Febre do cubo mágico no Palmeiras: os benefícios que o hobby de Scarpa pode trazer aos jogadores

Scarpa comemora gol com Rony em alusão ao cubo mágico (Foto: Cesar Greco/Palmeiras)


Nos últimos meses, um passatempo tem se tornado comum no vestiário do Palmeiras: o cubo mágico, hobby trazido por Gustavo Scarpa, que difundiu o objeto entre os companheiros. No entanto, não se trata apenas de uma distração, a brincadeira também é uma atividade cognitiva que traz inúmeros benefícios aos atletas dentro e fora de campo, segundo especialistas ouvidos pelo LANCE!.

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Além do próprio Scarpa, meia do Verdão, a reportagem ouviu o Dr. Eduardo Hypolito, médico do esporte, e o Dr. Fabiano de Abreu, neurocientista. Os três, dentro de seus pontos de vista, diagnosticaram as consequências positivas do cubo mágico para a alta performance esportiva, não apenas nas quatro linhas, mas também fora delas, como um adicional ao que se faz nos clubes.

Para Gustavo Scarpa, a prática com o cubo mágico começou despretensiosamente, como um desafio a si mesmo diante da dificuldade que parecia ser desvendar o brinquedo

- Sempre tive vontade de resolver o cubo mágico, mas via como algo impossível e era uma das minhas metas para 2022. Aí a gente estava no acampamento da Igreja e tinha um cubo mágico e uma amiga minha começou a me ensinar. No dia seguinte, fui no canal do Renan Cerpe, comecei a ver os vídeos, fiz minhas anotações e aprendi - disse o jogador palmeirense em conversa com o

O meia, que tem sido um dos destaques do Alviverde nessa era vitoriosa com Abel Ferreira, ainda não conseguiu entender muito bem qual seria o benefício dentro de campo que o cubo mágico tem trazido, mas já sabe o que ajudou fora de campo: evitar o celular, além de ajudar de alguma forma seus colegas a fazerem o mesmo.

- Eu ainda não consegui entender quais foram os benefícios dentro de campo, mas fora de campo, me ajuda muito a deixar de lado o celular, ainda mais agora que eu tenho resolvido uns cubos maiores é muito legal deixar o celular de lado e trabalhar essa parte cognitiva e é um mundo completamente diferente do que eu estava acostumado - afirmou o atleta bicampeão da Libertadores, antes de completar:

- Acho que o maior benefício na questão prática do dia a dia foi ficar menos tempo no celular, mas acho que eles (companheiros de Palmeiras) tinham o mesmo pensamento que eu, de que era impossível e tal. Foi legal ver a alegria deles quando eles realmente aprenderam e não só aprenderam como também começaram a ensinar um para o outro e foi muito legal de ver isso acontecendo, não imaginei que fosse bombar dessa forma.

Para ajudar Scarpa, seus companheiros e demais interessados no tempo, o Dr. Fabiano de Abreu e o Dr. Eduardo Hypolito explicaram ao LANCE! os benefícios em diversos âmbitos que essa atividade cognitiva traz aos jogadores e atletas de alto nível. Confira:

Quais os benefícios que o cubo traz para dentro de campo?

Dr. Eduardo Hypolito, médico do esporte: Ajuda de inúmeras formas. O cubo mágico ou atividades similares melhoram a concentração, a capacidade de análise e de resposta para resolver um problema, além de aprimorar o raciocínio lógico. Em um jogo de futebol, o atleta precisa tomar milhares de decisões em 90 minutos, muitas vezes em milissegundos. Ou seja, a resposta neurológica que este jogador vai enviar do córtex até os neurônios motores e periféricos depende da sua capacidade cognitiva. O cubo mágico também aumenta a própria competitividade, que já é inerente aos atletas de alta performance, pois não se trata apenas de girar as camadas do cubo aleatoriamente. Existem técnicas e estudos. É um hobby que também trabalha o comportamento, a paciência e a ansiedade. Ou seja, traz muitos benefícios comportamentais também.

Dr. Fabiano de Abreu, neurocientista: O cubo mágico serve como exercício mental, exige uma neuroplasticidade que envolve a lógica. E no futebol a lógica é crucial. Entenda que na mesma região do cérebro encontra-se o foco atencional, criatividade e tomada de decisões. Ou seja, tudo isso está relacionado com a inteligência. Quanto mais desenvolve-se elementos relacionados à inteligência, melhor a criatividade e controle emocional para um melhor futebol. O atleta precisa ter um controle emocional, que está relacionado ao desenvolvimento da região da inteligência no cérebro. Assim como precisa ser criativo nas jogadas. Precisa de foco, estar atento e prevenir. Todos esses elementos estão relacionados à inteligência. Costumo usar como exemplo o Cristiano Ronaldo, que desenvolveu-se como um dos melhores, senão o melhor da história, pois tem inteligência. Tenho certeza que ele se sairia bem num teste de QI.

E fora de campo? Qual a importância desse tipo de atividade?

Dr. Eduardo Hypolito, médico do esporte:
Existem estudos e recomendações que já são amplamente abordadas em grandes clubes da Europa e, principalmente, em times da NBA, onde há um trabalho específico voltado para essa melhora da função cognitiva do atleta, que envolve a melhora da concentração, do foco, da velocidade de reação, da percepção dos movimentos ao seu redor… Cada esporte busca adaptar a sua especificidade ao que melhor lhe atende. A medicina esportiva sempre priorizou o acompanhamento do atleta de forma integral e multidisciplinar, dentro e fora do clube. Então, o que esse atleta faz no extracampo, deve ter sempre o conhecimento da equipe médica, da fisioterapia, do preparador físico, por exemplo. O atleta pode julgar que uma determinada atividade seja inofensiva, mas pode ser um fator de queda de rendimento importante. Quem vai definir e orientar se a atividade extracampo é positiva ou não, é o departamento médico. Mas vale lembrar que é uma responsabilidade mútua, uma via de mão dupla.

A parte mental do atleta demanda muito além de atividades cognitivas? Onde a neurociência pode chegar no auxílio ao esporte?

Dr. Fabiano de Abreu, neurocientista:
A neurociência já está introduzida no esporte. Inclusive, eu mesmo tenho trabalhado indiretamente com clubes através de jogadores. O trabalho com os jogadores vai desde a questão motivacional, como também lidar com danos derivados de erros. Ao falarmos de neurociência no ambiente esportivo, temos que falar sobre questões mentais relacionadas à psicologia. Ou seja, um trabalho psicológico com estratégias neurocientíficas.

Há alguma contraindicação? Alguma atividade desse tipo viria a distrair o atleta e prejudicá-lo de alguma forma ou algo assim?

Dr. Eduardo Hypolito, médico do esporte:
Depende, não existe uma contraindicação definida. Como dito anteriormente, é necessário um bom senso por parte do atleta, além da responsabilidade e conhecimento por parte da equipe multidisciplinar. Sabemos que muitos praticam atividades extracampo como jogos online, poker, entre outras. Esses jogos ajudam no desenvolvimento cognitivo do atleta, na atenção e na memorização, ao mesmo tempo em que traz prazer e relaxamento. Porém, a gente deve estar atento à quanto tempo esse atleta passa nesse hobby, se a postura em que ele senta é correta, se os estímulos da luz estão prejudicando seu sono, por exemplo. Esses pontos devem ser levantados e discutidos. Agora, dificilmente um atleta que goste de xadrez, leitura ou novos idiomas, vai ter prejuízo no seu rendimento esportivo.

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