Há 10 anos, torcedora do Boca rivalizava com o próprio pai por título do Corinthians na Libertadores


O Caiazza no sobrenome indica a influência portenha de Giulia. Filha de um pai nascido na Argentina e torcedor fanático do Boca Juniors, a garota descobriu há 10 anos que poderia dividir as cores do seu coração. Então juntou o ‘azul y oro’ dos xeneizes com o alvinegro do Corinthians.

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O que ela não previa é que meses após a sua escolha pelo Timão, em 2012, as duas equipes se enfrentariam na final da Libertadores, e aí não teria como misturar a paleta de cores.

Muito apegada a figura paterna, a jovem, de 22 anos sempre gostou de futebol, justamente por influência do pai, Carmelo, que deixou a Argentina por volta dos seus 20 anos de idade, por conta de duas paixões: o Brasil, no qual conheceu na adolescência, em uma viagem com amigos, e uma garota, com quem namorava por cartas.

Giulia e pai - Corinthians e Boca
Giulia e pai - Corinthians e Boca

Giulia já conheceu a Bombonera, junto com o seu pai, mas nunca foi em uma partida (Foto: Acervo pessoal)

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O relacionamento, no entanto, não deu certo, diferentemente da estadia de Carmelo em território brasileiro, que já dura cerca de 40 anos. Neste tempo, o autônomo conheceu a sua esposa Ivanice. O fruto do relacionamento foi justamente Giulia, filha única do casal.

A jovem de 22 anos se recorda vagamente do primeiro ano em que assistiu futebol com o pai. Era 2007, temporada em que o Boca foi campeão da Libertadores – pela última vez, até o momento.

Ver os jogos do clube xeneize era um programa de pai e filha, mas faltava para Giulia algo que a ligasse com o futebol brasileiro, para se envolver nas brincadeiras entre torcedores na escola e os comentários que estão envolvido no dia a dia de qualquer um que vive no Brasil.

Por conta da influência italiana, na qual a família Caiazza possui descendência, a escolha do pai de Giulia em solo brasileiro foi o Palmeiras. Mas ele não nutria pelo Verdão a mesma gana de torcida como tinha pelo Boca, onde frequentava arquibancada, fazia parte da ‘La 12’ e até mesmo fazia caravanas para outras cidades argentinas.

O verde e branco do Palestra Itália não encantou a filha de Carmelo, que foi acolhida pelo brilho nos olhos da massa corintiana, que superou até as roupinhas e brinquedos alviverdes que ganhava de um primo por parte de mãe desde quando nasceu.

– O clube (Boca) foi formado por italianos, genoveses, por isso xeneizes. A minha família é italiana. A Giulia seguiu a mãe e torce para o Corinthians, porque no Brasil sou Palmeiras. Vim para o Brasil com 20 anos. Morava em Buenos Aires, perto do Amalfitani (estádio do Vélez Sarsfield). Ia quarta e domingo nos jogos do Boca. Estudava perto da Bombonera, saia da escola e ia para o clube, jogar tênis, baralho. Fiz parte da La 12 (organizada do Boca). A gente ficava na segunda bandeja, quando era menino – contou Carmelo ao L!.

A chegada do atacante Ronaldo ao Timão, em 2009, foi um start para Giulia, que acompanhou Time do Povo aquele ano. Mas a falta de influência fez com que a assiduidade diminuísse. Enquanto isso, Carmelo viva com o seu rádio de onda curta, colocando palha de aço na antena para tentar o sinal de rádios argentinas para escutar os jogos do Boca.

Giulia, então, decidiu voltar a estaca única, apenas ‘azul y oro’. Mas ela já estava acolhida pelo Coringão, não tinha jeito. Então, em 2012, ela decidiu voltar a a companhar o clube alvinegro.

Seo Carmelo não tinha oposições pra escolha corintiana da filha, mas também não imaginou o que aconteceria no dia 4 de julho de 2012.

Conforme os cruzamentos da Libertadores daquele ano afunilavam o encontro entre Corinthians e Boca em uma decisão foi ficando real e aconteceu.

O coração dividido de Giulia ganhou a exclusividade o Timão. O motivo? Acabar com a piada. Ela queria que o Time do Povo sentisse aquele gosto que o torcedor xeneize havia sentido em sete oportunidades, e que ela, mesmo pequena, tinha desfrutado em 2007.

Sem coragem de comunicar a escolha ao pai, decidiu ficar calada e assistir a partida como se tivesse anestesiada, sem reação. Sem reação, viu ao gol de Roncaglia, abrindo o placar para o Boca no jogo de ida, e sequer vibrou quando Romarinho empatou, em um momento emblemático para a história corintiana.

Sobreviveu aos 90 minutos iniciais, o que não pode se dizer dos finais. Seria demais para uma pessoa com raízes argentinas. Na volta, no Pacaembu, foi ao êxtase com os dois gols de Emerson Sheik. Vibrou na frente da sua televisão e ao lado do pai derrotado.

– Mesmo sendo Boca Juniors de coração, eu torci para o Corinthians porque eles mereciam ser campeões. Foi a primeira vez que ganharam em 102 anos. Eu não falei para o meu pai porque não sabia que o Corinthians chegaria na final. Assistia aos jogos do Boca da mesma maneira do que os do Corinthians. Quando chegou a final, fiquei quieta assistindo. Saiu o gol do Roncaglia e eu falei que não ia torcer. No gol do Romarinho, falei que teria que ser agora. Na outra semana, no primeiro gol do Sheik eu entreguei, agora era Corinthians. Meu pai ficou triste – recordou a jovem.

Além da marca de 10 anos do dia em que Giulia rivalizou com o pai e viu o Corinthians campeão da Libertadores pela primeira vez, esse 4 de julho de 2022 marca a véspera de um novo confronto decisivo entre os times, que se enfrentarão nesta terça-feira (5), pela volta das oitavas de final da Liberta. Na ida, um empate sem gols, na Neo Química Arena, manteve tudo em aberto.

Diferentemente do que ocorreu há uma década, dessa vez a torcida de Giulia é pelo Boca, justamente por conta dos 14 anos dos xeneizes sem levantarem o caneco continental.

– Vou torcer pelo Boca porque estou muito tempo sem ver um título do Boca na Libertadores, o último foi em 2007. Quero ter esse prazer de ver o Boca ganhar – justificou a torcedora.

Mesmo com o prazer de ter a filha do mesmo lado dessa vez, Carmelo não sente confiança na equipe que torce.

– Não estou confiando muito. O Boca tem um bom time, há muito tempo tem uma molecada boa. O problema é que o técnico é de divisões inferiores. Foi um monstro em campo, jogador que mais títulos ganhou, mas não tem tamanho para dirigir. O Boca não é para amador, no vestiário quebra pau. Tem que saber controlar o extracampo. Eu não espero nada – expôs.

Para Carmelo resta a confiança de que a camisa jogue bola e a Bombonera faça do Boca um entre os oito times na próxima fase da Libertadores. Já para Giulia, seja quem passar ela já tem o seu favorito das quartas de final para frente.

Giulia e Pai - Corinthians e Boca
Giulia e Pai - Corinthians e Boca

Giulia acompanha o pai em viagens para a Argentina desde muito nova (Foto: Acervo pessoal)

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