Massacre do 'Dream Team' divertiu e marcou geração do basquete do Brasil

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Até que vai ser divertido jogar com nossos ídolos", disse Oscar Schmidt a Clóvis Rossi, enviado especial do jornal Folha de S.Paulo aos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992.

O craque terminaria mesmo sorrindo a partida do Brasil contra os Estados Unidos, no torneio masculino de basquete, naquele 31 de julho. No último lance, errou uma tentativa de arremesso da própria defesa. Aí, correu para abraçar efusivamente Patrick Ewing, Michael Jordan, Magic Johnson, Larry Bird e Charles Barkley.

O placar apontava 127 a 83 para a equipe norte-americana, conhecida como "Dream Team" por reunir alguns dos grandes nomes da história do esporte. Vencer o "Time dos Sonhos" não era uma possibilidade para os comandados de José Medalha, que se satisfizeram com algumas jogadas de efeito e uma derrota por 44 pontos, mais ou menos dentro da média estabelecida pelo rival.

"O sonho brasileiro de ao menos equilibrar um pouco as coisas durou exatos 4 minutos e 42 segundos, o que já é uma façanha. Até então, o jogo estava 15 a 15", relatou Rossi, em seguida mudando o tempo verbal para transmitir a experiência vista da beira da quadra. "Depois, os monstros que parecem feitos de elástico vão acumulando pontos com uma naturalidade que nem se percebe o tempo passar. Até os juízes, de vez em quando, assistem."

Por um breve período, o Brasil realmente se segurou de maneira surpreendente. Até que o adversário se adaptasse à marcação por zona, forçou erros e chegou a levar vantagem com um ritmo cadenciado. O ala Paulinho Villas Boas começou o duelo com a mão quente, e a seleção verde-amarela esteve à frente por três pontos, abrindo 11 a 8. Depois, fez 15 a 13.

Aí, os norte-americanos começaram a impor seu jogo físico, sobretudo com o ala-pivô Charles Barkley. No garrafão, eles exerciam sua força. E, quando o confronto tomou um ritmo mais acelerado, com contra-ataques em série, os brasileiros não tiveram gás para acompanhar os astros da NBA.

O técnico Chuck Daly nem pôs em quadra Magic Johnson, que se recuperava de lesão e foi poupado. Jordan teve atuação discreta para seus padrões, com 15 pontos. O destaque foi mesmo Barkley, com 30 pontos e oito rebotes. Chris Mullin, nas bolas de três, e Scottie Pippen, letal na defesa e no jogo de transição, também apareceram bem.

Do outro lado, Oscar marcou 24 pontos, número inflado por três arremessos de três pontos no finalzinho. Ele acertou apenas oito de seus 25 tiros de quadra e sofreu múltiplos tocos. Até se divertiu, como prometera, mas o porte físico dos adversários o frustrou repetidas vezes no Palau d’Esports de Badalona, nos arredores de Barcelona.

O pivô Pipoka, que tivera uma experiência de nove minutos na NBA na temporada anterior, terminou o jogo exausto. "‘Dá para competir com uns caras com uns músculos daqueles?’, perguntava o jogador, que não é exatamente um anão com seus 2,05 metros e 100 quilos de peso", relatou a Folha de S.Paulo.

Dentro do possível, os brasileiros gostaram de sua performance, tratada como treino para o confronto seguinte, decisivo, com a Alemanha. A seleção havia perdido para Croácia e Espanha e vencido apenas Angola. Foi com um triunfo por 85 a 76 sobre os alemães que avançou às quartas de final. No mata-mata, não resistiu diante da Lituânia, que viria a ficar com a medalha de bronze. Em seguida, o time de José Medalha bateu Porto Rico e Austrália para obter o quinto lugar.

Já os Estados Unidos, na fase final, derrotaram facilmente Porto Rico (115 a 77), Lituânia (127 a 76) e Croácia (117 a 85). Ficou na história a campanha do icônico "Dream Team", marcante para quem pôde acompanhá-lo e mais ainda para quem teve a oportunidade de enfrentá-lo. "Cadum, por exemplo, entrou em êxtase porque Magic Johnson elogiou alguns passes que ele deu no segundo tempo", descreveu Clóvis Rossi.

Trinta anos depois, a NBA já não é uma realidade distante para os brasileiros. A partir do século 21, como parte de um movimento global fomentado pela própria liga norte-americana de basquete, eles passaram a frequentá-la, alguns com destaque considerável.

O forte Nenê, com seus 2,11 m, não teve problema para se adaptar ao jogo físico e construiu uma produtiva carreira de 17 temporadas, as melhores delas no Denver Nuggets. Anderson Varejão, também de 2,11 m, esteve em 14 edições do torneio e se tornou ídolo do Cleveland Cavaliers.

Leandrinho, 1,91 m, não era tão alto, mas sua velocidade lhe rendeu o apelido de "Brazilian Blur", já que, no movimento rápido, parecia um "borrão". Eleito melhor sexto homem em 2006/07, pelo Phoenix Suns, esteve no Golden State Warriors campeão de 2015. No ano anterior, Tiago Splitter havia se tornado o primeiro brasileiro campeão, com o San Antonio Spurs.

Tal sucesso, porém, não se refletiu em bons resultados para a seleção brasileira. Os atletas da NBA repetidas vezes priorizaram o basquete norte-americano, abrindo mão do time nacional. Quando a ele se apresentaram, não alcançaram a relevância da geração de Oscar, que, claro, não se resume à pancada levada do "Dream Team".

Com Schmidt, após o título nos Jogos Pan-Americanos de 1987, o Brasil ficou em quinto lugar nas Olimpíadas de 1988 (Seul) e 1992 (Barcelona). Em 1996 (Atlanta), ficou em sexto. Então, enquanto ganhava espaço na NBA, passou a perder relevância no basquete de seleções, ficando fora dos Jogos de 2000 (Sydney), 2004 (Atenas) e 2008 (Pequim).

Voltou em 2012 (Londres), uma vaga muito comemorada seguida de nova campanha de quinto lugar. Em 2016 (Rio de Janeiro), a classificação foi assegurada previamente ao país-sede, mas a trajetória foi decepcionante, com derrotas apertadas, eliminação ainda na primeira fase e nada além da nona colocação.

A sequência foi pior. Sem vaga nos Jogos de Tóquio –realizados em 2021, com um ano de atraso na pandemia de Covid-19–, a seleção voltou a ter comando de um brasileiro, após uma sequência de treinadores estrangeiros. Agora é o jovem Gustavo de Conti, 42, o responsável na tentativa de reconduzir o time nacional a uma posição de destaque.

Contratado por causa do ótimo trabalho realizado no Flamengo, ele chegou à equipe verde-amarela buscando resgatar o apego pela camisa demonstrado quando o Brasil apanhava dos atletas da NBA e não estava nela. "O que quero trazer é esse sentimento de seleção. Quero que não seja uma coisa tão formal, tão profissional. Quero que seja com mais sentimento envolvido."

A primeira meta do técnico, que assumiu a equipe no ano passado, é a classificação para a Copa do Mundo de 2023. Até aqui, a campanha é sólida, com cinco vitórias e apenas uma derrota, uma zebra em jogo de duas prorrogações contra a Colômbia. Depois, claro, a meta é ir aos Jogos Olímpicos de 2024 (Paris).

De acordo com De Conti, uma de suas influências é a escola norte-americana, descrita por ele como "um basquete mais veloz, mais físico". Sua ideia é levar o Brasil a Paris e não ver nenhum de seus jogadores perguntando: "Dá para competir com uns caras com uns músculos daqueles?".

É bem possível que até lá seja parte importante do time o ala Gui Santos, hoje com 20 anos. Ele acaba de chegar à NBA, escolhido pelo campeão Golden State Warriors, e, já na liga de verão, disputada basicamente por garotos que tentam entrar na liga, notou algo percebido por Pipoka em 1992.

"O jogo é muito rápido, e os jogadores são muito atléticos. Todos, todos, sem exceção."

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