Ícone da vela, Scheidt vê Brasil como uma das potências na modalidade

Robert Scheidt durante as Olimpíadas de 2021 em Tóquio (Foto: Clive Mason/Getty Images)
Robert Scheidt durante as Olimpíadas de 2021 em Tóquio (Foto: Clive Mason/Getty Images)

Duas medalhas de ouro, duas de prata e uma de bronze em Olimpíadas e inúmeros campeonatos mundiais em mais de uma categoria. A carreira de Robert Scheidt é brilhante e o coloca como um dos melhores atletas da história do Brasil.

Em entrevista ao Yahoo Brasil, Scheidt fala sobre a trajetória, desde o momento que considera como a maior alegria da carreira, o título mundial júnior quando tinha 18 anos, a histórias curiosas, como quando o barco dele e de Bruno Prada chegou em uma competição com os mastros destruídos.

A longa parceria com seu principal patrocinador (Banco do Brasil), o legado que ele oferece para a vela e conselhos para jovens esportistas também foram assuntos do papo.

Yahoo Esportes: Como é pra você olhar para trás e ver sua trajetória? Como você avalia sua trajetória?

Robert Scheidt: É com muito orgulho do que eu consegui na minha carreira, uma carreira de muito sucesso. Acho que eu consegui muito mais do que imaginava quando eu estava iniciando com um na juventude. Meu sonho era poder disputar uma Olimpíada e ter conseguido de participar de sete edições, conquistando cinco medalhas, com os mundiais também sendo muito importantes. Tenho bastante orgulho disso, mas a vida continua. Não adianta a gente ficar só vivendo das conquistas passadas, as prioridades da vida vão mudando. A gente vai olhando a vida um pouco de outra forma. Hoje a família prioridade para mim, mas claro, faria tudo de novo. A caminhada foi maravilhosa e eu acho que a vela ainda permite que eu continue por muitos anos competindo outras categorias. Isso é muito bom, a vela, eu não vou ter que parar de fazer, mas sim redirecionar a minha carreira.

Você construir um legado e ajudou na evolução do país na vela. Como você vê o a força do país no esporte?

A força do Brasil na vela é grande, temos um retrospecto muito bom. Sempre representamos muito durante Jogos Olímpicos. Somos o segundo esporte com mais medalhas muito pelo esforço dos clubes no Brasil, com Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro sendo os grandes centros, e alguns clubes da Bahia e do Nordeste. Mas acredito que poderia ser ainda mais forte se a gente tivesse mais investimento, uma estrutura melhor. Poderia ser ainda mais forte e é isso. Acho que mencionam família Grael, uma família excepcional, uma dinastia, vamos dizer assim. E enfim eu acho que tem esses exemplos que acho que podem realmente incentivar a nova geração acreditar que podem ser campeões também.

O Brasil continua muito forte na vela. A que se deve esse fenômeno? Você e a família Grael construíram uma escola sob o aspecto competitividade, excelência?

Eu acho que para se preparar bem pra uma para uma carreira olímpica o atleta tem que tem que também disputar esses eventos no circuito europeu. O Brasil está entre eles. O Brasil chegou a ganhar em 1996 duas medalhas de ouro e uma de bronze. É torcer para que a gente consiga melhorar mais ainda. Temos as meninas que são bicampeãs olímpicas, Martine e Kahena, estão aí nessa disputa, talvez chegarem num tricampeonato olímpico seria maravilhoso. Então vamos torcer por elas e por outras medalhas que podem vir em 2024 também.

Se você pudesse jogar as suas fichas, quem você que apostaria para representar a vela hoje e futuramente?

Bom, acho que esporte não é aposta. No esporte, você analisa os resultados e vê quem pode estar bem, quem está no momento melhor, quem tem maiores chances num grande evento. Claro que você lida com alguns fatores estão fora do controle. Você lida com o meio ambiente, como o vento, mar, coisas você não pode controlar. Então, existe um pequeno fator de dia muito pequeno que seria o vento, variar para um lado, para o outro, sem você controlar. Todas outras coisas você pode controlar, então, eu não gosto de falar muito em sorte. Mas assim, para representar bem a vela hoje, é fácil a gente falar da Martine e a Kahena, são bicampeãs olímpicas e provavelmente vão chegar bem daqui há dois anos em Paris.

Quais são os pontos técnicos mais trabalhados para atingir esse patamar de excelência?

Para que um atleta realmente bom em excelente em nível olímpico na luta por uma medalha é um conjunto de fatores: precisa criar esse sonho, a vontade e a força interior de querer muito o resultado. Não adianta querer 90%, 80%, sem querer aquilo 100%. Tem que realmente trabalhar muito, mudar a sua vida em volta do seu sonho e de pessoas que vão te ajudar. O aspecto familiar é muito importante pra mim. Foi muito importante o apoio da minha família, moralmente, atrás de mim dando suporte. Na área técnica também há pessoas que vão te ajudar a trilhar esse caminho. Então acho que é uma certa dose de talento é importante, mas para que um atleta seja excelente tem que misturar um grande talento com muito trabalho, muito planejamento e aos poucos criando essa autoconfiança de que pode chegar o momento de pressão e conseguir executar um bom trabalho no momento de alta pressão.

Tem alguma história de bastidores que o torcedor não conhece sobre a disputa de alguma competição, alguma medalha ou país? Ou até mesmo um fato estranho ou engraçado?

Eu acho que uma boa foi quando eu e o Bruno Prada em 2011 chegamos em um campeonato mundial em um porto na Australia e nosso barco chegou lá com quatro mastros, contudo, o caminhão que estava levando esse material para o clube colidiu contra um poste e quebrou os 4 mastros e a gente chegou poucos dias antes do torneio. Não tínhamos mais mastros pra velejar. E ficar uma situação muito ruim, era um campeonato que valia muito, uma vaga olímpica. Felizmente, através das nossas amizades com muitos velejadores, a gente conseguiu um mastro emprestado até poucos dias antes do campeonato, onde o seguro dessa transportadora conseguiu fornecer um outro mastro para a gente competir. Mas foi um estresse muito grande e que bom que a gente conseguiu contornar essa situação e chamar uma solução mesmo tendo esse material variado

Qual foi o momento de mais alegria e tristeza na carreira esportiva?

Bom, alegria foram muitas. As pessoas falam das medalhas, mas para mim o divisor de águas foi um quando eu com 18 anos ganhei o Campeonato Mundial Juvenil, para atletas até 18 anos. Ganhar aquele título na Escócia foi muito importante para mim. Ganhei muita confiança comecei a sonhar que eu poderia fazer alguma coisa grande no esporte. Tristeza na carreira esportiva, acho que tive momentos duros, são derrotas, tive lesões de momento que você se questiona, o final da carreira também é difícil, nossa decisão de parar ou não. Mas se for para apontar um momento, acho que a derrota pro inglês em 2000. Foi uma derrota que mais doeu, porque era uma medalha que estava praticamente na mão e acabei perdendo na última regata

Um fato bastante citado por esportistas e gestores é a questão do investimento, patrocínios. Na vela, a missão também é árdua no sentido de captar recursos?

O atleta ele tem que ter essa consciência de que o patrocinio esportivo é um negócio que existem contrapartidas. Não basta você utilizar uma marca. Eu tive grandes oportunidades nesse sentido. O Banco do Brasil está comigo desde 2002, é um dos patrocínios mais longos do esporte brasileiro. Conseguimos criar um vínculo muito grande, acho que a minha a minha imagem ficou muito ligada a imagem do banco, mas ativamos muito esse patrocínio através de palestras, eventos corporativos, utilização de imagem. Então, é muito importante a empresa saber utilizar o atleta patrocinado, o time patrocinado como uma ferramenta para expor a marca dele. É importante que o atleta patrocinado tenha essa consciência que tem que dar um retorno. O ideal é você dar mais retorno que o patrocinador espera. Quer dizer, superar expectativa é muito importante, dar uma grande atenção, porque eu acho que é um é uma associação que transcende o seu patrocínio. Acho que se a empresa fica feliz com uma associação com atletas pode ser estendido para outros atletas e acaba ajudando muita gente no esporte.

Qual é a mensagem para um jovem que gostaria de ser um atleta da vela no Brasil?

Começa de um grande sonho de querer muito uma coisa que gosta daquela atividade. É importante não gostar não só do resultado, mas também da caminhada, do processo de ir melhorando a cada dia. Aí você evolui como atleta. Então independente do atleta virar um campeão olímpico, campeão mundial, a caminhada para ele tentar chegar lá já vai fazer dele uma pessoa melhor. Muitas lições de vida para esse jovem, mas acho que a mensagem era essa mesmo de você criar essa vontade interior, essa motivação interior de ser um grande atleta. Se associar a pessoas que vão te ajudar nesse processo na realizar um planejamento e o resto é muita dedicação, muito afinco, disciplina de você ‘abrir mão’ de algumas coisas na vida, deixar de algumas festas, alguns churrascos pra treinar. Colocando a tua carreira com uma prioridade na tua vida você acaba criando chances de chegar no ponto almejado. Um lugar importante, a gente nunca sabe até um de um atleta pode chegar, eu acredito que o grande desafio do atleta é tentar desenvolver um potencial dele ao máximo, sabendo que no final da carreira dele tem que ter essa consciência de que fez tudo, que poderia fazer pra chegar o resultado. Depende de muitas coisas, mas conseguir desenvolver esse potencial máximo.