Ex-BBB Angélica Morango fatura R$ 8 mil com venda fotos sensuais: “Mulheres são livres para produzir o que quiserem”

Felipe Abílio

A produção de conteúdo adulto voltada ao público masculino, que objetifica mulheres e estimula a violência, parece estar com os dias contados. Dominado por homens há décadas, esse mercado vem perdendo espaço para produções criadas e voltadas para mulheres. Plataformas como o OnlyFans (OF) são um exemplo disso.

Famosas, como a atriz Bella Thorne e a cantora Anitta, já têm seus perfis na rede social para "nudes", e fazem sucesso com a criação de seus próprios conteúdos. Recentemente, a jornalista e ex-BBB Angélica Morango, que participou da 10a edição do programa, também se aventurou no serviço de conteúdo por assinatura.

Leia também

Cobrando, no mínimo, 30 dólares por assinatura mensal, Angélica revela que, no primeiro mês, faturou 8 mil reais com seu conteúdo sensual. Só a filmagem de um vídeo de um minuto, feito a pedido exclusivo de um assinante, chegou a render 3 mil reais. Mas não foi só a questão financeira que encantou a jornalista, a possibilidade do controle de produção era o que ela precisava para decidir ingressar de vez neste mercado.

“Ao longo da história da humanidade, sempre houve mulheres de vanguarda. Mas isso nunca foi bem visto pela estrutura patriarcal. É muito mais fácil ser uma pessoa hipócrita e omissa do que falar abertamente sobre desejos e fantasias sexuais”, acredita. “As mulheres precisam entender que são livres para produzir e consumir o que quiserem.”

Em um bate-papo sem censura, a jornalista explica como ingressou na rede, revela seu modelo de produção e conta como vê essa mudança de paradigmas.

YAHOO: De onde veio a ideia de criar um perfil no OnlyFans?

AM: Desde que a Bella Thorne, ex-estrela da Disney, ingressou na plataforma, em agosto do ano passado, diversos sites noticiaram que ela teria faturado 1 milhão de dólares em 24 horas. O exemplo dela, que foi seguido por outros artistas de peso, trouxe credibilidade ao site. Não é uma plataforma pornô, é extremamente diversa.

Anitta e Cardi B são famosas que também estão na plataforma, você se inspira nelas de alguma forma?

Acho que a postura artística delas é irretocável e inspiradora de modo geral, mas foram duas outras mulheres que me motivaram a abrir uma conta no OF. A escritora Marina Barbieri, que eu entrevistei justamente quando tinha pouco mais de um mês de conta, falou sobre esse novo trabalho de forma superaberta; e a Pietra Príncipe, que é pintora, modelo e me mandou um áudio muito “do nada” no Whatsapp dizendo que estava curtindo muito a plataforma e que eu deveria experimentar. Ela me deu umas dicas que fizeram toda a diferença.

A plataforma é indicada para vender fotos sensuais e com nudez, as famosas “nudes”. Essas imagens precisam ser necessariamente explícitas?

Funciona basicamente como o Instagram. Há artistas, modelos e profissionais de todos os estilos; desde estritamente musicais, aos que trabalham com conteúdo adulto explícito – a diferença fundamental entre os dois sites é essa. No OF, o dono da conta determina se a conta é grátis ou se cobra um valor pela assinatura, e quem assina também pode tentar comprar conteúdos exclusivos por inbox.

Como você lida com a autoconfiança para esse tipo de exposição?

Antes de abrir uma conta no OF, eu tinha mandado uns quatro nudes na vida. Só. Todos sem mostrar o rosto. Mas, uma vez lá, as coisas aconteceram naturalmente, mostro muuuuito mais. A plataforma me deixa segura, o público é restrito e eu só faço o que tenho vontade.

A sensação, em alguns momentos, é a de estar num jogo de videogame, mas o avatar é real: sou eu. O material exclusivo mais caro que produzi foi um vídeo, de um minuto, por 3 mil reais. A plataforma é altamente rastreável, ou seja, caso o material seja vazado na internet, dá pra acionar judicialmente a pessoa responsável.

Sofreu críticas ou passou por uma situação de preconceito?

Nenhuma, pelo contrário. Quando divulgo uma foto e o link do OF no Twitter, por exemplo, há centenas de curtidas e compartilhamentos – o que alavanca meu engajamento no próprio Twitter e no OF.

Muitos jovens da geração Z usam a plataforma. Mas a faixa etária mais velha, que está na casa dos 30 anos, os millennials, ainda teme a exposição, talvez por conta do trabalho e da repressão familiar. O que você acha disso?

Aos 51 anos, a Jennifer Lopez lançou um álbum com uma foto nua na capa, no finalzinho do ano passado. Ela é uma mulher maravilhosa, multitalentosa e não precisa provar nada para ninguém. Também não precisava da nudez para alavancar o trabalho. Outros elementos pesam nas nossas decisões cotidianas ou profissionais. Vaidade com certeza é um deles. Ela não expôs o corpo porque precisava, mas porque quis. Refleti muito sobre isso e foi determinante na minha decisão de abrir uma conta no OF. Pensei: “Por que não?!”.

Sobre preservar a imagem, é um ponto. Não sei se recomendaria o OF para quem tem 20 e poucos anos e pretende seguir carreiras muito formais. Ainda assim, diversas celebridades, de jornalistas a políticos, já tiveram nudes ou cenas de sexo expostas na internet e nenhuma carreira acabou por causa disso.

Acha que ter nudes na internet pode atrapalhar o trabalho como jornalista?

Quando entrei no BBB tive esse medo, porque me expus muito no programa, de diversas formas, numa época em que jornalistas sequer podiam fazer “publis”. Em 11 anos o mundo mudou muito, felizmente. Não acredito que meu trabalho no OF prejudique minha carreira como jornalista. Tenho feito de forma muito aberta – divulgo nas minhas redes, não é nenhum segredo, e vou contar detalhes de toda essa experiência na biografia que lanço ainda este ano.

Que atire a primeira pedra quem nunca mandou um nude... Por que você acha que falar abertamente sobre isso ainda é um tabu?

Para mim, falar sobre não é um tabu. De forma geral, quando alguém se incomoda com algo na minha postura ou nos meus posicionamentos, gosto de perguntar o que, exatamente, a está incomodando. Se eu posto fotos do meu corpo num ambiente restrito e isso incomoda alguém, o problema não está em mim, mas nos motivos que levaram essa pessoa ao desconforto.

Com todo o histórico machista que temos no nosso país, e na sociedade, como você faz para afirmar sua posição de corpo livre?

Tenho 36 anos de idade e estou vivendo a fase mais feliz da minha vida, em diversos aspectos. Celebro isso todos os dias. Já fui extremamente insegura com o meu corpo, como mulher, como profissional... Um dia, olhei para trás, para tudo o que passei. Mesmo tendo participado de um reality e sendo bastante ativa nas redes sociais, a parte visível da minha história não chega a dez por cento do que já enfrentei e do que sou. Sobrevivi a situações-limite. Nem sempre me olhei no espelho e me achei linda, o que tem a ver com todo o conjunto, não só o físico. Mas acho que quando a gente consegue se olhar no espelho e se achar uma deusa, guerreira, uma mulher fodaralha, meu amor, tudo muda.

Dá para ganhar um dinheiro bom na plataforma?

Sim. A assinatura mensal da minha conta no OF é de 30 dólares. No meu primeiro mês foram quarenta assinaturas – e isso me surpreendeu muito, eu não esperava, até porque a gente vive um momento econômico extremamente delicado. O valor é em dólar e todos os assinantes são brasileiros, fãs mesmo, não internautas do exterior que encontraram meu perfil aleatoriamente. É bem significativo.

E como funciona a produção. Você tira um dia para criar os ensaios ou vai fazendo conforme à vontade bate?

Tiro as fotos na hora, de acordo com a minha vibe. A proposta é fazer um registro fotográfico que funcione como um diário. Tem registro na cama, na praia, cozinhando, tomando banho...

Acha que isso pode te prejudicar na hora de começar uma relação amorosa?

Acredito que não. Comecei no OF há pouco mais de um mês, então não deu para notar nenhuma diferença nesse sentido. Mas se, em algum momento, o meu trabalho vier a ser um empecilho, certamente não seria uma relação pela qual valesse a pena lutar. Já passei por um “dilema” assim antes e tive que escolher entre o trabalho e a relação, porque meu trabalho ficava a algumas centenas de quilômetros de distância da minha relação – que já estava totalmente fragilizada por outras questões. O trabalho nunca é o problema. O fim de uma relação, aliás, nunca se dá por um único motivo. Escolhi o trabalho, o meu sonho, o meu propósito de vida – e não podia ter escolhido melhor.

Por ser lésbica, acredito que você tenha um público feminino muito grande. No entanto, pela própria cultura machista na produção adulta, as mulheres não parecem ter incentivo para consumir esses conteúdos. Você sente que pode "revolucionar" essa questão, pelo menos com o seu público. Como foi a aceitação das mulheres e como você vê essa situação em 2021?

Ao longo de toda a história da humanidade, sempre houve mulheres de vanguarda. Em todas as frentes e espaços, mas isso nunca foi bem visto pela estrutura patriarcal. É muito mais fácil ser uma pessoa hipócrita e omissa do que falar abertamente sobre desejos e fantasias sexuais. Mas qual o sentido disso? Por que sustentar, publicamente, uma imagem conservadora e se deleitar com todas as possibilidades de prazer apenas "no sigilo"?

Não sou, nem nunca fui hipócrita. Sempre curti e consumi conteúdo adulto. Sou extremamente bem resolvida quanto a isso. Já tive fases de curtir pornô gay masculino e atualmente curto pornô hétero. Não sou mais nem menos lésbica por isso.

Sobre as pessoas que me acompanham nas redes sociais, 75% são mulheres; 25% homens. No OF, essa proporção se inverte. As mulheres ainda consomem menos conteúdo adulto do que os homens, mas há uma mudança em curso. Não só porque há mais mulheres produzindo conteúdo sem estar à mercê das diretrizes masculinas, mas também porque há uma mudança coletiva de mentalidade. As mulheres precisam entender que são livres para produzir e consumir o que quiserem. Isso é libertador.