Ex-jogador 'operário', Tommasi supera extrema direita e comanda Verona

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nos últimos 28 anos, a cidade de Verona, no norte da Itália, foi quase sempre um bastião da extrema direita. Desde 1994, houve somente um hiato, quando Paolo Zanotto, um político de centro, teve um mandato de 2002 a 2007.

Esse cenário durou até o último pleito no município, em junho, quando o ex-jogador Damiano Tommasi, 48, ex-Roma e seleção italiana, tornou-se prefeito da cidade à frente de uma coalização de centro-esquerda.

Ele obteve 53,4% dos votos contra 46,6% de seu adversário, Federico Sboarina, do partido Fratelli d'Italia, de extrema direita.

"Eu estou feliz porque, além do resultado, nós conseguimos falar de política sem necessariamente atacar o adversário, sem insultar ninguém", declarou Tommasi em sua posse.

Falar de política não é novidade para ele apesar de nunca ter ocupado anteriormente um cargo público. Mesmo como um jogador, ele não hesitava em abordar questões sociais, além de acumular uma série de atitudes que o ajudaram a se formar como um líder.

Nascido em Negrar, cidade de 17 mil habitantes situada na província de Verona, ele iniciou a carreira como atleta na década de 1990 no Hellas Verona, grande rival do Chievo. Os dois clubes da cidade têm torcidas organizadas abertamente neofascistas, com diversos episódios de racismo acumulados.

No período em que jogava em sua terra natal, ele ficou marcado, em 1993, por se tornar o primeiro jogador de futebol profissional da história italiana a exercer seu direito à chamada "objeção de consciência ao serviço militar obrigatório". Recusou o Exército e trabalhou para organizações católicas. "Não queria servir o país com um rifle na mão."

Ele atuou ao lado de dom Lorenzo Milani, o mais famoso "padre da paz" da Itália, a quem se referiu em diversos momentos em sua campanha à prefeitura de Verona. Foi inspirado em Milani que, anos mais tarde, construiu ao lado de sua esposa a "Escola Bilíngue Don Milani", com ensino de italiano e inglês.

Depois de cinco anos em sua terra natal, ele assinou em 1996 com a Roma, onde construiu uma reputação de jogador do tipo operário não só por suas atuações como meio-campista. Suas atitudes fora de campo contribuíram na construção da personagem.

Ele ficou no clube de 1996 a 2006. No período, sagrou-se campeão da "Serie A" ao lado de Francesco Totti e chegou à seleção, a qual defendeu na Copa do Mundo de 2002, na Coreia do Sul e no Japão.

Em 2004, ganhou o apelido de "Alma Sincera" por recusar-se a receber um alto salário durante um período em que ficaria sem atuar por causa de uma lesão.

Sabendo que ficaria muito tempo longe dos gramados, ele exigiu em sua renovação de contrato que, enquanto se recuperava, receberia um salário de 1.500 euros por mês, equivalente à época ao valor pago aos jogadores da base.

O jornal L’Osservatore Romano, do Vaticano, elogiou a atitude dele na ocasião: "Damiano sempre imaginou o jogador de futebol famoso como alguém responsável pelos exemplos que dá à juventude, e ele modelou o seu comportamento com isso em mente".

Antes de pendurar as chuteiras, ele teve breves passagens pelo Levante, da Espanha, e pelo Queens Park Rangers, da Inglaterra. Ainda tornou-se o primeiro jogador italiano a jogar na China, pelo Tianjin Teda, em 2009.

Em 2011, Tommasi assumiu a presidência da AIC, espécie de sindicado dos jogadores de futebol da Itália. Esteve à frente de uma greve que retardou o início do Campeonato Italiano enquanto jogadores e clubes negociavam um novo acordo coletivo de trabalho. Com um perfil conciliador, ficou no cargo até 2020, quando passou a se dedicar à campanha para a prefeitura.

Durante a corrida eleitoral, o ex-jogador foi definido pela imprensa italiana como um eterno meio-campista, não sendo considerado de direita nem de esquerda. Também chamou a atenção o fato de ele não ter feito nenhum comício. Sem subir em palanques, preferiu caminhadas pelos bairros e conversas com os cidadãos em um tom moderado.

"Nós nos aproximamos das preocupações dos cidadãos de Verona e continuaremos fazendo isso", disse, já de posse tomada.

O líder do Partido Democrático da Itália, Enrico Letta, destacou a importância da vitória: "Esse resultado nos fortalece para o futuro, na construção de um bloco de centro-esquerda que será vencedor também em nível nacional, nas eleições políticas do próximo ano".

As votações em 65 cidades, incluindo 13 capitais provinciais e regionais, foram um importante teste para o amplo espectro de grupos políticos do país antes das eleições parlamentares em 2023, quando o partido predominante definirá quem substituirá Mario Draghi como primeiro-ministro italiano.

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