Laís Souza: 'Todo brasileiro tem sua história, eu tive sorte da minha ir para a TV'

Lais Souza durante as Olimpíadas de Pequim, em 2008 (Foto: Vladimir Rys/Bongarts/Getty Images)
Lais Souza durante as Olimpíadas de Pequim, em 2008 (Foto: Vladimir Rys/Bongarts/Getty Images)

Em mais um episódio especial do nosso esporte olímpico, conversamos com uma atleta que viveu o sabor da vitória, as desilusões, lutou, vibrou, sofreu, mas principalmente, a superou: Laís Souza. Das dificuldades, da luta pela vida, a recompensa pelo legado conquistado.

Ela, como poucas, deu a volta por cima e mostrou o protagonismo das mulheres no esporte. Hoje é referência, símbolo de superação e palestrante. Laís Souza, ex-ginasta, nos contou tudo: sua geração na ginástica artística, a mudança de patamar da seleção, as conquistas, o fruto da base, superação após o acidente de esqui que a deixou tetraplégica, o legado deixado pelo treinador ucraniano Oleg Ostapenko, futuro, sua trajetória na ginástica artística até a transição para o esqui, entre outros assuntos.

Natural de Ribeirão Preto, a paulista iniciou sua carreira aos 4 anos. Chegou à seleção brasileira após conquistar torneios nacionais e internacionais pelas categorias de base. Disputou Pan-Americanos, duas Olimpíadas (Atenas em 2004 e Pequim, em 2008), respectivamente.

Após resultados inéditos e conquistas relevantes em diversas competições internacionais, a atleta se preparava para a disputa de outro torneio, desta vez para representar o país nos Jogos de Inverno. Em 2014, se preparando para as Olimpíadas, Laís sofreu um grave acidente de esqui aéreo - modalidade olímpica - nos Estados Unidos, tendo seu destino modificado. Com o impacto, a sequela. a deixando paralisada após sofrer uma lesão na coluna cervical.

Laís se recupera do acidente, se torna referência no tratamento de células-tronco, com conquistas acentuadas. Atualmente dá palestras motivacionais, encorajando, dando protagonismo, valorização, reconhecimento a jovens, mulheres, pessoas PCD (pessoas com deficiência), por um mundo mais justo, com mais equidade e respeito.

Passado e futuro da seleção de ginástica

Com certeza, eu acho que mudou bastante. Hoje temos uma medalha olímpica, temos medalhas olímpicas por aparelho, individual geral, o que é bem diferente. Tem um peso gigantesco. E assim como a nossa equipe serviu de espelho para Rebecca e todas as meninas que treinam hoje já aconteceu comigo lá atrás. Daniele Hypolito, Soraya Carvalho, Luisa Parente. Então, essas meninas foram espelho para mim e hoje a gente tem que dar graças a Deus por essas medalhas e torcer para que a ginástica no Brasil continue a crescer, a melhorar cada vez mais a sua base.

O legado de Oleg Ostapenko

Ele fez história com a nossa equipe. Ele mostrou que a gente podia mudar sim o quadro de resultados ali. Ele fez a melhor equipe da época, melhor resultado do Brasil. Pra mim mesmo, ele me tornou a quarta melhor do mundo no salto sobre o cavalo, tirando todos resultados que a gente já sabe com a Daiane dos Santos, o título mundial, teve outras medalhas ao longo da história. Então, com certeza, ele é um dos caras mais especiais que passaram pela minha vida, como técnico.

[O treinador ucraniano faleceu em Kiev na Ucrânia, em 2021, por conta de problemas renais e pulmonares.]

Confira mais da entrevista do Yahoo Esportes com Lais Souza.

Você sofreu um acidente em um momento que você estava em transição na carreira, mudando de modalidade, drasticamente de ambiente, saindo dos jogos ‘indoor’ para os Jogos de Inverno. Quais eram as pretensões naquela época?

Eu sempre fui apaixonada em fazer esporte e o esqui não foi diferente, eu me apaixonei pelo mundo branco, pelos mortais novamente. Eu pude levar o que eu fazia na ginástica para o esqui acabei encontrando. Infelizmente acabou acontecendo o acidente no meio do caminho, mas a intenção era continuar competindo aos poucos, ir para a Olimpíada, conquistar o meu resultado ali e terminar, finalizar a carreira. Era basicamente esse plano que eu tinha em mente.

E ressurgiu como uma Fênix! Como foi a sua recuperação? Temeu em algum momento o pior?

Bom, a minha recuperação foi com bastante dificuldade, foi um acidente bem feio. Eu machuquei a cervical, a C2, C3, tive fraturas, não foi fácil. Foi um acidente que me deixou tetraplégica, sem movimento do corpo. No começo eu não conseguia comer, não conseguia respirar sozinha. Eu estava em outro país, a galera falava uma outra língua. Então pra se virar, foi bem difícil. Foi a coisa mais complicada que eu passei na vida. Na verdade, eu não temi o pior, aconteceu o pior.

Você é símbolo de garra e superação por todo povo brasileiro, atletas. O que significa para você ser referência no país?

Bom, eu tive a minha história de superação e acredito que cada brasileiro tenha a sua história aí que passa todos os dias tendo que trabalhar passar perrengues. Eu tive sorte do meu caso ter ido para TV. Isso alavancou um pouco, é onde eu consigo me mexer, pagar as minhas contas.

Hoje em dia tem atuado como palestrante, mostrando o poder de superação, o protagonismo das mulheres, garra. Como o público tem recebido suas apresentações?

É uma satisfação gigantesca poder contar a minha história, levar um pouquinho daquela Laís atleta, da Laís que era pequenininha, estava treinando ginástica depois foi para a Olimpíada, foi para o esqui e foi se conhecendo, foi encarando esse mundo do atleta que não é fácil, com muitas lesões, cirurgias e ao mesmo tempo aquele outro olhar do campeão, do forte.

Então, isso me empolga bastante. É um dos meus combustíveis. E graças a Deus, tem bastante história. Se for ver aí já dá para escrever um livro de tantas coisas que tem pra poder contar pra essa galera. Eu acredito que eles tenham gostado, né!? Se em algum momento não for satisfatório, a gente muda, volta a estudar tudo de novo, para poder satisfazer a galera, conta com empolgação o novo momento na vida, carreira.

Qual é a mensagem que você gostaria de deixar para quem está passando por alguma dificuldade?

Primeira coisa, parar de se sentir tão diferente do outro. Para quem está passando por alguma dificuldade parecida com a minha, eu tive que ter muita paciência, amigos para me suportar, pessoas que me amassem de verdade que queriam estar ao meu lado e entender a minha dor que eu estava passando naquele momento e também querendo me informar, sabe... sobre o que estava acontecendo, tentar participar de reuniões com os cadeirantes. Quanto mais informação eu colocava para o meu dia-a-dia, eu sentia que estava mais segura para conseguir seguir.