Ibañez chega à seleção sem deslumbramento com ascensão no futebol

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Abel Braga fica à vontade quando é questionado sobre Roger Ibañez, 23. "Falar dele é fácil", disse o ex-treinador, que deu ao zagueiro -convocado por Tite para defender a seleção brasileira nos amistosos dos próximos dias- sua primeira oportunidade como jogador profissional do Fluminense, em 2018.

O defensor tinha 19 anos quando começou a ganhar projeção na equipe carioca. Ele havia passado pelo Grêmio Atlético Osoriense, na terceira divisão gaúcha, e pelo Sergipe, pelo qual disputou a Copa do Nordeste.

"Era um garoto especial", afirmou Abel. "Ele já era grato só de estar treinando no grupo profissional. Quando eu por acaso o coloquei como titular do time, ele não mudou absolutamente nada. Isso significa dizer que a personalidade dele é muito forte."

Naquele ano, o zagueiro rapidamente conquistou um espaço fixo na equipe, fez 38 partidas e marcou dois gols. "Nós tivemos partidas em que ele foi mal e sofremos um ou outro momento de dificuldade. Sofremos gols que tiveram a participação dele, mas ele nunca se abalou", lembrou o ex-técnico do time tricolor.

Natural de Canela, no Rio Grande do Sul, filho de pai brasileiro e mãe uruguaia, o jogador conta que sua personalidade foi moldada, sobretudo, pelo pai.

"Na infância, meu pai saía sempre para jogar futebol, e eu era aquele carrapato, dizendo que queria ir junto, querendo jogar junto, mesmo sendo um cotoco de pessoa. Aonde ele ia, eu estava atrás", recordou o atleta. "Quando eu tinha 16 para 17 anos, saí de casa [para iniciar sua trajetória no futebol], e parecia que ele já tinha me preparado para tudo. Eu sabia me virar sozinho."

Ibañez conseguiu ter uma rápida ascensão. Depois da boa temporada que fez pelo Fluminense, foi jogar na Atalanta, que em 2019 pagou 4 milhões de euros (R$ 17,2 milhões à época) para levá-lo ao futebol italiano.

Embora não tenha recebido muitas oportunidades na equipe, despertou o interesse da Roma, time que buscou seu empréstimo em 2020 a pedido do técnico Paulo Fonseca. No final do ano, com boas atuações, acabou contratado de maneira definitiva.

Após a chegada do treinador José Mourinho, na última temporada, Ibañez se consolidou e foi uma das peças importantes na conquista da Conference League, com vitória por 1 a 0 sobre o Feyenoord na final. O defensor acredita que o trabalho ao lado do treinador conhecido como "Special One" tenha sido determinante na realização do sonho de chegar à seleção brasileira principal.

"A Itália é um berço das defesas. A gente chega lá, e eles já têm profissionais para você aprender o mais rápido possível o jeito de que eles trabalham", disse, em sua primeira entrevista pelo time nacional. "E estar do lado do Mourinho, com ele dando dicas e ideias de como jogar na Itália, ajudou bastante a estar aqui hoje."

Tite contou ter conversado com um "bastante solícito" Mourinho sobre o jovem. Ouviu que ele tem boa capacidade de atuar em linhas com três ou quatro zagueiros e pode exercer a função de lateral. "Essa versatilidade, essa preparação, esse melhor momento, esse crescimento e essa consolidação do atleta são fundamentais", disse.

A evolução levou o treinador da seleção a observar Ibañez de perto. Ele está fazendo o mesmo com o zagueiro Bremer, 25, da Juventus, outra novidade na lista para os amistosos. O Brasil jogará contra Gana, na sexta (23), e Tunísia, na terça (27), ambos os duelos na França.

São as últimas oportunidades para mostrar serviço pertinho de Tite. A próxima convocação já será aquela com os nomes que vão a Copa do Mundo do Qatar, com início em novembro.

É uma chance vista com esperança por Ibañez, que chegou a ser sondado sobre a possibilidade de defender a seleção uruguaia. Agora em posse de um passaporte italiano, também foi procurado por representantes da seleção europeia. Preferiu aguardar sua vez no time do Brasil.

"Desde o primeiro dia aqui [com a seleção], é uma sensação inexplicável", afirmou. "Tudo acontece quando Deus quer, eu acredito muito nisso."