Formiga relembra machismo como desafio na carreira: “Meus irmãos não gostavam”

Formiga durante cerimônia no Mineirão em 15 de março de 2022 (Foto: DOUGLAS MAGNO/AFP via Getty Images)
Formiga durante cerimônia no Mineirão em 15 de março de 2022 (Foto: DOUGLAS MAGNO/AFP via Getty Images)

Miraildes Maciel Mota ou simplesmente Formiga, uma craque do futebol feminino, conversou com o Yahoo Esportes para falar tudo sobre carreira, futebol, nova geração, seleção brasileira, futebol feminino. Em entrevista tocante, conversamos diversos pontos para enfatizar pautas atuais no meio social, esportivo, cultural, econômico, como: a luta das meninas, em especial, a luta contra racismo, o machismo dentro do mundo do futebol.

Com uma marca importante, chegada em decisões de mundiais e Olimpíadas, Formiga junto de Marta e Cristiane se firmou como a geração mais importante da história do futebol brasileiro feminino.

Yahoo Esportes: Como você conheceu o mundo do futebol? Como você começou a carreira?

Formiga: “Por ter vários irmãos, o futebol sempre se fez presente em casa então foi natural gostar do esporte. Iniciei minha carreira no futsal, vestindo a camisa do Euroexport, equipe da minha cidade. A partir do Euroexport minha carreira começou a tomar forma e logo fui para o futebol de campo, onde consegui me destacar até chegar à Seleção ainda com 15 para 16 anos.”

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O enredo da grande maioria dos jogadores de futebol é uma vida feita de luta e superação. Qual foi o seu maior obstáculo na vida?

“O maior obstáculo que encontrei na vida esportiva foi o preconceito no início de carreira. Meus irmãos não gostavam que eu jogasse futebol. Chegaram até a usar da força física para me fazer desistir de jogar. Naquela época o futebol feminino, mais do que hoje, era visto como esporte para homens e isso refletiu dentro de casa. Porém, essa dificuldade me fez querer cada vez mais e me tornou mais forte.”

Pela seleção, acabou batendo na trave tanto no mundial quanto nas Olimpíadas. Quais foram os detalhes, o que faltou na disputa de ambas as competições?

“Fizemos boas campanhas tanto nos Mundiais quanto nas Olimpíadas, mas por detalhe a bola acabou não entrando e ficamos perto do título. Acredito que nos faltou sorte, pois tínhamos equipes qualificadas e bem focadas no objetivo, mas, infelizmente, o esporte tem dessas coisas. É claro que lamentamos uma bola ou outra que não entrou e se tivesse entrado poderíamos estar celebrando e relembrando algumas conquistas. Porém, nós devemos nos orgulhar das campanhas que fizemos, pois não é fácil chegar e conquistar o que conseguimos.”

O racismo até hoje é muito forte em todo o mundo. Como a Europa, o exterior tem lidado com os ataques racistas nos estádios? Há uma política de punição?

“É claro que a gente sabe que o mundo ainda não tem uma punição severa contra torcedores ou até mesmo os árbitros que, de uma certa forma, acabam punindo atletas por fazer algum gesto em resposta ao ato. Parece até que eles são coniventes a isso, mas eu acredito que não se tenha ainda uma punição que sirva de exemplo para os demais e para o resto do mundo. O máximo que pode acontecer é os infratores irem presos e pagarem fiança, mas isso não muda nada. Recentemente pudemos ver casos desta natureza e não percebemos mudança significativa quanto a leis. O meu desejo é que banissem esses torcedores de irem aos estádios, talvez exista essa punição em algum lugar, mas, infelizmente, eu desconheço.”

Teve algum clube no Brasil ou no exterior que gostaria de ter atuado na carreira?

“Me orgulho muito da minha trajetória e dos clubes que passei. Pude fazer história e ajudar todas as camisas que vesti e visto. Tenho a mentalidade de encarar cada clube que represento da melhor maneira possível, sem pensar nos demais times. Acredito que visto e vesti camisas de grandes clubes, mas, é claro, não consegui jogar por todos os clubes de histórias bonitas que existem. Prefiro me apegar aos gigantes que representei, mas, é claro, ainda poderei vestir outras camisas. Afinal, minha ideia é continuar jogando um pouco mais.”

Após sua aposentadoria na seleção, como você tem visto a atual geração? Terá o mesmo brilho da sua, de Marta, Cristiane e cia?

“Temos uma boa geração. Acredito que a Seleção Brasileira está bem representada, não só na seleção principal, como, também, na base. Cada geração construirá sua própria história. Portanto, seria cruel colocar o peso nas novas gerações. Mas consigo ver, como disse, ótimas atletas surgindo em todas as categorias e tenho certeza que elas trarão muitas alegrias ao povo brasileiro. Eu estarei acompanhando e sempre na torcida por elas.”

O que espera do futuro em termos de carreira: comentarista, dirigente, técnica ou fica distante do futebol?

“Estou com a cabeça focada no São Paulo, meu atual clube, mas a ideia quando eu parar é me manter próxima ao futebol. Ainda não me decidi sobre qual área devo seguir, mas tenho a certeza que estarei por perto do esporte. Seja comentando jogos, seja como dirigente ou até mesmo como técnica.”