Filipe Toledo, camisa 77, quer deslanchar como o Corinthians pós-Basílio

*** FOTO DE ARQUIVO *** SÃO PAULO, SP, 13.10.1977 - o jogador Basílio, comemora o único gol marcado contra a Ponte Preta durante o Campeonato Paulista de 1977, levando o Corinthians ao título depois de 22 anos sem vitórias, no estádio do Morumbi, em São Paulo. (Foto: Folhapress)
*** FOTO DE ARQUIVO *** SÃO PAULO, SP, 13.10.1977 - o jogador Basílio, comemora o único gol marcado contra a Ponte Preta durante o Campeonato Paulista de 1977, levando o Corinthians ao título depois de 22 anos sem vitórias, no estádio do Morumbi, em São Paulo. (Foto: Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Filipe Toledo era um jovem de 19 anos quando a Liga Mundial de Surfe (WSL, na sigla em inglês) instituiu números nas camisas de seus atletas, em 2015. "Como vocês sabem, 77 é o ano em que o Basílio tirou o Coringão da fila. Vai Corinthians!", disse o paulista, justificando sua escolha.

"Corintiano fanático", como se descreveu, ele venceu a primeira etapa com a malha, em Gold Coast, na Austrália, e lutou pela liderança até o final da temporada, mas acabou perdendo a briga. Depois disso, teve bons momentos e ficou com o vice-campeonato em 2021, porém foi só após nove anos no circuito que alcançou aquilo com que tanto sonhava.

"A gente sofre, mas não desiste", afirmou, em entrevista à Folha de S.Paulo, dividindo o sentimento com os demais membros da Fiel. "Veio na hora certa, com um gostinho mais especial. Foram longos anos de lutas e treinos e trabalhos e sacrifícios. O momento de levantar o troféu foi, tipo: ok, consegui agora, né, deu tudo certo, demorou, mas chegou."

Alívio foi a palavra que Toledo, hoje com 27 anos, usou ao receber a taça de campeão do mundo de 2022, na semana passada. Uma escolha lexical recorrente entre torcedores do Corinthians em 13 de outubro de 1977, quando o gol do meio-campista Basílio lhes tirou 22 anos, oito meses e sete dias das costas.

O jejum alvinegro acabou naquele Campeonato Paulista, e o time foi se acostumando a vencer. Em 1979, já com Sócrates -que precisou explicar à torcida que a ansiedade não era mais necessária e habituá-la a um novo ritmo-, a conquista foi repetida. Em 1982 e 1983, no histórico período da Democracia Corinthiana, chegou o bi em cima do rival São Paulo.

Tal qual seu clube após a libertação pelo pé angelical de Basílio, Filipe agora quer se familiarizar com o triunfo. Livre do martírio que o fez ainda mais identificado com o protótipo "corintiano, maloqueiro e sofredor", agora busca espelhar-se na agremiação que, solta das velhas amarras, levou sete títulos brasileiros e dois mundiais.

No caso do surfista, o que está ao alcance é repetir a glória na elite do circuito mundial e brigar por uma medalha olímpica. O surfe, que fez sua estreia no programa dos Jogos em Tóquio-2020, voltará a valer ouro em Paris-2024, nas ondas do Taiti, na Polinésia Francesa.

"Sem dúvida, tira um peso das costas, e eu fico muito mais leve, muito mais tranquilo, muito mais preparado e confiante para a próxima", disse o camisa 77. "Querendo ou não, quando a gente entende como funciona, como é a fórmula... Sem dúvida nenhuma, vou voltar incomodando no ano que vem."

A festa de Toledo em San Clemente, na semana passada, foi semelhante à dos heróis alvinegros de 45 anos atrás. "Rolou algo mais privativo, com o pessoal mais próximo. Aconteceu tudo muito rápido, na verdade, nem tinha dado tempo de entender o que estava acontecendo", afirmou.

O relato é curiosamente parecido com o de Basílio. O Pé de Anjo é até hoje -e sempre será- venerado como uma espécie de messias do Corinthians, mas, na noite em que abriu o mar para um povo sofrido, sem saber o que fazer e sem compreender claramente o que tinha feito, foi para casa.

Como Filipe, que hoje mora em San Clemente e comemorou com a mulher, os filhos e os mais chegados. Enfim campeão, ele se juntou aos seus, livre de um fardo.

Agora, vem o resto da carreira.