos Emirados Árabes. O Chelsea foi vendido no início do século a um magnata russo. A Internazionale é mantida com dinheiro chinês, e o Atlético de Madrid possui um israelense como acionista minoritário. Há o componente de cultura dos esportes americanos por trás da ideia de times permanentes, sem rebaixamentos ou acessos, como pretende a Superliga. Stan Kroenke, dono do Arsenal, também tem equipes de futebol americano (Los Angeles Rams), basquete (Denver Nuggets) e hóquei (Colorado Avalanche). A famíia Glazer, controladora do Manchester United e originária do mercado de shopping centers, possui o Tampa Bay Buccaneers, da NFL. O Fenway Sports Group é dono do Liverpool e do Boston Red Sox, da liga de beisebol dos EUA. O City Football Group possui outras seis equipes ao redor do mundo: New York City (EUA), Melbourne CIty (AUS), Yokohama Marinos (JAP), Club Atletico Torque (URU), Girona (ESP) e Sichuan Jiuniu (CHN). Alguns deles causam polêmicas em atividades fora do futebol. A família real dos Emirados Árabes e, por consequência, o país, não são signatários da maioria dos tratados de direitos humanos. As liberdades de expressão e de imprensa são restritas. Roman Abramovich, dono do Chelsea, tem ligações com o presidente russo Vladimir Putin e é acusado de ter aproveitado para comprar companhias estatais quando a União Soviética foi desmantelada, a preços abaixo do mercado. O Milan pertence ao fundo de investimento americano Elliott Management. Um dos seus CEOs, Paul Singer, tem histórico de se aproveitar de países em moratória com o FMI (Fundo Monetário Internacional), adquirir títulos do governo por centavos e depois processá-los para receber o valor de mercado. Singer processou a Argentina por US$ 2 bilhões e venceu nas cortes americanas e do Reino Unido. Com os papéis do tesouro peruano, teve lucro de 400% utilizando o mesmo expediente. Eles chegaram aos poucos, comemoram títulos e agora podem ser responsáveis por uma revolução diferente das anteriores no futebol. Uma mudança que pode ter efeito proporcional, para os clubes, ao que a Lei Bosman provocou para os atletas. Em 1995, o belga Jean Marc Bosman ganhou um processo na Corte Europeia de Justiça e acabou com os direitos das equipes segurarem os registros de jogadores sem contrato. A mudança multiplicou o valor das transferências e provocou disparada nos salários. "O caso Bosman deu liberdade contratual aos atletas. Agora se trata do caso Bosman para os clubes e pode desencadear um efeito bola de neve nos demais continentes. Pode chegar à Ásia, ao continente americano e a todos os outros", projeta Carlezzo.

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    Uefa e Fifa se opõem à Superliga e ameaçam clubes com exclusão de torneios

    SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Doze dos maiores clubes da Europa anunciaram neste domingo (18) a criação da Superliga, competição que pretende reunir os clubes mais tradicionais do continente e competiria diretamente com a Champions League, organizada pela Uefa (confederação europeia de futebol). Arsenal (ING), Atlético de Madrid (ESP), Chelsea (ING), Barcelona (ESP), Inter de Milão (ITA), Juventus (ITA), Liverpool (ING), Manchester City (ING), Manchester United (ING), Milan (ITA), Real Madrid (ESP) e Tottenham (ING) assinam o comunicado como "clubes fundadores" da liga e afirmam que outros três se unirão a eles na primeira edição do torneio que deve começar "assim que possível". A proposta é realizar um campeonato com 15 times fixos e mais cinco participantes definidos pelos fundadores, com base no desempenho em outras competições. Os 20 times seriam divididos em dois grupos, com dez times cada um, que jogariam entre eles em dois turnos. Os três primeiros de cada grupo se classificam diretamente para as quartas de final enquanto os quartos e quintos colocados disputam uma eliminatória para se unir aos outros seis. A partir daí, as equipes fariam um mata-mata em partidas de ida e volta até a realização de uma final em jogo único, em local predefinido. O campeonato começaria todo ano em agosto e não teria rebaixamento, nos moldes de grandes ligas americanas, como a NBA e a NFL. Os jogos seriam realizados no meio de semana (janela utilizada atualmente para as competições de clubes da Uefa), preservando os fins de semana para jogos das ligas nacionais. Segundo o comunicado, a ideia dos clubes fundadores é criar também uma versão feminina do torneio. Os clubes afirmam que a formação da Superliga foi apressada pela pandemia global de Covid-19, que "acelerou a instabilidade existente no modelo econômico do futebol europeu" e esperam sentar com a Uefa e a Fifa para "em parceria encontrar o melhor resultado para a nova liga e o futebol como um todo". Mais cedo, a Uefa foi enfática ao anunciar que irá excluir os clubes que participarem da Superliga independente. "Alguns clubes ingleses, espanhóis e italianos podem pensar em anunciar a criação de uma chamada Superliga independente", divulgou a entidade que rege o futebol europeu em um comunicado, no qual classifica o projeto de "cínico". "Conforme anunciado anteriormente pela Fifa (...), os clubes envolvidos seriam proibidos de participar em qualquer outra competição a nível nacional, europeu ou mundial, e aos seus jogadores poderia ser negada a possibilidade de representar as suas seleções nacionais." A Uefa e a Fifa já haviam anunciado medidas duras em janeiro quando surgiram as primeiras especulações sobre esse novo torneio. A punição com exclusão das competições internacionais teria consequências graves, uma vez que os clubes que participariam dessa liga independente estão repletos de jogadores estrangeiros, que seriam proibidos de atuar por suas seleções nacionais. Resta saber se tal medida estaria em conformidade com o direito europeu de concorrência, ponto que abre a possibilidade de uma batalha jurídica se os clubes insistirem em organizar esta competição. O anúncio de criação da liga acontece na véspera da reunião do Comitê Executivo da Uefa, que pretendia aprovar uma profunda reforma da Champions League com a intenção de eliminar a possibilidade de surgimento da Superliga. A Uefa agradeceu aos clubes que não se manifestaram a favor desta iniciativa independente, "em particular aos times franceses e alemães, que se recusaram a participar deste projeto". Além da Uefa, diversas ligas nacionais se posicionaram contra a iniciativa. No Twitter, o presidente da Liga Espanhola Javier Tebas Medrano escreveu "finalmente os gurus de PowerPoint da Superliga estão deixando a escuridão das 5h da manhã nos bares, intoxicados de egoísmo e falta de solidariedade. A Uefa, as Ligas Europeias e a La Liga têm se preparado, e eles terão a sua resposta". A Bundesliga, da Alemanha, também se manifestou. "Seria irresponsável danificar de forma irreparável as ligas nacionais como base do futebol europeu profissional", disse o executivo Christian Seifert. A Premier League inglesa, além de assinar a nota conjunta com a Uefa, também emitiu seu próprio comunicado. "Torcedores de qualquer time na Inglaterra e na Europa podem sonhar em chegar ao topo e enfrentar os melhores. Acreditamos que o conceito da Superliga acabaria com isso". Alguns clubes europeus já avisaram que não aceitam participar da nova competição: o PSG é um deles. "Acreditamos que o futebol é para todas as equipes", disse o clube parisiense, um dos mais ricos e recheados de estrelas. Clubes de menor expressão também repudiaram a iniciativa. Como contrapartida, os clubes que organizam a Superliga prometem "pagamentos de solidariedade" muito maiores do que os pagos atualmente pela Uefa, sem teto e com crescimento proporcional à arrecadação da liga. Hoje os "pagamentos de solidariedade" são feitos pela Uefa a clubes que não disputam a Champions League ou a Liga Europa, mas são dos mesmos países dos clubes que disputam as fases de grupos dessas competições. Na temporada 2018/2019, os repasses da Uefa foram de cerca de 129 milhões de euros. Já a nova liga afirma que seus repasses seriam superiores a 10 bilhões de euros já em seu primeiro ano de atividade. "Nós vamos ajudar o futebol em todos os níveis e levar para seu lugar de direito no mundo. Futebol é o único esporte global, com mais de 4 bilhões de fãs e nossa responsabilidade como clubes grandes é responder ao desejo deles", afirmou Florentino Pérez, presidente do Real Madrid e apontado como primeiro presidente da Superliga, no comunicado. "Nossos 12 clubes fundadores representam bilhões de fãs em todo o mundo e 99 troféus europeus. Nós nos juntamos nesse momento crítico, permitindo que a competição europeia seja transformada, colocando o jogo que amamos num caminho sustentável de longo prazo, aumentando substancialmente a solidariedade e dando aos fãs e jogadores amadores uma sequência regular de grandes jogos que vão alimentar sua paixão pelo jogo", completa Andrea Agnelli, presidente da Juventus e vice-presidente da liga.

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