Montenegro elogia SAF do Botafogo, mas destaca: ‘Com esse dinheiro eu contrataria melhor’


Em entrevista ao “Cara a Tapa”, do jornalista Rica Perrone, o ex-presidente do Botafogo, Carlos Augusto Montenegro falou sobre o momento do clube. O ex-dirigente analisou o trabalho do técnico Luís Castro, se mostrou favorável à SAF, mas ressaltou que 'contrataria melhor' com o dinheiro investido por John Textor.

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– Há dois anos, eu estava em um comitê, com pessoas tentando ajudar, não deu nada certo. O elenco era até bonzinho, teve cinco treinadores, mas foi um fiasco. Agora, com milhões entrando, a situação é igual, medo de cair, medo disso, medo daquilo - opinou, e em seguida emendou:

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- Mostra que não é só dinheiro. Eu acho que contrataria melhor com esse dinheiro. Botou R$ 100 milhões, dá para montar um time. Não adianta só pegar garoto de 21, 22, 23 anos para ganhar dinheiro depois. Precisam de jogadores experientes do lado para eles crescerem. As pessoas têm que conhecer e saber – completou.

De acordo com a visão de Montenegro, o momento atual é de transição, e Luís Castro ainda está conhecendo o futebol brasileiro e suas nuances. Ele destacou que é favorável à continuidade do trabalho do português e ser contra as mudanças constantes de treinadores.

– É um ano de transição. Não pode cair, tem que torcer para ficar por aí. Não deu sorte, muitos contundidos, ele está conhecendo o Brasil. Ficar trocando técnico toda hora não é legal. Eu manteria ele. É um projeto. Quando chega, tem parte do elenco vindo da Série B, uma parte foi contratada no começo deste ano, outra parte chegou ontem. É complicado, porque futebol é uma família, tem que treinar, estar junto. Pega os últimos três jogos, cada um foi um lateral-esquerdo, o Marçal, o Daniel Borges, o Hugo. Acaba ficando um bando, não time. A culpa não é do técnico, o jogador está no DM, o ele que vai fazer? Um surto de diarreia na outra semana… É difícil. Mas acho que o Botafogo não tinha plano B - explicou, e acrescentou:

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– Estou feliz, porque não tínhamos plano B. Tem clubes que não necessitam de SAF com urgência, mas um dia vão necessitar. O Atlético-MG está com sorte porque tem mecenas, o Palmeiras teve, o Flamengo fez trabalho bom e quem faz não ganhou nada, o (Eduardo) Bandeira (de Mello). Na vida, quem trabalha muito acaba sendo recompensado - frisou.

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Começo no Botafogo

– Entrei em 1994 nessa loucura, conversei com minha família, era presidente do Ibope, mas o Botafogo é muito mais difícil. Entrei por acaso, me chamaram para ajudar a recuperar a sede. Como todo botafoguense, tenho superstição, achava que a sede era importantíssima. Briguei dois anos por ela, consegui a sede com outros botafoguenses, aí agora falaram que eu tinha que ser presidente, prometi que ia ser uma vez só. Mantive a promessa. Cumpri a promessa, montei um time em 94 e, em 95, um ano difícil, meu pai já tinha morrido, fiquei rezando na final para ele para a bola não entrar, deu certo. O Wagner foi um monstro. O Botafogo tinha um time, não um elenco. Ninguém se machucou. Na última semana estava todo mundo quase se machucando, miniestiramento, Donizete lascado, eu tinha um médico de Seleção Brasileira (Lídio Toledo) e tinha que respeitar ele. Tive que fazer um atendimento escondido, montei um hospital na casa do Túlio, seis jogadores foram, tinham médicos, preparadores físicos. O Donizete eu me lembro que me chamaram para falar que o Paulo Autuori queria conversar. Ele me disse que o Donizete estava à meia-bomba, queria minha autorização para saber se escalava ou não, porque podia sair com dois minutos. Perguntei se ele queria jogar, queria, então falei que ia jogar. Se estourar, estourou. Vai entrar de férias, conserta.

– A era amadora terminou no início desse ano. Acabei sendo o único presidente campeão brasileiro. Quem for agora vai ser o John Textor ou outra pessoa se ele vender. O título de 95 salvou uma geração, o Túlio salvou. A torcida está envelhecida, meu orgulho é que até hoje vejo gente com camisas daquela época, com Seven Up.

Olho no futuo

– Sou a favor da SAF porque não tínhamos como pagar R$ 1 bilhão de dívida, não ia conseguir concorrer, disputar campeonato com Flamengo, Palmeiras, Atlético-MG, São Paulo. Não ia conseguir. Ia ficar sempre entre o décimo e o 20º, brigando para não cair, caía, voltava. Se Deus quiser vai acabar esse ano, vai se preparar direito em 2023 e em 2024, 2025 vai voltar disputar títulos importantes. Essa é a perspectiva.

Sobre Vaidade

– Zero problema. Nunca fui sócio do clube. Fui sócio do clube por três anos. Ajudei, fui presidente, saí, falei que nunca mais seria presidente. Sei o que passei. Todos os presidentes que precisassem de ajuda eu ia ajudar, de fora. Botei dinheiro, mas 95% eu recebi de volta. Tenho um limite. Posso satisfazer o meu prazer, mas não posso começar a envolver outras pessoas. Se botar dinheiro sem controle, está tirando da família, dos filhos etc. Fui aonde poderia ir. Uma partezinha deixei como doação. Sempre gostei de futebol, sempre apaixonado pelo Botafogo. Mas hoje em dia não sou daqueles que só tenho o Botafogo na vida. Tenho um hábito, com dez amigos da vida toda, desde os seis anos de idade, combinamos uma vez por ano fazer viagem e assistir semifinal ou final da Champions. É o melhor programa da vida e não tem o Botafogo. A Champions é uma delícia.

Saída da vida política do Botafogo

– Nem conheço o John Textor. Isso não me incomoda. Se quisesse ficar no Botafogo antes, eu teria ficado, seria eleito, saía, voltava de novo. Não gosto de clube, gosto de futebol. Respeito basquete, remo, natação, é legal, mas gosto é de jogo de futebol. Minha vida toda foi no Maracanã, depois o Caio Martins. Agora só quero que essa transição dê certo. Os patamares são outros, em outros números de contratações. Uma hora vai dar certo, começa a concorrer. Textor chegou com os pés no chão, se emocionou com a bandeira, agora está mais calado. Todo botafoguense estava aguardando ano de transição, quem acelerou e deixou todo mundo doido foi o Textor, se comportou como amador. Prometeu jogadores, isso e aquilo, mas que bom, prefiro ele envolvido que uma empresa fria, que você não sabe quem manda. É um processo, não adianta que não tem mágica.