Fofão dá aula de vôlei online e planeja se tornar treinadora: “Deixo a vida me levar”

Fofão durante as Olimpíadas de 2000, em Sydney (Foto: ROBERT SULLIVAN/AFP via Getty Images)
Fofão durante as Olimpíadas de 2000, em Sydney (Foto: ROBERT SULLIVAN/AFP via Getty Images)

Imagina aprender os fundamentos de vôlei com nome de peso da história da Seleção Brasileira? Pois é. Homens e mulheres podem aprender com a ex-levantadora Fofão de forma online. Aos 52 anos, ela coordena o curso “Fofão 7”, com a proposta do aperfeiçoamento dos fundamentos do vôlei.

Fofão encerrou a sua carreira de jogadora em 2015. Logo depois, com o aumento das redes sociais, passou a ser procurada por diversas pessoas. Cada um pedia uma dica de como melhorar um fundamento do vôlei. Com a procura crescente, Fofão viu a porta de uma oportunidade se abrindo. Gravou um vídeo ensinando um fundamento, que viralizou. Com o início da pandemia de covid-19, em 2020, o conteúdo bombou.

“Eu fiz um vídeo mostrando como era o meu toque e foi super bem curtido. Eu e a equipe do marketing, que está comigo até hoje, nos reunimos e decidimos fazer. Fazemos vídeos não só do esporte, mas da parte psicológica também. Veio a pandemia, que reforçou muito mais, porque as pessoas não podiam sair para jogarem vôlei”, disse Fofão com exclusividade para o Yahoo Esportes.

O treinamento do Fofão 7 está no ar desde 2019 com a participação de mais de 500 alunos e as aulas são planejadas de acordo com as dúvidas dos participantes. Por meio da caixa de perguntas dos stories do Instagram as pessoas relatam os problemas, e Fofão grava os vídeos para resolvê-los.

Pode participar desde a pessoa interessada em melhorar a sua atuação na “pelada” até aquele (a), que sonha em ser aprovado em testes de clubes. O tempo de treino é de 15 minutos.

“Eu fico motivada com esses retornos dos alunos. Os feedbacks deles são importantes e nos dão ‘gás’ para nós continuarmos ensinando. É sensacional! Nós tivemos aqui um caso de um rapaz lá do Uruguai, que passou na peneira em um time lá do Sul. Têm alguns que dão esse retorno das perneiras para nós. É um grupo muito homogêneo e com várias situações”, respondeu.

Outro objetivo da escola Fofão 7 é a “libertação” daquele treino “vicioso” para que o aluno ou professor perceba que grandes lances e fundamentos não pertencem apenas aos craques.

“Para quem não sabe é importante entender a técnica no voleibol, que se você não tiver, não joga. Dou exemplo de que você pode jogar na escola e no condomínio do prédio, mas se você não sacar ninguém vai querer você no time. Então, eu reforço esse cuidado da vontade de aprender. São detalhes que ajudam nas correções”, comentou.

Esse trabalho online de três anos permitiu a recente ação social da Fofão na capital paulista, cujo trabalho foi feito em 30 de julho de 2022 na Zona Norte de São Paulo, bairro em que Fofão nasceu e foi criada. A ex-jogadora também vai fazer aula presencial para os alunos e alunas do Fofão 7.

“O projeto é para 60 crianças do bairro, que eu nasci. É muito legal. Vamos fazer uma aula presencial do meu curso no mês de novembro, será em São Paulo e iremos divulgar. Eu vou vivenciar um dia de treinamento, com bate-papo e trazer os alunos para perto de mim. Eu acho que isso dá uma outra motivação”, falou.

Falta de reconhecimento

Multicampeã na história do vôlei feminino brasileiro, Fofão disse que a sua geração da “Era Dourada” do esporte não recebe a sua devida valorização.

“Eu estava conversando com as minhas amigas de como está diferente agora com as redes sociais. As coisas vão evoluindo e surgindo coisas para um atleta. Lógico que eu gostaria de ser mais vista pelo trabalho que faço, mas dentro do vôlei nós não temos uma visibilidade tão grande. O voleibol deveria ser mais explorado e temos campeões olímpicas espalhadas pelo país. Isso que eu sinto da falta de nos valorizar como jogadoras de vôlei. Valorizar que eu digo é sobre as mulheres que lutaram pelo Brasil e trouxeram resultados. Nós vemos pouco das jogadoras, que fizeram muitas coisas. O vôlei nacional está assim graças as outras gerações, que muitas vezes não recebiam o que mereciam”, argumentou.

Ainda elogiou nessa ocasião o retorno da central Carol Gattaz para Seleção e opinou sobre o trabalho de renovação feito pelo atual técnico do Brasil, José Roberto Guimarães.

“Eu fiquei feliz com o retorno da Carol Gattaz para Seleção e é uma pessoa que conheço. Ela tem o perfil de liderar e vai ser bem importante. Primeira vez que nós vemos uma leva nova. Superliga é uma coisa, Seleção é outra, e as novas meninas do Brasil vão ter que mostrar capacidade porque é uma exigência maior, mas fiquei feliz pela maneira como essa nova geração entrou na última Liga das Nações [Brasil foi vice-campeão e perdeu a final para a Itália]. As jogadoras mostraram vontade e lutaram até onde deu. Isso já foi um passo importante. Agora é dar tempo”, discorreu.

O foco da Seleção Brasileira é a preparação em busca do título inédito da Copa do Mundo. “Falta isso para o currículo do vôlei feminino e vamos torcer pelas meninas! Que elas possam ocupar os espaços e mostrar as suas qualidades. Só evolui jogando e com adversárias fortes”, afirmou.

Futuro como comentarista ou treinadora?

Fofão fez trabalhos esporádicos como comentarista nos canais “BandSports”, “SporTV”, “ESPN” e no serviço de streaming “NSports”, oportunidades que lembrou com carinho e citou a vontade de continuar na NSports.

“Graças a Deus muitas portas se abrem para mim. Eu gosto muito de ser comentarista. Faço esses serviços pontuais e eu gosto dessa liberdade. Comecei um projeto desde o início com a NSports e nós vemos o quanto está crescendo. Não sei como vai ser em 2022, mas espero que continue”, disse.

Ao mesmo tempo, obteve as suas licenças para exercer o cargo de técnica e indagada sobre essa chance, ponderou que não é o tempo ideal de assumir.

“Eu sinto que não é o momento para eu ser técnica, mas eu vou vivenciar. Todas as minhas licenças já estão prontas. Como eu nunca planejei nada, quando vier à minha frente eu vou aceitar sem problema nenhum. Deixo a vida me levar (risos)”, concluiu.

Carreira

Hélia Rogério de Souza Pinto, ou simplesmente, Fofão, iniciou a sua carreira de jogadora no ano de 1985 em São Caetano do Sul-SP pelas equipes do Pão de Açúcar e Colgate, depois defendeu Sollo-SP, Transmontano-SP, Uniban-SP, Minas Tênis Clube, Rexona/Ades-RJ, São Caetano E.C./Blausiegel, o italiano Perugia, o espanhol Murcia e o poderoso turco Fenerbahçe.

Nesse ciclo de clubes, conquistou três edições do Paulista (1998, 1999 e 2001), seis taças da Superliga (1991/92, 1998/99, 2001/02, 2012/13, 2013/14 e 2014/15), quatro sul-americanos (1992, 2001, 2013 e 2015), duas Copas da Itália (2005 e 2006) e da CEV (2004/05 e 2006/07),o bicampeonato do italiano (2004/05 - 2006/07) e da Challenge Cup (2005 – 2007), Champions League (2005/06), Supercopa da Espanha (2007), Copa da Rainha (2007/08), Espanhol (2007/08), Supercopa da Turquia (2010), Campeonato Turco (2010/11) e Mundial de clubes (2010).

Serviu a Seleção Brasileira de 1993 até 2008 e os seus principais títulos são o tetracampeonato do Grand Prix (1994, 1996, 1998, 2004 e 2008), o Pan-Americano de Winnipeg, no Canadá (1999), o ouro olímpico em Pequim (2008) e duas medalhas de bronzes em Atlanta (1996) e Sydney (2000). Ainda “colecionou” três vices da Copa do Mundo no Japão (1995, 2003 e 2007) e o terceiro lugar de 1999 na própria “Terra do sol nascente” e atingiu em duas ocasiões o segundo lugar no pódio da Liga Mundial de 1994 e 2006.