Gorbatchov mudou a face do esporte mundial com abertura política soviética

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quando Valeri Borzov ganhou a medalha de ouro nos 100 metros do atletismo nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, o jornal The New York Times estampou a manchete: "O homem mais rápido do mundo é um comunista".

O soviético ficaria com o bronze quatro anos depois, em Montreal. Na área dos atletas, antes da prova, o trinitino Hasely Crawford descreveu Borzov como alguém que "não parecia deste mundo".

Eram palavras que outras pessoas usariam para falar dos atletas da antiga Cortina de Ferro, a zona geográfica de influência política da União Soviética na Europa. Causou espanto quando Ladislav Petras, da hoje extinta Tchecoslováquia, comemorou gol contra a seleção brasileira na Copa de 1970 fazendo o sinal da cruz. Para muitos, a imagem de um "comunista católico" era algo inimaginável.

"A gente não sabia absolutamente nada sobre eles", confessaria depois o atacante brasileiro Jairzinho.

Mikhail Gorbatchov mudou o esporte mundial por tornar visível e acessível no Ocidente a face dos atletas da União Soviética. A Glasnost, política estatal de abertura política e liberdade de expressão implantada por ele nos anos 1980, iniciou um processo que permitiu a atletas ir a outros países, tornar-se astros mundiais e ganhar um dinheiro que antes lhes seria inimaginável.

Gorbatchov, líder soviético entre 1985 e 1991, morreu na terça-feira (30), aos 91 anos. O ganhador do Nobel da Paz de 1990 sucumbiu, segundo o Hospital Clínico Central da Academia Russa de Ciências, a uma "doença grave e prolongada".

Ele se tornou secretário-geral do Partido Comunista, cargo cujo titular de fato comandava a União Soviética, em março de 1985. No ano anterior, os países do bloco comunista haviam boicotado os Jogos Olímpicos de Los Angeles. Em 1980, nações aliadas dos Estados Unidos haviam feito o mesmo para o evento realizado por Moscou.

"Já tinha ouvido falar na possibilidade [de boicote], mas não levei a sério. Por que fariam aquilo? Quando nos contaram que não iríamos a Moscou, eu fiquei... Eu fiquei embasbacado. Não conseguia acreditar. Por quê? Como a nossa presença ou ausência mudaria a situação do Afeganistão?", disse à reportagem o nadador norte-americano Craig Beardsley. Ele estava classificado para os 200 metros borboleta e era um dos favoritos ao ouro.

O argumento do presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, para não ir aos Jogos de 1980 foi a invasão soviética ao Afeganistão.

Com a União Soviética sob o comando de Gorbatchov, o país foi a Seul-1988, assim como os Estados Unidos. Publicações norte-americanas batizaram aquela edição olímpica como "os Jogos da Glasnost".

A abertura política e econômica implantada por ele levaria ao fim da União Soviética em 1991. Os atletas da região disputaram no ano seguinte as Olimpíadas de Barcelona sob a sigla CIS (em português, CEI, Comunidade dos Estados Independentes). Em Atlanta-1996, cada nação competiu sob sua própria bandeira, e a Rússia ficou em segundo no quadro de medalhas.

A gestão econômica de Gorbatchov fez com que empresas estrangeiras entrassem na Rússia. Uma das consequências foi patrocínio a atletas e equipes nacionais. Também abriu a porta para que esportistas locais reclamassem abertamente dos pagamentos oferecidos pelo governo.

Um deles foi Serguei Bubka, recordista mundial do salto com vara. Ele afirmou que seu pagamento era "aviltante" comparado com seus concorrentes ocidentais.

Em 1989, ele recebia uma ajuda de custo mensal equivalente a US$ 240 (R$ 1.244, pela cotação atual). Se quebrasse o próprio recorde mundial, receberia US$ 2.950 (R$ 15.300, atualizado) de prêmio. A liberdade política fez com que buscasse reforçar o caixa onde fosse possível.

Em uma competição realizada em Londres, a organização perguntou a Bubka, já com o primeiro lugar garantido, se ele tentaria superar o recorde mundial.

"Sim, em troca de um carro novo", respondeu.

Gorbatchov abriu caminho também para mudanças em esportes americanos como o hóquei no gelo, que passou a receber nomes da Cortina de Ferro. Antes de 1985 era quase impossível. Um dos maiores exemplos foi Igor Larionov, tricampeão da Stanley Cup, a final da liga profissional da modalidade (NHL), pelo Detroit Red Wings (1997, 1998 e 2002) e incluído no Hall da Fama do esporte.

Apelidado de "Professor", ele foi para os Estados Unidos em 1989 e, antes disso, acusou o técnico da seleção soviética, Viktor Tikhonov, de ser um ditador a serviço do Comitê de Esportes do Estado.

Houve o efeito colateral, claro. O desmantelamento da União Soviética e a venda das estatais por preços abaixo do mercado para amigos do regime, já sob a presidência de Boris Ieltsin, fez surgir uma nova casta de milionários. Vários deles resolveram investir no futebol.

O caso mais famoso foi o de Roman Abramovich, dono do Chelsea, da Inglaterra, de 2003 a 2022. Um dos principais responsáveis por inflacionar o mercado do futebol europeu com contratações milionárias.

"Para os esportistas da União Soviética, a Glasnost implantada por Gorbatchov abriu um leque de possibilidades. Foi um mundo completamente novo para nós", analisa o ex-zagueiro Serguei Baltacha, nascido na Ucrânia e um dos primeiros jogadores da União Soviética a conseguir atuar em outros países da Europa. A partir de 1988, ele passou pelo inglês Ipswich Town e pelos escoceses St. Johnstone e Inverness.