Na Argentina, falta de figurinhas da Copa vira questão de Estado

*ARQUIVO* SAO PAULO, SP, BRASIL.-30.08.2022 - Colecionadores de figurinhas da Copa. Funcionários da Zukerman, empresa especializada em de leilões de imóveis, durante a troca de figurinhas do álbum da Copa. Na mesa: Nathalie Bizzocchi, Vinicius Oliveira, André Zalcman, Marcela Curpievsky e Victoria Teodoro.  - (foto: Rubens Cavallari/Folhapress)
*ARQUIVO* SAO PAULO, SP, BRASIL.-30.08.2022 - Colecionadores de figurinhas da Copa. Funcionários da Zukerman, empresa especializada em de leilões de imóveis, durante a troca de figurinhas do álbum da Copa. Na mesa: Nathalie Bizzocchi, Vinicius Oliveira, André Zalcman, Marcela Curpievsky e Victoria Teodoro. - (foto: Rubens Cavallari/Folhapress)

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - A Argentina vive um momento de grave crise econômica, com a inflação anual de mais de 70%, falta de produtos importados, aumento da pobreza e do desemprego. Ainda assim, na tarde desta terça-feira (20), funcionários do ministério da economia e da secretaria de comércio interior gastaram quatro horas de seu dia para realizar a mediação entre a fabricante dos álbuns de figurinhas da Copa do Mundo, a Panini, e o sindicato de quiosques e bancas de jornal da Argentina. Estes reclamam que a empresa tem priorizado a distribuição dos álbuns e das figurinhas a redes de supermercados e a plataformas de compras online, como o Mercado Libre.

"O resultado dessa estratégia é esse", conta à reportagem Horácio Shipane, 42, dono de um quiosque do bairro de Villa Urquiza, apontando para a longa fila de adolescentes e vários adultos que esperavam a chegada de um carregamento.

"Minha banca sempre foi referência em vendas de figurinhas. Os garotos sempre se reuniram aqui em frente para trocar, para jogar, para completar seus álbuns. Era assim com meu pai, também. É o tipo de tradição que passa de pai para filho, e que agora com essas lojas online são destruídos."

Jonathan, 14, exibia uma figurinha do francês Kylian Mbappé e ouvia as ofertas: "troco por 20", "troco por um álbum quase completo", "pago 3.000 pesos".

A crise das figurinhas na Argentina teve início logo que o álbum começou a ser comercializado, no último dia 24 de agosto. "No da Rússia, tivemos muita procura, agora está sendo demais. Eu acho que é porque será a última Copa do Messi", diz Gonzalo Cortizo, 28, administrador de um quiosque na avenida Corrientes. "Me animei quando chegaram, coloquei bandeiras da Argentina e várias camisetas, decorei a loja. Mas depois, as pessoas começaram a pedir direto o álbum e eu não tinha mais, ou não tinha as figurinhas, foi uma decepção", afirmou.

Mariela Aragayan, professora de 43 anos, já impaciente, prometia ao filho Leonardo comprar o álbum completo no Mercado Libre, desde que saíssem da fila. "Mas qual a graça", perguntava ao filho. À reportagem, ela disse: "Isso é fantasia que os pais colocam nas cabeças dos filhos, manias de meninos. Hoje o mundo é diferente. Imagina se me pedem para ir à banca de jornal comprar uma revista ou um jornal, o mundo mudou!".

"Na minha casa não tem figurinha, porque não temos nem como pagar a luz", disse Yehiner Acevedo, 22, venezuelano que trabalha como entregador de aplicativo e apareceu no quiosque para pegar uma encomenda, enquanto os garotos faziam fila.

Os preços oficiais sugeridos pela empresa são de 150 pesos o pacote com 5 figurinhas (US$ 1 ou R$ 5,35) e 750 pesos (US$ 5,18 ou R$ 26,75), o álbum. No Brasil, o pacote de figurinhas custa R$ 4.

Schipane disse que recebe cerca de dez álbuns por semana e, no máximo, 40 pacotes. "Não dá nem para começar a anunciar a venda, acaba muito rápido". É por isso que abundam pela capital anúncios escritos à mão na entrada dos quiosques ou bancas "não há figus", e os adolescentes recém-saídos do colégio se perfilam em filas enormes nos fins de tarde.

Como ocorre com todo produto em falta na Argentina, surge o mercado negro. Há grupos de WhatsApp aos quais se pode ser convidado por vendedores que atuam perto dos quiosques que vendem figurinhas raras ou "para completar o álbum" por pelo menos cinco vezes o valor oficial.

Na reunião da última terça, o secretário de Comércio Interior, Matías Tombolini, afirmou que mobilizaria "equipes legais e técnicas da secretaria para colaborar na busca de possíveis soluções" entre a Panini e o sindicato.

O vice-presidente da entidade que representa os quiosques e as bancas de jornais da Argentina (Ukra), Adrián Palacios, afirmou que a "reunião foi positiva". "Mas só entenderemos que chegamos um acordo quando a distribuição para nossos comércios for prioritária. Historicamente, é nas bancas e nos quiosques que as pessoas buscam figurinhas, tem a ver com parte do ritual de completar o álbum. Comprar numa grande loja de supermercados ou online não é a mesma coisa. Só nós podemos oferecer a experiência de nossos pais e avós."

A oposição ao atual governo, porém, se posicionou considerando um exagero o envolvimento estatal. "A inflação está chegando aos três dígitos e o governo está preocupado com as figurinhas da Copa. Onde estão as reuniões com os exportadores, com o agronegócio, com os demais atores da economia", perguntou o deputado opositor Waldo Wolff.

Seu colega no Congresso, Martín Tetaz afirmou: "É tudo uma campanha de marketing. Estamos fazendo favores à Panini em vez de cuidar dos argentinos".

Novas rodadas de mediação devem ocorrer. A Panini não quis se manifestar.